Microsoft dá um passo atrás para tentar seguir em frente

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Steve Ballmer, ao lançar o Windows 8, afirmou que estava a "apostar" a própria empresa DAVID BECKER/AFP

Vendas de computadores em queda. Windows 8 piorou situação. Microsoft prepara-se para revelar nova versão.

Ao lançar o Windows 8 em Outubro, o director executivo da Microsoft, Steve Ballmer, chamou-lhe o momento em que ia "apostar" a própria empresa. No final deste mês, menos de um ano depois, a Microsoft vai revelar uma nova versão do 8, com a qual espera aplacar os utilizadores que estão descontentes com o fim de algumas das funcionalidades e formas de interacção a que estavam habituados.

Concebido para servir tanto em computadores tradicionais como em dispositivos sensíveis ao toque (tablets, mas também novos formatos, como híbridos entre computador e tablet), o 8 rompeu com as versões anteriores como nenhum Windows fazia desde o Windows 95. O conhecido ambiente de trabalho foi relegado para segundo plano e o ecrã que os utilizadores vêem primeiro é um conjunto de mosaicos coloridos (cada um é uma aplicação). O botão "Iniciar", que nas versões anteriores dava acesso a um menu com os programas instalados e uma série de outras funcionalidades, foi removido. A Microsoft procurou entrar numa "nova era" (outra das frases sonantes de Ballmer sobre o 8), na qual o interesse pelos computadores pessoais se esbate em favor de tablets e smartphones.

Os dados das empresas de análise de mercado já mostravam há muito o deslize das vendas de PC. Mas há especialistas a afirmar que o novo Windows acabou por piorar a situação.

"O Windows 8 não ajudou a aumentar o mercado de consumo, a nova interface é adequada a novos formatos e os consumidores não estão seguros sobre a sua utilização em dispositivos tradicionais, como os computadores sem ecrã sensível ao toque", disse ao PÚBLICO Bruno Lakehal, um analista sénior da Gartner. De acordo com a Gartner, o envio de computadores para o retalho na Europa Ocidental teve uma quebra- recorde de 20,5% no primeiro trimestre, face ao mesmo período de 2012.

Também a IDC, numa nota em que apresentava uma queda de 13,9% do mercado global de computadores no primeiro trimestre (outro recorde), se referiu a uma "recepção fraca ao Windows 8". Bob O"Donnell, um dos vice-presidentes da IDC, escreveu que "as mudanças radicais na interface de utilização, a remoção do familiar botão "Iniciar" e os custos associados aos ecrãs de toque tornaram os PC menos atractivos".

100 milhões de vendas

A Microsoft já respondeu às críticas. No blogue da empresa, o vice-presidente responsável pela comunicação argumentou que "ouvir as críticas e melhorar um produto é uma coisa boa" e que vender 100 milhões de licenças nos primeiros seis meses (o mesmo que o Windows 7), também.

As licenças vendidas são o único dado de desempenho divulgado pela Microsoft, mas tem suscitado dúvidas sobre se reflecte o interesse dos utilizadores. O número abarca tanto os utilizadores que fizeram a actualização de uma versão anterior do Windows, como os equipamentos em que fabricantes tenham instalado o sistema. E estes equipamentos são contabilizados mesmo que estejam nas prateleiras das lojas.

Já a Microsoft Portugal disse não poder revelar números do mercado português. A directora de relações públicas, Patrícia Fernandes, afirmou que o Windows 8 teve "um bom início de comercialização", sobretudo na instalação em computadores com versões anteriores (algumas marcas de computadores ofereceram-se, durante alguns meses, para pagar a actualização aos consumidores). "O retalho demorou algum tempo a ter a oferta de dispositivos em pleno e por isso notámos uma descolagem das vendas sobretudo já em 2013, com a maior variedade de dispositivos e a chegada em força dos tablets Windows 8 das diversas marcas".

A par do novo sistema, a Microsoft decidiu fabricar também hardware e lançou o Surface, que chegou ao mercado em duas versões. Uma, equipada com Windows 8, é um tablet que pode ser usado como computador portátil. A outra tem o Windows RT, um sistema de aspecto semelhante ao 8, mas despido de algumas funcionalidades e vocacionado para tablets puros.

Os resultados são tépidos. De acordo com a IDC, o Windows 8 tinha, no primeiro trimestre deste ano, uma quota de 3,3% no mercado dos tablets. O RT ficava-se pelos 0,4%.

Entre as mudanças que a Microsoft trará agora ao Windows 8, está uma que permitirá que seja usado em tablets mais pequenos e mais baratos. Outra é uma espécie de botão "Iniciar", embora não mostre o mesmo menu que os Windows anteriores. E uma outra permitirá que o computador arranque directamente no mais familiar ambiente de trabalho.

A aposta de Steve Ballmer não foi dada como perdida. Mas o recuo e a necessidade de criar um Windows 8.1, que deverá chegar aos utilizadores mais no final do ano, estão a ser encarados, pelo menos, como uma derrota parcial.