40% dos alunos do secundário não querem entrar no superior

Mais de 40% dos estudantes que vão fazer as provas nacionais do secundário a partir da próxima semana não vão prosseguir os estudos para o ensino superior, ou seja, uma quebra de mais de 9000 estudantes com intenção de fazer uma licenciatura na altura da inscrição nos exames. É uma situação sem precedentes, que os especialistas relacionam com a crise e as dificuldades das famílias em manter os filhos nas universidades e institutos politécnicos.

Os dados oficiais relativos às inscrições nos exames nacionais disponibilizados nos últimos dias pelo Ministério da Educação e Ciências (MEC) mostram uma quebra acentuada do número de estudantes. "É um facto novo", avalia a socióloga da Educação da Universidade do Minho Fátima Antunes. "Desde 2005 que o que acontecia, tipicamente, era que os estudantes que completavam o ensino secundário tinham como projecto prosseguir para o ensino superior", explica.

Entre os estudantes inscritos, a maioria (57%) continua a ser igualmente candidata ao ensino superior no próximo ano lectivo, mas este valor é quatro pontos percentuais inferior ao registado em 2012. Isto quer dizer que há menos 9356 estudantes finalistas do secundário que mostram vontade de continuar os estudos nas universidades e politécnicos. Os 43% de alunos inscritos nos exames que não são candidatos a entrar numa licenciatura correspondem a 67.654 estudantes, mais 4366 do que no ano passado. Fátima Antunes classifica estes dados como "completamente surpreendentes".

Os dados ainda não chegaram ao conhecimento da Comissão Nacional de Acesso ao Ensino Superior, mas o seu presidente, Virgílio Meira Soares, admite que a crise possa ser uma explicação para este facto. "Não me admira, nem deixa de admirar. Mas encaro essa hipótese", expõe. "Há menos oportunidades de emprego à saída dos cursos e isso é um investimento. E é um investimento que depois não rende", argumenta. Meira Soares coloca também a hipótese de haver famílias "que simplesmente não podem pagar" a frequência dos seus filhos no ensino superior.

"A primeira ideia que me surge é essa", concorda Fátima Antunes, recusando, porém, fazer especulações. A professora da Universidade do Minho recorre à sua experiência recente para dar força à crise como explicação para este fenómeno. "Este ano, pela primeira vez na minha carreira, tive alunos a desistirem de estudar a poucas semanas do final do primeiro semestre, pelo facto de não terem tido bolsa de estudo", conta.

Nos exames nacionais do ensino secundário, que começam na próxima segunda-feira, estão inscritos 15.9153 alunos, o que representa uma quebra de quase 5000 estudantes face ao ano passado. Entre os dias 17 e 26 de Junho serão realizados mais de 355 mil exames, uma média de 2,44 provas por estudante.

Os dados oficiais do Ministério da Educação e Ciência revelam ainda que 55% dos alunos inscritos nos exames são do sexo feminino e que a média de idades dos estudantes que vão ser avaliados nas próximas duas semanas é de 17,55 anos. A esmagadora maioria destes alunos (97%) está inscrita por via do ensino secundário, mas há também estudantes inscritos pelo ensino profissional (1658 estudantes) ou recorrente (244).

O exame com o maior número de estudantes inscritos é o de Português (74.407), que será o primeiro a ser realizado, seguindo-se Física e Química A (58.398), Biologia e Geologia (55.114) e Matemática A (51.423). Em sentido contrário, as provas que serão feitas por um menor úmero de alunos são as de Português Língua Não-Materna, nível iniciação (24), Latim A (108) e o nível intermédio de Português Língua Não-Materna (112).