Vontade de falar de outras coisas

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Rodrigo Magalhães, livreiro, 38 anos: um recém-chegado à ficção portuguesa

Não consta que tenha ganhado nenhum prémio - apenas que é um livreiro a estrear-se na ficção portuguesa, e a devolver-lhe uma esperança que parecia perdida. Apresentem-se Rodrigo Magalhães, e o seu Cinerama Peruana.

Os últimos anos têm sido férteis em novos autores na ficção portuguesa. Todos os anos há dois ou três que são a grande revelação da literatura ou, no mínimo, uma voz nova e original, entre outros chavões. Aparecem já com prémios na bagagem e textos publicados em revistas e jornais desde tenra idade.

O leitor deve estar a perguntar-se quem é Rodrigo Magalhães. Nasceu em 1975, fez agora 38 anos. Ao facto incomum de surgir um novo autor que já está quase nos 40 acresce que vem sem bagagem - não consta que tenha ganhado nenhum prémio, nem tão pouco sido finalista; não começou a carreira no DN Jovem e, por isso, não saltou daí para outros jornais e revistas. A biografia na badana do livro que acaba de publicar, Cinerama Peruana, diz apenas que é livreiro. E foi como livreiros que nos conhecemos. Os livros que líamos nas pausas para refeição (acto não tão frequente quanto se possa imaginar no meio) acabaram por ditar a aproximação. A revelação da escrita surgiu depois.

A entrevista que se segue não é uma conversa de amigos, embora o sejamos. Provavelmente por isso, tínhamos ambos vontade de fazer a coisa bem e com seriedade. Para estar à altura de um livro que é uma esperança renascida para a ficção portuguesa.

Os escritores da tua geração já por aqui andam há uns anos. Porque é que demoraste tanto tempo?

Nunca achei que os textos que tinha estivessem bons o suficiente para serem publicados ou para serem sequer apresentados a uma editora. E porque no fundo sou muito preguiçoso e muito desprendido. Tenho dificuldades em rever e é-me muito fácil passar de um projecto para outro e deixá-lo para trás sem arrependimento. Isto pode parecer um bocadinho pedante mas a publicação nunca foi uma real prioridade. E só surge, nesta idade tardia, porque o meu amigo João Leal [autor de Alçapão, Quetzal, 2011] decidiu tomar esse assunto entre mãos e levar os textos até à editora.

Se não fosse isso, demorarias ainda mais? Ou nunca aconteceria.

Acho que nunca aconteceria. Portanto tenho de agradecer, e muito, ao João Leal.

As três histórias do livro foram pensadas em conjunto, como um todo?

Não, foram surgindo em momentos diferentes. A primeira a ser escrita foi a segunda do livro, Os de Babel, sem grande perspectiva de continuidade e num período já relativamente distante no tempo. Em seguida veio Harry Heels, ensaísta popular, que começou a ser escrita num blogue que eu tinha na altura, em fascículos ou episódios, e à partida não tinha nenhuma ligação com o texto que já tinha escrito. Por último surgiram os protagonistas da Cinerama Peruana, cujos contornos já andavam na minha cabeça há algum tempo, não exactamente nesta forma, e a coisa acabou por se harmonizar aritmeticamente. Uma história com uma personagem, uma com duas e outra com três. Não tinham nenhum objectivo de junção à partida, mas acabaram por se juntar naturalmente.

E a selecção das três histórias foi tua ou do João Leal?

A selecção dos textos foi minha. Antes de haver essa intervenção do João eu já tinha posto os três textos nesta ordem e já me parecia que funcionavam enquanto unidade. Aquilo que eu apresentei ao João foi já um esboço quase final do que veio a ser este livro. E acho que acaba por fazer sentido. Parece haver uma espécie de subtema que atravessa os três textos e do qual eu não me tinha apercebido enquanto escrevia. Só depois de as três histórias estarem prontas e postas lado a lado é que me apercebi que havia essa temática e continuidade, que faz com que acabem por ser um conjunto mais ou menos harmonioso e homogéneo.

A metáfora da cinerama, três projecções em simultâneo para três telas, está no título do livro e da última história, que se divide em três partes. Mas o próprio livro divide-se em três histórias. A metáfora aplica-se a todo o livro?

Inicialmente, aplicava-se apenas à última história, mas acaba por alastrar para o resto do livro porque faz sentido, dado o que acontece em cada uma das histórias. Originalmente o livro tinha outro título, do qual não vou falar porque não era muito feliz. Este título foi uma sugestão do editor e é uma escolha feliz porque, como dizes, a metáfora aplica-se a todo o livro.

Por outro lado, se pegarmos no segundo elemento, "peruana", parece aplicar-se apenas à última história. Não achas que isso pode sobrepô-la às outras?

Acho que pode acontecer, mas isso não me desagradaria, porque dos três textos é o terceiro que me agrada mais. É aquele que tem mais elementos daquilo que eu considero ser a minha forma ideal de escrever.

Na história de Harry Heels, o protagonista sente um alívio quando descobre que é adoptado, livrando-se daquela família, mas não há o movimento que seria mais comum, o de tentar descobrir a família biológica. Mesmo os irmãos da segunda história, embora a relação com os pais seja boa, quando ficam sós no mundo não fazem grande luto. São livres. As tuas personagens têm esse desejo de independência?

Nunca tinha pensado nisso desse modo, mas creio que sim, há uma grande vontade nas minhas personagens de seguirem livres pelo mundo, sem grandes laços que as prendam. Sem que haja um ninho ao qual voltar. Quase como se as animasse a vontade de criar outros ninhos. Há uma certa exuberância na libertação que faz com que se limitem a caminhar em frente.

A obra de Harry Heels, enquanto ensaísta popular, só aparece nas notas de rodapé, nunca no texto principal. Quererá isto dizer que a sua obra era o menos importante para Heels?

Quando muito, quererá dizer que a obra de Harry Heels é o menos importante para o escritor, não necessariamente para a personagem. Mas pareceu-me legítimo que a obra de Heels, sendo mais ou menos secreta, não conseguida, não publicitada, aparecesse apenas enquanto nota de rodapé, que o foco fosse na vida do Harry Heels para além das suas veleidades ensaísticas, que se criasse essa diferenciação entre esses dois mundos. Queria que a sua vida estivesse à superfície e a sua obra no local correcto, na obscuridade.

Heels só publicou um texto, numa revista. Na tua cabeça, era um mau escritor?

Na minha cabeça ele era um escritor espantoso. Ou pelo menos um escritor que se julgava espantoso. Talvez não se tenha esforçado o suficiente para publicar. Há um editor que lhe faz uma crítica muito violenta a um ensaio em que ele fala do seu septo nasal desviado. Talvez essas críticas tenham sido frequentes na sua carreira, mas a isso não sei responder.

E nunca te passou pela cabeça fazer de Harry Heels e escrever aqueles ensaios?

Passou, mas achei que não faria sentido estar a adicionar esse elemento à história, porque isso de algum modo tiraria o secretismo à carreira de ensaísta do Harry Heels.

A última história tem uma epígrafe de Kapuscinski que diz: "É um tema interessante, pessoas inúteis ao serviço da violência." É de facto um tema interessante?

Sim, é de facto um tema interessante. Poderíamos deter-nos nas justificações para definir uma pessoa como inútil. O exercício da violência parece conferir poder, ou prestígio, a pessoas que não o poderiam obter de outros modos, que não são talhadas para isso - pessoas que não têm méritos, sem querer ser eugenista. Acho muito interessantes as pessoas que reivindicam a sua utilidade através da violência, uma resposta tão extrema para uma questão tão pouco extrema.

Embora seja o eixo central da terceira história, sobre um grupo de três assassinos, nunca sabemos o que motiva essa violência que a atravessa. Porquê?

Nunca sabemos porque eu não sei. Talvez seja uma questão de gratificação pessoal ou uma coisa quase mágica, associada ao atravessar da fronteira para ser outra pessoa, uma espécie de anjo vingador ou diabo no meio dos homens. A génese desta história foi um artigo que li há muitos anos num jornal sobre uma série de assassinatos sem explicação numa província belga. Um grupo de assassinos entrava num restaurante, matava 15 pessoas e roubava um pimenteiro; entrava numa loja de conveniência, matava quatro pessoas e roubava palitos. Não parecia haver um motivo associado a essas mortes que não o exercício de matar. Andei com esta história às costas durante muito tempo sem saber como a tratar e o que motivou este tratamento foi o facto de descobrir que existiam nos Estados Unidos sete ou oito cidades com o nome Lima. Pareceu-me que para um peruano que quisesse exercer os seus desejos profundos de morticínio poderia ser interessante encontrar-se nessas outras Limas e aí ser outra pessoa. Mas não há uma explicação para as mortes porque creio que eles próprios não a têm.

Se definirmos estas personagens pelo que são, dizemos que estes três são assassinos, como dizemos que Harry Heels é ensaísta. No entanto, este rótulo principal assume quase um papel secundário nas histórias, como se tivesses uma ideia, mas depois explorasses as personagens por outras vias.

Isso tem a ver com o modo como desenvolvo o texto quando o estou a escrever. Há um pressuposto inicial que continua presente no texto e que na minha cabeça é o leimotiv das histórias, mas depois deixo-me levar facilmente por outros ângulos, menos óbvios, menos associados a essa temática inicial. Sem deixar de falar do tema central, tenho vontade de falar de outras coisas, que compõem de forma mais inteira o que são essas personagens. Nunca és só um escritor, ou um assassino, ou um baterista. És sempre várias coisas.

A escrita é quase uma leitura, então. Escreves para saber a história.

De algum modo sim. Eu dou-me mal com a planificação. Tenho cadernos e cadernos de coisas planificadas que nunca chegaram a lado nenhum. Com datas e trajectórias de vida de personagens e acontecimentos que nunca aconteceram. Acho mais frutuoso para mim, que sou pouco disciplinado e mais ou menos bissexto nesta coisa de escrever, ir avançando. Os caminhos vão-me sendo propostos e eu vou escolhendo aqueles que me parecem ser mais indicados.

Todas as referências temporais que vais buscar, como os combates de boxe da primeira história, por exemplo, aconteceram realmente?

Se acreditarmos na Wikipedia, sim [risos]. Eu não pesquiso previamente, mas as coisas parecem conjugar-se quando estou a escrever alguma coisa para que informação que me é útil acabe por cruzar o meu caminho. Esta coisa dos pugilistas, por exemplo, aparece a posteriori, não estava planeada. Nem sequer sabia que o Harry Heels iria estar envolvido no mundo do pugilismo amador. É a tal história, enquanto avanço o texto propõe-me caminhos que eu posso seguir.

Na última história, que se divide em três partes, com enfoques diferentes, havia a intenção de criar um puzzle, de fazer com que só no final conseguíssemos unir todas as pontas?

Tinha essa intenção, sim, de dar pistas para coisas que só são reveladas adiante. Só com a leitura completa do texto é que a imagem se revela. É uma boa imagem, a do puzzle, cujas peças, aliás, podem ser montadas de diversas maneiras.

Como é escrever sobre personagens e locais estrangeiros, distantes?

É como viajar sem sair do lugar, poder ser outras pessoas, poder estar noutros locais. São lugares que eu não conheço, ou conheço só de passagem. Tenho muita dificuldade em escrever sobre Portugal porque acho que aí a questão factual se me coloca de um modo mais premente. Sinto necessidade de investigar mais e como sou preguiçoso prefiro situar as histórias em locais que não são aqueles em que estou habitualmente. É-me mais fácil pegar numa personagem que esteja em Katmandu do que numa que esteja na Amadora.

Mas não sentes a necessidade de conhecer, ter uma base mais sólida do próprio local e de tudo o que isso implica?

Não, porque há determinados comportamentos e determinados hábitos que são mais ou menos universais. E há determinadas particularidades que, na sua não universalidade, podem ser imaginadas em qualquer sítio. Não sinto essa necessidade de saber a fundo como é a vida em Lima. Prefiro ter uma espécie de esboço de como poderá ser a cidade, como é que poderá ser o clima, o nível de precipitação, não tanto a exactidão.

Vês-te a escrever uma coisa mais longa, um romance, ou preferes a ficção curta?

O que eu gostaria de escrever eram longos romances de 900 páginas, coisas longuíssimas com três mil personagens, que se espraiassem por não sei quantas páginas. Por outro lado, conheço bem a minha produtividade. E é mais difícil escrever uma coisa longa do que escrever uma coisa curta. Além de que a forma curta também me oferece outras possibilidades de construção, que se poderão diluir numa forma mais longa. Tendencialmente escrevo coisas curtas porque é isso que consigo escrever.

E este livro, é uma nota de rodapé na tua biografia?

[Risos] Veremos. Poderá eventualmente sê-lo. É uma bonita ideia.

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