Director artístico do novo equipamento partilha lucros e assume prejuízos

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Fernando Pinho defende que "tem de haver uma responsa- bilização dos produtores, a procura de alternativas, e a desmisti-ficação de que comercial é necessaria-mente mau."

Fernando Pinho, director artístico da Casa da Criatividade, deixou de ter salário na última quarta-feira. O programador cultural em Londres, onde estudou no Guildhall School of Music and Drama e onde colabora com a Royal Opera House, o Royal Albert Hall e o London Transport Museum, decidiu agarrar um projecto na sua terra natal, São João da Madeira, e está preparado para mostrar que a cultura é sustentável através de um modelo de gestão em que partilhará lucros e assumirá prejuízos.

De três em três meses, as contas da Casa da Criatividade serão feitas. Se houver lucros, receberá 25% das receitas provenientes da bilheteira e das tournées que pretende fazer com as produções próprias. Os restantes 75% entram directamente nos cofres da câmara. No caso de haver prejuízos, a autarquia estabeleceu um tecto máximo de 100 mil euros por ano, do orçamento municipal, para dividir entre a Casa da Criatividade e os Paços da Cultura.

Fernando Pinho tem, portanto, uma "almofada" financeira que lhe permite algum fôlego, mas a sua intenção não é passar o risco vermelho. Muito pelo contrário. A sua ideia é ter lucro.

O novo director tem o caminho traçado. Sabe o que quer e o que não quer. "Tem de haver uma responsabilização dos produtores, a procura de alternativas e a desmistificação de que comercial é necessariamente mau", defende.

Pedir apoios à Direcção-Geral de Artes não está nos seus planos. "Não quero depender de qualquer subsídio". E o mecenato será o seu limite. "Mas não estou disponível para vender as coisas", avisa. Ter bilhetes a cinco euros para todos os espectáculos é uma decisão pensada. "A sustentabilidade não pode excluir camadas da sociedade", justifica.

A sua linha de produção dirige-se, neste momento, para um público de massas. Assume, sem preconceitos, esse lado comercial. Numa etapa posterior, quer abordar nichos onde, por exemplo, enquadra "a dança contemporânea e o teatro físico". O director artístico acredita que é possível provar que a cultura gera receitas no mais pequeno município do país em termos de área, numa cidade a cerca de 40 quilómetros do Porto e de Aveiro. Localização que, na sua opinião, pode ser vantajosa, porque diminuiu os custos de produção. Em São João da Madeira pode desenvolver ideias, incubar projectos e levá-los a vários espaços do país. "Este não é um modelo do Fernando, é um modelo cada vez mais utilizado", comenta.

Neste momento, o musical O Despertar da Primavera, premiado em todo o mundo, adaptado para um elenco totalmente português, tem as cinco sessões esgotadas até domingo e cinco salas do país interessadas na sua exibição. Há espectáculos no programa que, ainda antes de acontecerem, já estão pagos.

Até domingo, uma das actrizes dessa primeira produção própria vai vestir-se de empregada de limpeza para uma série de visitas encenadas à Casa da Criatividade, entre as 13h e as 19h.

No dia da inauguração, Fernando Pinho deixou o fato e a gravata no armário e vestiu a t-shirt da Casa da Criatividade, tal como a equipa que gere, constituída por seis pessoas.

O cartaz deste mês está fechado. Ana Moura actua a 21 de Junho, a companhia de dança de Olga Roriz a 28 e Rodrigo Leão a 5 de Julho. A tournée de Sofia Escobar arrancará na Casa da Criatividade, e Pedro Tochas estará em São João da Madeira em Setembro.

Fernando Pinho foi gestor de projectos no Grupo Sonae antes de entrar no mundo da programação cultural. Há sete anos, instalou-se em Londres. Nessa altura, se quisesse produzir em Portugal, ou tinha de ter dinheiro ou subsídios. "Como não tinha uma coisa nem outra, decidi procurar modelos de produção alternativos e entrei no modelo inglês". Em 2010, apresentou o musical The Last Five Years, no Still Street Theatre e no Barbican Centre, casa da London Symphony Orchestra. Tudo mudou. Nesse ano, ganhou o Deutsch Bank Awards para as artes do espectáculo pelo "carácter empreendedor dos seus projectos", e o Presidente da República, Cavaco Silva, no 10 de Junho de 2010, convidou-o para um encontro que reuniu personalidades portuguesas com mais destaque no estrangeiro.