Crónica

Um piano de cauda na praça Taksim

Tinha começado ontem à noite: um italiano levou o seu piano de cauda para o meio da praça Taksim. Era pouco antes da meia-noite, a hora em que se esperava o ataque derradeiro da polícia ao parque Gezi. Contingentes da polícia de intervenção posicionavam-se dos dois lados da praça - cercando a estátua de Ataturk e em frente ao Centro Cultural. No meio, sem ter para onde fugir, concentrava-se a multidão.

E de repente começou. O italiano, Davide Martello, que vive na Alemanha e veio de lá com um piano de cauda no carro, atacou os acordes de Imagine. Havia holofotes apontando para ele e um sistema de amplificação sonora.

Em frente à polícia, armada de escudos e capacetes, Martello, de máscara de gás ao pescoço, interpretou Let it Be, e várias sonatas. A polícia ia atacar a qualquer momento, mas, em vez do gás lacrimogéneo, o som do piano enchia a praça.

Foi assim durante horas. E a violência não começou.

Entusiasmado com o êxito da receita, Martello repetiu-a hoje. Desta vez, colocou o piano a poucos metros dos polícias, junto à estátua. A multidão sentou-se à sua volta, e ele tocou, toda a noite. Juntou-se-lhe uma cantora de ópera.

Ver as cabeças dos polícias encaixadas nos capacetes com um sorriso embevecido enquanto os dois jovens músicos tocavam O Sole Mio para uma multidão de manifestantes foi das cenas mais extraordinárias que alguma vez vi. Aqueles polícias que pouco antes tinham mandado 5 mil pessoas para o hospital, e que apenas esperavam a ordem de atacar de novo.

Por alguma razão misteriosa, ninguém acreditava que o ataque começasse no meio de uma peça musical. Por isso, imitando Sherazade, o segredo era não parar.

Já vim para o hotel, mas ainda os ouço lá na praça a cantar. O que vale é que aos italianos nunca falta repertório.