Crónica

Sou Istambul

Estou em Istambul. "I am Istanbul" é o título do livro que leio durante o voo. Cheguei aqui de passagem por 24 horas. Calhou ser o 13.º dia da já chamada "Primavera turca". Passo a manhã a visitar, de novo, as mais belas obras da época Bizantina e do Império Otomano. Do terraço do hotel, vejo a Mesquita Azul e a Santa Sofia. Protegida pelas muralhas da cidade velha e pela História e bem longe da praça onde hoje, em Istambul, se faz a História. Daqui, Taksim parece um nome longínquo, uma miragem distante, uma imagem na TV. Uma memória, pois ficava lá o hotel onde me hospedei na primeira vez em estive aqui, há alguns anos.

Não posso ignorar Taksim. Convenço os meus colegas a acompanharem-me. Subimos uma das sete colinas – sim, Istambul também tem sete colinas. A polícia cerca todas as entradas nas ruas próximas. Na noite anterior reprimira com violência os manifestantes. Passámos sem problemas. Aliás todos passam sem problemas. Há uma certa excitação ao caminhar entre milhares de turcos acampados por todo o lado. As tendas proliferam. "Parece Woodstock”, diz um dos meus companheiros de viagem. O outro completa "um Woodstock político".

São jovens. São velhos. São de meia-idade. São todos. Tudo é organizado. Há um centro de distribuição de comida, água, papel higiénico. Há filas para comer. Filas para capacete e máscaras de protecção contra gás lacrimogéneo. Há uma mota de entrega de pizza a passar. As pessoas ocupam a praça, o parque. Estrangeiros chegam. Muitos ingleses. Há entrevistas a serem dadas entre escombros. Ninguém parece importar-se com as fotos tiradas com iPhones. Nem a polícia se importa em ser fotografada. Há o cheiro a contentores incendiados. Há uma tensão por explodir que se junta a uma solidariedade que parece imensa. Um sentido de que algo tem que mudar, algo se está a passar.

Antes o nosso guia, Ali, tinha falado de como o protesto contra a destruição de um parque se tornara um protesto contra o Governo. O que já tínhamos visto na TV. Mas agora é real. Todos os caminhos levam a Taksim. Os homens de fato também estão com mascaras. Um Mercedes vermelho estaciona e de lá sai um jovem também mascarado. O outro sai com uma mala Louis Vuitton para levar para alguém que está por aqui. Será que à noite haverá mais repressão?

Um homem mais velho não consegue fazer a mota - uma BMW dos anos 1950 -  funcionar e pede ajuda aos polícias. Um dos meus colegas tenta ajudar. E de repente estão todos a rir, fumar e conversar. Polícias, manifestantes mascarados e os meus colegas portugueses. Um dos portugueses faz a mota arrancar e é aplaudido por todos. Será que algum destes polícias sorridentes participou na repressão da noite? Que não haja enganos. Os que protestam estão todos cercados no alto da colina e respira-se tensão. Enquanto o mundo está na expectativa de saber como será a próxima noite e até quando vai o braço de ferro entre Governo e manifestantes, estes chegam em maior número.

No livro de Buket Uzuner, "I am Istanbul", aquele que eu estava a ler no avião, ela descreve Istambul como "a cidade que nunca vai ser abandonada, a cidade que ninguém consegue deixar". Hoje não estou apenas em Istanbul. Taksim fez-me, por algumas horas, ser Istambul.
 

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