RTP sobre a Grécia: “Reestruturar o audiovisual público não é encerrá-lo”

Equipa de Alberto da Ponte fala em “dia triste e de luto” para o serviço público. CT da RTP e da Lusa solidários com trabalhadores gregos.

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John Kolesidis/Reuters

A administração da RTP mostrou-se contra a decisão do Governo grego de encerrar temporariamente a televisão pública local, a ERT, para depois dar início a um processo de profunda reestruturação. A equipa liderada por Alberto da Ponte considera que “reestruturar o audiovisual público não é encerrá-lo”.

Em comunicado, a administração da RTP afirma mesmo que se trata de “um dia triste e de luto para o serviço público de audiovisual”. Além de se solidarizar com a ERT e com os seus funcionários, a gestão da TV e rádio públicas portuguesas diz apoiar a posição da UER – União Europeia de Radiodifusão que defendeu que a “existência de serviço público e a sua independência em relação ao Governo estão no coração das sociedades democráticas”.

Em carta dirigida ao primeiro-ministro grego, o presidente da UER, Jean-Paul Philippot, e a directora-geral, Ingrid Deltenre, pediram-lhe que use “todos os seus poderes” para anular imediatamente a decisão.

O Governo grego alegou que se trata de uma suspensão temporária que visa estudar a forma como vai reduzir a estrutura de pessoal daquela empresa pública. O executivo liderado por Antonis Samaras está fortemente pressionado pela troika que tem actualmente no território uma equipa para uma nova avaliação, que impôs a redução dos funcionários e de empresas públicas. Até ao fim do mês terão que ser despedidos pelo menos dois mil funcionários públicos.

“Numa altura em que o povo grego está a passar por sacrifícios, não há espaço para demoras, hesitações ou tolerância para com vacas sagradas”, afirmou o porta-voz governamental Simos Kedikoglou na terça-feira na antena da ERT, depois de conhecida a decisão de desligar o sinal a partir do fim do dia. E acrescentou que o grupo de TV e rádio públicas é uma caso de “falta de transparência excepcional e extravagância incrível”. A ERT é financiada através de uma taxa audiovisual de 4,3 euros por mês paga, tal como em Portugal, através da factura da electricidade.

Trabalhadores da RTP e da Lusa solidários

Já na terça-feira a Comissão de Trabalhadores da RTP lembrava que a estação pública grega apenas fora silenciada temporariamente durante a ocupação nazi e agora passa a ser “o único país da União Europeia sem rádio e televisão públicas”. E realça que a ERT não tinha problemas de financiamento, por ser já sustentada pelos consumidores.

“Não queremos para nós uma RTP encerrada”, afirma a CT lembrando que o argumento usado na Grécia é o mesmo utilizado em Portugal para justificar decisões do Governo: “custa muito dinheiro”. “Somos todos gregos, porque nos solidarizamos com os nossos colegas da ERT e porque temos os olhos postos na sua luta e nos ensinamentos que dela se devem extrair.”

Também a CT da agência Lusa emitiu um comunicado em que demonstra “total solidariedade” para com os profissionais da TV e rádio públicas gregas. A CT “lamenta que a austeridade seja aplicada desta forma contra organismos vitais para a democracia de qualquer país”, lembrando que “a manutenção do serviço público de notícia garante não só a pluralidade e a difusão dos acontecimentos de interesse colectivo mas também o acompanhamento do quotidiano das populações das mais variadas geografias, salvaguardando desta forma o direito da sociedade em estar informada”.