Graça Barroso, "bailarina completa e muito rara", morreu aos 62 anos

Uma das principais intérpretes do Ballet Gulbenkian e fundadora da Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo morreu esta terça-feira.

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Ensaio geral do Grupo Gulbenkian de Bailado para a peça "Outono" Fundação Calouste Gulbenkian
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Ensaio geral do bailado "Noite de Quatro Luas" pelo Grupo Gulbenkian de Bailado, com Graça Barroso e Gerrit Johan Thomas Fundação Calouste Gulbenkian
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Ensaio geral do bailado "Noite de Quatro Luas" pelo Grupo Gulbenkian de Bailado, com Graça Barroso e Gerrit Johan Thomas Fundação Calouste Gulbenkian
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O coreógrafo Hans Van Manen (centro) com os bailarinos Graça Barroso e Jair Morais num ensaio de "Canção sem palavras" em Novembro de 1978 Fundação Calouste Gulbenkian
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Ensaio geral do "pas-de-deux" da peça "Outono", pelo Grupo Gulbenkian de Bailado, com Graça Barroso e Carlos Alberto Paiva dos Santos Caldas Fundação Calouste Gulbenkian

Uma bailarina que apenas é descrita em termos superlativos – “uma mulher extraordinária, uma bailarina completa, muito, muito rara”, para o ex-director do Ballet Gulbenkian Jorge Salavisa; “uma referência, em termos interpretativos, para a sua geração e para as seguintes”, para Maria José Fazenda, professora da Escola Superior de Dança. Graça Barroso, bailarina do Ballet Gulbenkian e fundadora da Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo, morreu esta terça-feira aos 62 anos em Lisboa.

A causa da morte foi doença prolongada, segundo informou fonte familiar à Lusa. Graça Barroso destacou-se primeiro como bailarina no Ballet Gulbenkian – companhia fundada em 1965 e extinta em 2005 -, onde se cruzaria com Jorge Salavisa, também ele ex-bailarino e professor, até 2010 director do Teatro São Luiz, em Lisboa. Salavisa diz mesmo ao PÚBLICO que “a Graça foi uma das razões por que vim para Portugal [em 1977]. Nunca pensei que houvesse uma bailarina tão bonita e tão extraordinária em Portugal”, descreve, sobre o regresso a Portugal e sobre o cargo que assumiu na companhia após o 25 de Abril. Primeiro, como mestre de bailado e depois como director artístico. “Ela sempre foi um espanto, em palco e em estúdio.”

Graça Barroso começou a estudar dança com Ana Ivanova na escola do Teatro Nacional de S. Carlos, em 1964. Quatro anos mais tarde, aos 16 anos, o coreógrafo Walter Gore dá-lhe entrada no Ballet Gulbenkian. Só lá ficaria os dois anos a seguir. Procurava novas abordagens à dança, mais contemporâneas, e aos 18 anos vai estudar para a Escola de Dança Rosella Hightower em França, muito longe do Sporting Clube de Portugal onde praticou ginástica enquanto menina. É convidada, ainda em França, a integrar a companhia Les Ballets Du Rhin de Jean Babille - é a nova solista que será uma Desdémona para si criada pelo coreógrafo John Buttler, lê-se na sua nota biográfica da Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo.

Depois de vários espectáculos pela Europa, voltaria a Portugal e à Gulbenkian para se tornar numa sua referência. Vive-se o ano de 1974 e Madalena Perdigão convida-a a voltar, como primeira bailarina, ao Ballet Gulbenkian. Pertenceu durante mais de 25 anos a esta companhia, até a deixar em 1994.

Maria José Fazenda, ex-crítica de dança e professora na Escola Superior de Dança, lembra-se imediatamente da peça que Olga Roriz criou para Graça Barroso: “um solo extraordinário, Casta Diva”, que justapõe às criações e coreografias de Vasco Wellencamp como os mais memoráveis trabalhos da bailarina. Jorge Salavisa diz ter gravados na memória todos os trabalhos que viu de Graça Barroso, o primeiro dos quais Outono. Mas tal como Maria José Fazenda reconhece que “Vasco foi o grande coreógrafo da Graça”, “uma mulher com uma técnica lindíssima, uma qualidade de movimento inacreditável, uma musicalidade incrível – uma bailarina completa”. Quando se cumpriram os seus 25 anos de carreira, o Centro Cultural de Belém abriu as portas ao Ballet Gulbenkian e à Companhia Nacional de Bailado para dançarem em sua honra.

Com Wellencamp, seu marido, coreógrafo e bailarino, Graça Barroso e a dança portuguesa teriam vários momentos que ficariam como referências para o sector. Graça destacar-se-ia primeiro “no Ballet Gulbenkian como exímia intérprete de obras do Vasco Wellenkamp”, diz Maria José Fazenda. Com ele fundaria mais tarde, em 1997, a Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo. Este grupo estreou-se no Brasil, mais precisamente em Niterói, quando das comemorações dos 500 anos dos Descobrimentos. Faz a sua estreia em Portugal no ano seguinte em plena Expo 98 e obtém apoios do Ministério da Cultura e das câmaras de Lisboa e Cascais.

A importância de Graça Barroso na dança portuguesa passa pelo seu domínio do corpo e da musicalidade. Tinha “características expressivas, interpretativas e técnicas muito elevadas e a combinação que fazia de tudo isso tornava-a uma grande bailarina que marcou muito todo o percurso do Ballet Gulbenkian”, explica Maria José Fazenda. “Em qualquer obra que a Graça dançasse tinha uma enorme capacidade de interpretação da intencionalidade e estilo do coreógrafo e dava-lhe o seu cunho pessoal – são características dos grandes bailarinos de repertório”, prossegue, sublinhando ainda “a qualidade de movimento, muito fluida, um grande salto, um movimento muito orgânico e muito coordenado de todas as partes do seu corpo”. 

Graça Barroso foi também professora na Escola Superior de Dança e no Escola de Dança do Conservatório Nacional. Abandonou os palcos nos anos1990 devido a várias lesões no joelho depois de um acidente em 1986, em que fracturou o joelho.

O velório do corpo de Graça Barroso está agendado para as 16h desta terça-feira na Igreja dos Santos Reis Magos, no Campo Grande, em Lisboa, de onde partirá, após missa às 10h de quarta-feira, para o funeral no cemitério do Lumiar.   

Notícia corrigida às 12h44 de 12 de Junho: Graça Barroso faleceu aos 62 anos e não aos 63 anos.