Idosos "privados" do melhor tratamento para doenças de coração

Estudo mostra que muitos doentes saem do hospital sem que lhes seja prescrito "o tratamento óptimo, que inclui a toma de cinco medicamentos".

Adiminuição das mortes causadas por doenças cardiovasculares não é novidade. O aumento do número de mortes que têm como causa o cancro também não. Um dos resultados da conjugação dos dois factores é que o cancro já aparece como a principal causa de morte nos homens, ultrapassando as doenças cardiovasculares. "A tendência para a diminuição das mortes por doenças cardiovasculares começou a notar-se de forma mais acentuada nos anos 90", diz Marta Pereira. Ainda são a principal causa de morte em Portugal - cerca de um terço dos óbitos -, mas desde 2008 que a taxa de mortalidade por cancro supera a das doenças cardiovasculares nos homens. "A taxa de mortalidade associada a doenças cardiovasculares, ajustada para a idade, diminuiu para cerca de metade nos últimos 30 anos, observando-se menos de 200 mortes por 10 mil habitantes, tanto em homens como em mulheres, em 2010." Em contrapartida, dados do INE sobre as causas de morte em 2011 apontam para uma subida dos óbitos por cancro, que com esta curva revelam um aumento de 40% em 20 anos. No que se refere às doenças cardiovasculares, num ano registaram-se quase menos duas mil mortes.Apenas metade das pessoas entre os 60 e 80 anos que sofreram um enfarte ou angina instável saem do hospital com o "tratamento óptimo", que inclui cinco medicamentos, revela um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP). Acima dos 80 anos, este grupo forma apenas um terço dos doentes.

Marta Pereira, investigadora do Departamento de Epidemiologia da FMUP, analisou, no âmbito da sua tese de doutoramento, a evolução das taxas de mortalidade (ver caixa) associadas a doenças cardiovasculares, avaliando a influência dos factores de risco e do tratamento. E concluiu que, apesar do sucesso na diminuição da taxa de mortalidade associada aos problemas de coração, há ainda progressos a fazer na resposta terapêutica e na prevenção primária.

"A grande maioria dos doentes tem prescrição dos principais fármacos utilizados para prevenção secundária após um episódio de síndrome coronário aguda, como um enfarte ou uma angina instável", começa por sublinhar. Porém, os resultados do estudo mostram que "apenas uma minoria sai do hospital com o tratamento óptimo, que inclui a toma de cinco medicamentos".

Números: a 60% dos doentes com menos de 60 anos foi prescrito o tratamento óptimo; entre os 60 e os 80 anos a percentagem foi de 55%; e acima dos 80 anos de apenas 35%. "Após ajuste para as variáveis que podiam justificar estas diferenças, incluindo contra-indicações, os doentes com idade superior a 80 anos tinham um risco duas vezes superior de não sair com a terapêutica óptima, quando comparado com um indivíduo com idade inferior a 60 anos", conclui a investigadora.

Os resultados sobre o acesso ao "tratamento óptimo" foram obtidos através de um estudo europeu realizado em sete países. "Em Portugal, foi seleccionada uma amostra de casos de síndrome coronária aguda com alta hospitalar de dez hospitais. Em cada hospital foram seleccionados consecutivamente 300 doentes, nos anos de 2008-2009", explica, adiantando ainda que foram analisadas as notas de alta e registos clínicos.

"Foi claro no nosso trabalho que os mais idosos têm menos prescrição de medicamentos, estando a ser privados de usufruir daquele que é chamado como tratamento óptimo e que é aconselhado pelas recomendações nacionais e internacionais, mesmo tendo em consideração as principais contra-indicações", alerta.

A investigadora não tem no seu estudo nenhuma explicação para estes problemas no tratamento dos mais velhos. Admite, contudo, que o facto de muitos deles terem patologias associadas (outros problemas de saúde) possa ter como efeito uma prescrição mais limitada. Nota, no entanto, que o estudo teve em conta as eventuais contra-indicações e co-morbidades (quando existem outras doenças no indivíduo). "Talvez alguns médicos tenham mais receio dos efeitos secundários nestas idades mais avançadas, de confusões com outras medicações que estas pessoas estejam também a tomar e, por isso, prefiram passar apenas os três medicamentos mais importantes, prescindindo do tratamento óptimo", explica, admitindo ainda que essa opção também possa ser tomada por motivos económicos.

"Se souberem que aquelas pessoas podem não ter dinheiro para os cinco medicamentos, podem optar por passar só os três mais importantes", diz. Porém, a investigadora reforça que os mais velhos são os que estão mais vulneráveis a esta doença e os que mais podem beneficiar de um tratamento óptimo.

Apesar destes problemas, o trabalho da investigadora conclui que 50% do "mérito" pela diminuição das mortes por doenças cardiovasculares se deve às melhorias no tratamento farmacológico e cerca de 42% estará relacionado com as variações dos factores de risco. "Quer isto dizer que há espaço para agir, em termos de saúde pública, sobre os factores de risco, em Portugal, através da aposta na prevenção primária."

O estudo teve em conta uma análise dos factores de risco associados às doenças cardiovasculares e mostra, por exemplo, que a prevalência da hipertensão arterial diminuiu consideravelmente, "sobretudo à custa de alterações nos padrões alimentares".

"Os níveis de colesterol também desceram, mas mais por força do uso de estatinas - um fármaco usado para reduzir o nível de lípidos no sangue", adianta o comunicado sobre o estudo. Já factores de risco, como a diabetes e a obesidade, "aumentaram significativamente" e o consumo de tabaco aumentou também nas mulheres, sobretudo entre as mais jovens. Por isso, Marta Pereira admite que existem razões para nos preocuparmos. É que o aumento de diabéticos, obesos e de fumadoras entre os adolescentes "poderá ter como resultado no futuro uma nova inversão da curva de mortalidade por doenças cardiovasculares".