Alessandro Bianchi/Reuters
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Megafone

O Clube do Pinóquio

Portugal é um país de responsáveis pouco responsáveis e mentirosos. Sabe-se mais sobre a verdadeira situação quando se está fora do que dentro. Estranho? Claro que não. Eles tratam é do seu futuro e dos seus. Os outros que se danem

Quando era bem miúdo costumava ver uma série animada que se chamava “Pinóquio”. Como qualquer menino da altura adorava aquilo. Pelo meio vieram os livros. E a moral.

Recordo-me, na minha inocência, de morrer de medo que o nariz me crescesse se mentisse. De certa forma foi importante na construção do carácter de muita criança. Aprendeu-se que mentir era coisa má.

Mas por aquilo que leio, vejo e ouço percebi que muita gente em Portugal (e não só) ou desconhece a história do Carlo Collodi ou então não entenderam a mensagem que transmite: mentir é feio. E, devo dizer - lamentavelmente, que há muita gente que mente.

Nada como começar com os comentadores políticos. Sobre estes, contínuo sem perceber como é que alguém, ainda, pode dar credibilidade à opinião de pessoas que estiveram no “poder”, fizeram asneira e muitas vezes demonstraram incapacidade para o cargo.

Temos, a título de exemplo, três.

Começo pelo Zé. É preciso ter lata para vir mandar uns bitaites sobre o estado das coisas e o que se deve ou não fazer depois de tudo o que ele fez. Para rir ou chorar? Escolham.

Depois o Mendes. Felizmente, já não precisa de um tijolo. Hoje em dia as cadeiras, além de confortáveis, são ajustáveis. Dou-lhe um desconto sobre o que diz tendo em conta que a sua massa cinzenta deve ser proporcional às dimensões corporais. Só por isso.

Por fim, como gosto de o alcunhar carinhosamente, o professor Marmelo. É o meu preferido. Um político de segunda que em tempos mandou umas bocas na Assembleia da República e se tornou famoso por acaso. Sim. Calhou de aparecer uns minutos antes do tal de “Big Brother” há uns anos atrás. Já se esqueceram? E desde então é o senhor opinião.

É o tipo que, entre muitas coisas, lê uma pilha de livros por semana, opina e ainda tem tempo para dar um salto ao solário. E muda de opinião como eu de meias todos os dias. Era vê-lo na noite em que o Passos ganhou as eleições. Que alegria. Entretanto, já não gosta do Gaspar. E desconfia do Coelho.

Tudo isto para chegar ao que mais me chamou a atenção esta semana: os erros nas políticas de austeridade. E a opinião de alguns senhores (anteriormente mencionadas).

O Vítor, que já passava os dias com as orelhas vermelhas, passou de mentiroso a incompetente. O Marmelo se mandasse despedia o homem. O mesmo Marmelo que sempre foi condescendente com ele. E o Marmelo mentiu durante muito tempo porque estava a pensar no seu futuro. Agora, porque continua a pensar no seu futuro, muda de opinião. Continua a mentir. E assim será enquanto mantiver o sonho (nada secreto) de querer ser “Presidente”. E a malta que continua à espera do programa que se segue deve dizer que “sim”. A malta dos rebanhos é mesmo assim: vai atrás do tal de “alfa”.

E o mais engraçado, para não dizer ridículo, é que há muita gente que continua a dar valor à opinião desta gente. Que se deixa influenciar. Ignorantes? Falaremos quando tivermos um novo primeiro-ministro e presidente da República...

Depois temos a malta do Governo. Mente e mente. O que diz ser hoje verdade é mentira no dia seguinte. Andam desnorteados. Basta olhar para as notícias sobre as progressões na função pública, os dados sobre o crescimento da economia e, infelizmente, do desemprego.

Até na oposição. Hoje dizem uma coisa e amanhã outra. A título de exemplo as últimas declarações do Seguro. Andou para aí a mandar umas bocas sobre a dívida e agora, de repente e de mansinho porque sabe que daqui a dois anos vai lá estar, já fala de honrar as dívidas. É caso para dizer que o “seguro” morreu de velho.

Por fim aquela gente toda do FMI, BCE e CE. Uns dizem que erraram e outros que não, como o Mario Draghi. Quem diz a verdade e quem mente? E mentem por remorso ou por interesse? Estarão já a pensar no amanhã? Serão estas desculpas uma forma para, no futuro, nos tramarem outra vez? Ou seja, mais mentiras? Creio que sim. Já dizia o meu Pai: “ninguém dá nada a ninguém. Há sempre alguma coisa por trás”. Homem sábio.

Portugal é um país de responsáveis pouco responsáveis e mentirosos. Sabe-se mais sobre a verdadeira situação quando se está fora do que dentro. Estranho? Claro que não. Eles tratam é do seu futuro e dos seus. Os outros que se danem.

A realidade é que todos nós — portugueses dentro ou fora — sentimos que estamos numa prisão e sempre a deixar cair o maldito do sabonete. Sempre que nos agachamos para o pegar alguém aparece sem dar aviso. E dá cabo da coisa. Não é como o nariz do mentiroso mas é mais ao menos o mesmo. 

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