Vasco Barata desenterrou o machado

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miguel manso

Não foi (por enquanto) para declarar guerra, mas para apresentar Les Apaches, na Appleton Square, em Lisboa - um diálogo entre a violência da subcultura e o jogo da arte, lembrando que a acção dos artistas resiste, como uma linha de fuga.

Vasco Barata (Lisboa, 1974) não quer revelar o que originou a realização de Les Apaches na Appleton Square, Lisboa, mas o tom das palavras trai uma irritação e uma incredulidade fáceis de reconhecer. "Espero que seja também um retrato de uma geração onde nos possamos olhar. A de uma geração que diziam ser a mais bem preparada de sempre", dispara com um sorriso. "Não quis que fosse apenas mais uma exposição do Vasco Barata. Por isso, envolvi outras pessoas que foram generosas comigo." Para todos os efeitos, Les Apaches é mesmo uma individual de Vasco Barata e, porventura, a mais ambiciosa desde que começou o seu percurso em meados dos anos 1990. Fruto de um ano e meio de trabalho, inclui um vídeo de meia hora, uma série de fotografias, um poema projetado na parede, esculturas e uma instalação. E incita o espectador a pensar a actualidade das afinidades entre os artistas e as subculturas.

No piso inferior da Appleton Square encontra-se Os Nossos Ossos: Ariadne, rodado em Guimarães. Uma mulher (interpretada por Andresa Soares, do projecto Máquina Agradável) acredita que noutra vida (mais concretamente nos anos 1950) terá sido uma operária fabril do Vale do Ave. Oferece-se, então, para trabalhar no Centro Cultural Vila Flor em Guimarães, a cidade que abriga as suas visões e onde começa a escavar o (seu) passado. Para sobreviver, limpa janelas, empurra materiais, transporta cabos, sobe e desce num elevador. As tantas, não sabemos se é a Ariadne ou Andresa Soares que vemos. Se se trata de uma operária, de uma trabalhadora cultural ou de uma artista. Os papéis confundem-se, sobrepõem-se. "Há uma dualidade", esclarece Vasco Barata: "A vida da sobrevivência, de um lado, a vida da criação, do outro. O "trabalho" e o "não-trabalho". É como se duas pessoas vivessem no mesmo corpo e isso acaba por se tornar insustentável". Revoltada com o empregador, Ariadne golpeia-o com um chicote e o que fora implícito - o jogo contra o constrangimento diário, a rotina como puro exercício de virtuosismo - mostra-se na deambulação do corpo, com os seus gestos e descobertas, até ao surpreendente desenlace final. Com as devidas distâncias, Ariadne parece-se com Mouchette (a jovem protagonista do filme homónimo de Robert Bresson) e o vídeo, pela forma como negoceia as fronteiras entre a ficção e o documental, aproxima-se de Orléans, de Virgil Vernier. São linhas que se traçam, não obstam - pelo contrário - o propósito e o contexto que definiram a singularidade do trabalho. Sobre as imagens, correm com frequência legendas que revelam a estrutura do guião: "Nem tudo o que queres dizer cabe num filme, o processo é demasiado multifacetado. Ganham-se umas coisas perdem-se outras. Mostrar o guião permite perceber esse processo de trocas. Ter as imagens e as palavras que lhes deram origem e confrontar as suas naturezas."

Apaches e artistas

No piso de cima, o confronto entre as palavras e as imagens repete-se mas em trabalhos distintos. E há instrumentos ou materiais (pedras, facas, alcatifa) que vistos no filme ganham uma vida autónoma na exposição. O poema Vim porque me pagavam, emprestado por Golgona Anghel (convidada de Vasco Barata), surge projectado na parede, mas alguém já o tentou apagar, sem sucesso. Fotografias declinam um cemitério de skates, um lustre decadente, um vidro partido. Lateja uma violência em Les Apaches que a presença de setas com pontas de cristal vem sublimar. Mas a que apaches se refere o titulo? Menos aos índios do Arizona do que ao gangue violento dos subterrâneos da Paris do início do XX. "A referência surgiu por intuição e no seguimento da pesquisa em torno do vídeo. Comecei por descobrir os Indiani Metropolitani, que entre 1976 e 1977 constituíram o braço artístico dos grupos terroristas italianos. E depois cheguei aos Les Apaches, um bando de marginais que aterrorizou a burguesia de Paris e teve uma importante influência cultural. Atraíram o Baudelaire, o Maurice Ravel e a Martha Graham [a coreógrafa e bailarina americana chegou a interpretar uma dança apache]."

A intenção de Vasco Barata revela-se sem equívocos. O artista resgata da história da arte e do modernismo a "aliança" entre os artistas e as subculturas, tema que o historiador Thomas Crow tão bem glosa em Modern Art in The Common Culture. Mas com que fins? Serão os artistas as subculturas de hoje? "Creio que as fronteiras entre as duas categorias já foram mais definidas. Não sei se a Golgona Anghel, o Bruno [Marchand, que ofereceu um texto] ou a Andresa e a Lígia Soares [que também participa no filme] representam subculturas, mas acredito que o trabalho quase invisível que fazem vai ter uma influência no futuro."

A peça central da exposição, Société des Apaches, agrupa, numa estrutura de ferro, fotografias da pistola que os Apaches parisienses empunhavam, uma trança loura, um bloco de notas, um caderno e uma curiosa e incompleta construção em lego. Mas não há textos. "Todo o impacto do gangue Apache foi conseguido à custa de um imaginário, de imagens de violência, de acções, de formas de estar. A palavra era irrelevante, mas foi a palavra, com o Baudelaire, que fixou este universo na cultura de uma forma definitiva e a partir dela deram-se vários desdobramentos artísticos." Esta exposição promete um desdobramento assim. Do jogo da arte contra a cultura e a sociedade. Uma linha de fuga.

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