Nuno Cardoso quer ser candidato ao Porto face a “apelo brutal” da cidade

Putativo candidato é militante do PS, cujos responsáveis dizem tratar-se de uma “candidatura instrumentalizada” ao serviço de Luís Filipe Menezes e ameaçam com a expulsão do partido

Surpreendentemente, Nuno Cardoso anunciou ontem a sua disponibilidade para se candidatar como independente à Câmara do Porto, porque "quer servir a cidade" e "responder a um apelo das pessoas que é brutal".

Coincidência ou não, a disponibilidade do socialista Nuno Cardoso, que presidiu à Câmara do Porto entre 1999 e 2002, quando Fernando Gomes saiu para o Governo, acontece dias depois do último estudo de opinião da Eurosondagem, publicado no Jornal de Notícias, que dá ao candidato do PSD, Luís Filipe Menezes, o pior resultado de todas as sondagens publicadas até ao momento: 33%

Neste estudo, Menezes surge à frente dos seus adversários mais directos, Manuel Pizarro (PS) e Rui Moreira (independente), mas fica muito aquém do resultado com que partiu para este combate e que era exibido pelo PSD para dizer que a candidatura de Menezes ao Porto era um passeio.

As reacções à disponibilidade de Nuno Cardoso, que é militante socialista, não se fizeram esperar. José Soeiro, o candidato do BE à Câmara do Porto, dava nota dos "negócios ruinosos para a cidade" de que Nuno Cardoso foi protagonista, ao mesmo tempo que o acusava de ter sido "um mau presidente de câmara".

"Nestas eleições parece haver já múltiplos biombos. Rui Moreira é aparentemente o candidato de Rui Rio; a candidatura de Nuno Cardoso é surpreendente porque é sabido que esteve publicamente na apresentação do candidato do Governo, Luís Filipe Menezes", afirma o bloquista José Soeiro, que aguarda para ver como se posiciona relativamente às candidaturas que efectivamente existem.

Após o anúncio, o passado de Nuno Cardoso começou de imediato a entrar no debate e, a meio da tarde, a Visão revelava que foi condenado a três anos de prisão, com pena suspensa, num caso de favorecimento ao Boavista em 2001 e que recebeu nos últimos dois anos "mais de 90 mil euros da Câmara de Gaia", liderada por Luís Filipe Menezes, sendo que o último contrato tem apenas quinze dias. A informação está disponível no portal do Governo dos concursos públicos e refere que Cardoso recebeu 90.214,56 euros por dois ajustes directos e um concurso limitado daquela autarquia.

Recorde-se que quando Rui Rio chegou à Câmara do Porto, o primeiro problema que teve que resolver foi o da viabilização da construção nos limites do Parque da Cidade, aprovada por Nuno Cardoso já depois do acto eleitoral que deu a vitória a Rio. A questão tinha estado no centro do debate eleitoral, tendo Rio garantido que não viabilizaria tal tipo de construções.

Para a CDU, a "alegada candidatura independente" de Nuno Cardoso "indicia uma inquinação do debate público eleitoral em torno de questões acessórias, resultando de lutas intestinas entre PSD, CDS e PS".

Já o PS, pela voz do líder da distrital do Porto, José Luís Carneiro, fala de uma "candidatura instrumentalizada ao serviço do PSD, que visa minimizar uma clara queda nas sondagens por parte do PSD no Porto".

"Há seis meses, o candidato social-democrata, Luís Filipe Menezes, dizia que tinha 60% das intenções de voto dos portuenses e agora tem 33%. Esta é uma última tentativa para fazer vingar o PSD", afirmou José Luís Carneiro, em conferência de imprensa convocada após o anúncio de Cardoso, durante a qual destacou a relação de proximidade com Menezes. "Numa leitura política do PS pode estar aqui o canto-do-cisne do PSD, que catapultará o PS para a vitória no Porto, porque isto provoca a indignação dos cidadãos, que não se revêem nestes meios, nestes instrumentos para alcançarem resultados eleitorais", afirmou o líder do PS-Porto ao PÚBLICO, sublinhando que a "política não pode ser um jogo de marionetas".

Carneiro entende que Cardoso estará a servir uma pretensa estratégia de divisão de votos na área socialista, um vez que o candidato do PSD tem vindo a perder terreno nas sondagens. Com esta decisão, o PS fica agora de mãos livres para expulsar este militante, que aderiu ao partido a 6 de Abril de 2000.

Proximidade a Menezes

Nuno Cardoso trabalha actualmente na Energaia (Agência Municipal Energia de Gaia) e tem uma relação próxima com Luís Filipe Menezes, tendo chegado mesmo a ser apontado para número dois da lista de Menezes ao Porto. De resto, o ex-vereador do Urbanismo de Fernando Gomes marcou presença no acto de apresentação da candidatura de Menezes, na Alfândega do Porto, em Janeiro passado.

Militantes do próprio PSD revelaram ao PÚBLICO que Cardoso é visita de casa do presidente da Câmara de Gaia, tendo estado presente nos seus dois últimos aniversários. Outros militantes explicam até a eventual entrada deste socialista na corrida como uma "lebre" de Menezes. "Isto denuncia algum desespero da parte da candidatura do PSD, apenas com o objectivo de fazer o combate sujo da campanha contra Rui Moreira".

Ao PÚBLICO, Cardoso destacou o "apelo brutal" das pessoas com quem se cruza na rua para se candidatar e adianta que esta vontade "há muito tempo" que o acompanha. "O problema é interior. Tenho uma vontade de servir e tenho pessoas que me pedem para que eu sirva a cidade", afirmou ainda Nuno Cardoso. Sobre a sua situação no PS, revela que falou com o secretário-geral do partido, dando-lhe conta dessa intenção, mas que não pretende entregar o cartão. "Eu sou socialista", conclui.