"Até a minha mãe me diz que já não pode ir à Avenida da Liberdade"

António Costa fez ontem um balanço dos seus últimos quatro anos à frente da Câmara Municipal de Lisboa e assumiu que não quer carros na Av. da Liberdade. O discurso prolongou-se por duas horas

António Costa assumiu ontem, durante um discurso de praticamente duas horas em que fez um balanço dos últimos quatro anos enquanto presidente da Câmara de Lisboa, que quer banir os veículos particulares da Avenida da Liberdade "por uma questão de saúde pública". "O meu objectivo é que as pessoas não vão lá de carro", afirmou, reconhecendo que a posição que defende é impopular, incluindo entre aqueles que lhe são próximos.

"Até a minha mãe já me diz que não pode ir à Avenida da Liberdade", disse António Costa, como forma de introduzir o tema das alterações de circulação iniciadas em Setembro entre o Marquês de Pombal e a Baixa - tema que, reconheceu, tem gerado grande polémica". "Não podemos é ir de carro", completou logo depois o autarca, frisando que, nesta zona da cidade, o que não falta são transportes públicos, havendo até, em sua opinião, um excesso de autocarros.

Com a afirmação de que a introdução de fortes restrições ao trânsito neste eixo "é polémica, é difícil", mas é necessária "por uma questão de saúde pública", o presidente da câmara arrancou um aplauso da assistência. O mesmo tinha acontecido minutos antes, quando referiu "a grande batalha que o município tem de travar para voltar a ter o controlo efectivo dos transportes públicos".

O Fórum Lisboa, na Avenida de Roma, encheu-se ontem de pessoas, algumas das quais tiveram de permanecer de pé, para ouvirem o que tinha o autarca a dizer sobre o trabalho feito desde 2009. Na plateia estavam nomes como Carlos do Carmo (fadista) e Paulo Pires (modelo e autor), o atleta Carlos Lopes e ex-governantes como Mário Lino, José Magalhães e Ferro Rodrigues. Os que resistiram até ao fim do longo discurso de Costa puderam levar consigo uma publicação de 90 páginas profusamente ilustrada, com uma tiragem de mil exemplares e um balanço do mandato.

No arranque da sua intervenção, o autarca deixou alguns agradecimentos, por exemplo "às oposições", com quem "foi possível ir encontrando consensos sobre questões estruturantes", como o plano director municipal, a reorganização administrativa da cidade e a política fiscal do município.

Entre as "conquistas" de um mandato que considerou ter decorrido "num contexto quase impossível", marcado pela crise, o socialista elencou a requalificação do Terreiro do Paço e da Ribeira das Naus, estando esta última ainda em curso. Para lá dessas "obras emblemáticas", António Costa mencionou "a preocupação com a qualificação do espaço público, que envolveu toda a cidade", incluindo os bairros tradicionais e os municipais.

O investimento de 20 milhões de euros na recuperação de calçadas e pavimentação de ruas foi também destacado pelo presidente da câmara, que admitiu que este é um capítulo em que "a vida não é fácil". Um lamento que o autarca estendeu ao domínio da higiene e limpeza, que, em sua opinião, "vai melhorar muito" com a transferência para as juntas de freguesia das competências de limpeza e varredura das ruas.

Também ao nível da mobilidade António Costa admitiu que há um longo trabalho por fazer, mas frisou que este vai muito para lá das competências municipais: "Há uma batalha cultural que temos de travar contra nós próprios", disse. O autarca reconheceu ainda que nestes quatro anos (a que se somam dois de um primeiro mandato) ficou por resolver o problema existente no Bairro Alto entre moradores e frequentadores dos estabelecimentos nocturnos, mas rejeitou responsabilidades, considerando que está em causa "um problema civilizacional".