Rixa entre jovens acaba com rapaz morto à facada em escola na Amadora

Violência praticada por alunos e ex-alunos é bem conhecida da vizinhança. "Muitos andam sempre armados de facas", descreve moradora. "Quando a polícia cá chega, já tudo aconteceu".

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A PSP já terá interceptado dois suspeitos de estarem envolvidos no desacato Daniel Rocha

Quando foi à janela, Mónica Colaço, uma jovem mãe de 22 anos, percebeu que havia confusão na rua. Outra vez. Espreitou e viu os rapazes em correria, vindos de um parque ali ao lado chamado Ilha Mágica, uns a perseguir os outros, em direcção à escola.

Pensou que era uma tarde como as outras: "Aqui há agressões quase todos os dias. Ainda na semana passada um rapaz foi espancado quase até à morte pelos outros, por causa de um fio de ouro". Nesta quinta-feira, o motivo da disputa terá sido uns óculos de sol. Mas na Venteira, a freguesia da Amadora em que se situa a Escola Secundária Seomara da Costa Primo, não é preciso haver razões para uma boa cena de pancadaria.

Mónica Colaço conta que é frequente ouvir os rapazes "a combinar as brigas para os intervalos, para não faltarem às aulas". Já os viu várias vezes passarem a correr em bandos assim que toca a campainha, em direcção aos descampados vizinhos, uns para exibirem os seus dotes de lutadores e os outros para assistirem ao espectáculo. "Muitos andam sempre armados de facas", descreve a moradora. "Quando a polícia cá chega, já tudo aconteceu".

Uma antiga aluna, Elizabete Madeira, confirma: "Isto mais tarde ou mais cedo ia acontecer. Andei nesta escola há seis anos e voltei cá há dois, por causa de um certificado de habilitações, e reparei que o ambiente mudou muito. Bebem, roubam, fumam droga logo de manhã, brigam, passam o dia encostados ao portão da escola... Este é o tipo de guerra que até um deles morrer não pára". Um deles morreu nesta quinta-feira, esfaqueado. Tinha 20 anos.

Eram cerca de 15h, recorda a moradora, quando o bando em correria chega junto à escola. Entre perseguidores e perseguidos havia pedrada que fervia, lembra-se a jovem mãe.

Embora já não a frequente, Lenine entra dentro da escola, com os outros na sua peugada. Talvez vá procurar socorro junto do grupo dos "seus". Junto ao gradeamento da secundária cada um tenta safar-se como pode: "Uns pulavam a rede para a rua, para escaparem ao rebuliço, enquanto outros pulavam para dentro da escola, para agarrarem os outros. Uma confusão", descreve a rapariga. Quando entra na escola, o rapaz de 20 anos já estará ferido. Ter-lhe-á sido desferida outra facada já dentro da secundária, ao ar livre.

Depois de percorrer escassas dezenas de metros, tomba prostrado no chão, sem se conseguir levantar. "Já tinham passado mais de 20 minutos quando chegou a ambulância do Instituto Nacional de Emergência Médica", descreve Mónica Colaço, que entretanto descera à rua. "Estava a esvair-se em sangue."

Na cauda dos rankings
Segundo a PSP, os dois grupos rivais já se haviam envolvido em confrontos na quarta-feira, na vizinha cidade de Queluz. E nesta quinta-feira houve outra vítima além de Lenine, um segundo rapaz de 19 anos que foi atingido com pedradas na cabeça, mas cujo estado não inspirava cuidados. A PSP anunciou, entretanto, ter identificado mais dois rapazes supostamente envolvidos nos confrontos, tendo-os mantido sob custódia.

A escola fechou mais cedo, tendo sido guardada por um forte contingente policial. Foram chamados psicólogos para dar apoio aos familiares e amigos da vítima mortal - cujo choro e sofrimento se ouviu ao longo da tarde na Venteira. Primeiro começou baixinho, depois os gritos de dor a encherem o ar e a deixarem mudos todos os habitantes e alunos que se aglomeraram em redor do estabelecimento de ensino. Por fim, o choro dos familiares de Lenine, um jovem de origem africana, transformou-se numa estranha melodia, como se de um cântico fúnebre se tratasse.

A jovem mãe diz que quer ir-se embora daqui, teme pelas duas crianças que está a criar: "Tenho a certeza que isto não vai ficar por aqui".

Segundo o ranking das escolas elaborado pelo PÚBLICO com base nos resultados dos exames do ensino secundário e do 9.º ano, a Escola Seomara da Costa Primo está nos últimos lugares dos estabelecimentos nacionais, inserindo-se, de acordo com a Universidade Católica, nos contextos socio-económicos mais desfavorecidos, tendo em conta a percentagem de beneficiários da acção social e as habilitações dos pais dos estudantes.