A tristeza de Delors, quando os europeus foram em fila ver Putin

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Portugal tem uma palavra a dizer nos seus assuntos e nos da Europa, disse Jacques Delors daniel rocha

"As dificuldades dramáticas dos portugueses tocam-me", admitiu o veterano europeísta e socialista europeu. A história do bom aluno faz-lhe doer o coração.

Em pouco mais de uma hora, Jacques Delors, ex-presidente da Comissão Europeia, fez o exame clínico aos males da Europa. Falou de "choques", apontou caminhos e, com o saber de muita experiência feita, resumiu num episódio o que corrói a aventura europeia. "Um dos meus momentos mais tristes como militante europeu foi o de ter visto cada um dos dirigentes dos nossos países ir em fila ver o senhor Putin, em vez de negociarmos em bloco a energia."

Com base neste caso, no anfiteatro 2 da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, repleto e com a assistência a ocupar outros degraus da escada, Delors falou de "repositivar a velha Europa". O orador admitiu que a palavra é francesa, mas exemplificou o valor da sua utilização: "A Europa não é só a união económica e monetária, nós somos 28 e não apenas 17, só se fala do euro, por isso é necessário repositivar a questão."

Esta pedrada na agenda da actualidade levou Delors a usar palavras há muito esquecidas no dicionário europeu: competição, mas também solidariedade, colaboração e diversidade na unidade. "Uma Europa potente ou influente?", perguntou. A resposta foi de nuances que desapareceram do discurso político: "Um pouco das duas, a potência, sem excesso, a influência, essencial."

Jacques Delors definiu os desafios como "choques". O da globalização, que leva ao tratamento uniforme das realidades e esquece o crescimento económico. "Fala-se dele, mas não há", constatou. "O Banco Central Europeu, que trabalha bem, deve preocupar-se com a fragmentação dos mercados que não permitem o crédito às empresas portuguesas." Não esqueceu Delors a outra dimensão da globalização. Os povos dos países que batem à nossa porta: "O nosso desafio é sermos europeus atentos à cultura dos outros." E sermos, disse citando Havel, "um agente da paz".

O segundo "choque" é o da soberania. Mais forte em tempos de crise. A soberania deve ser partilhada: "Portugal tem uma palavra a dizer nos seus assuntos e nos da Europa." A advertência para o risco de populismos de direita e de esquerda foi imediata. Como certeira uma observação que assenta na nossa experiência como uma luva: "A história do bom aluno faz-me doer o coração." A abrir, Delors já manifestara solidariedade para com o anfitrião: "As dificuldades dramáticas dos portugueses tocam-me."

Mas não há motivo de desesperança: "A Europa foi o centro da Terra, que já não é, mas isso não é razão para desistir." A frase foi ouvida por António José Seguro, António Barreto, Filomena Mónica, Eduardo Catroga, Eduardo Lourenço, João Proença, Assunção Esteves, Alberto Costa, Manuela Ferreira Leite, Alfredo José de Sousa, Carlos Monjardino, Arnaldo Matos, Marinho Pinto... Mas por poucos representantes dos partidos do poder. Nem prlo primeiro-ministro, Passos Coelho, nem pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas. Do Governo, pelo menos nas primeiras filas, apenas o secretário de Estado dos Assuntos Europeus, Morais Leitão.

O terceiro "choque" de Delors é o dos "erros humanos". "Há um choque de gerações que vamos deixar como legado, Estados endividados, sem emprego?" O que motiva a tarefa de reparar erros, sem esquecer o que os originou: "O fiasco de uma ideologia que mandou no mundo durante 15 anos, a do valor do dinheiro fácil, que coincidiu com uma crise moral."

Para a UEM [união económica e monetária], Jacques Delors admitiu que se devia ter esperado mais três ou quatro anos. Entre as medidas para a sua recuperação, destacou o reforço da participação dos Parlamentos nacionais para "melhor assumir a responsabilidade". Também a constituição de um superfundo de coesão, um novo instrumento de regulamentação económica e a harmonização dos impostos sobre as empresas.

"Esta estrutura, sem mudança institucional, pode ser a saída", alvitrou. Até porque, noutro exemplo sugestivo, o veterano europeísta insistiu que a UEM está coxa: "Só anda sobre uma perna, a monetária, esquecemos a económica."