Vieira oferece a Jesus o que há 50 anos o Benfica não dava a um técnico

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Depois de algum impasse, confirmou-se que Jesus continua a ser o treinador do projecto pensado por Vieira FABRICE COFFRINI/afp

Contrato do treinador foi renovado por duas épocas. Desde Otto Glória que um técnico não iniciava quinta época seguida na Luz.

Demorou um mês a confirmar-se, mas o que Luís Filipe Vieira dizia sobre a continuidade de Jorge Jesus tornou-se realidade. O técnico vai seguir no Benfica, com um contrato renovado por dois anos.

Jesus vai iniciar uma quinta temporada consecutiva - algo que não se vê acontecer para os lados da Luz há mais de cinquenta anos. É preciso recuar até ao final da década de 1950 para encontrar o último exemplo de um treinador que cumpriu mais de quatro épocas seguidas no cargo: Otto Glória orientou os "encarnados" entre 1954 e 1959. O que evidencia, também, uma mudança de paradigma no clube.

"Não é normal isto acontecer em Portugal nem no Benfica, mas é um dado positivo", disse Rui Águas em conversa com o PÚBLICO. "Muitas vezes muda-se por mudar", acrescentou o ex-jogador do Benfica, notando que é uma aposta em alguém que "deu provas": "O Benfica teve uma época com qualidade exibicional e resultados em várias competições. Há pormenores que resultam em vitórias ou derrotas, mas a qualidade do trabalho não está em causa".

No início de Maio, o presidente do Benfica frisava: "Jorge Jesus é o meu treinador, e se eu vou continuar como presidente do Benfica, logicamente que ele também vai continuar. Estamos em pleno campeonato, em plena final da Liga Europa e na final da Taça de Portugal. Ele sabe qual é o meu pensamento e eu sei qual é o dele, basicamente só falta passar para o papel." O que veio a seguir é que não estava nos planos de Vieira: de liderar a I Liga com quatro pontos de vantagem, os "encarnados" passaram ao segundo lugar, com menos um ponto que os "dragões", numa semana. Na final da Liga Europa, fizeram uma boa exibição mas perderam com o Chelsea. E, no Jamor, não resistiram à alma do Vitória de Guimarães. De três troféus possíveis, o Benfica ficou sem nenhum.

O tabu sobre a situação contratual do técnico arrastava-se após o final de época penoso dos "encarnados". Mas será mesmo Jorge Jesus a suceder a Jorge Jesus no comando técnico do Benfica, após as duas partes terem chegado a acordo. "A Sport Lisboa e Benfica - Futebol, SAD, em cumprimento do disposto no artigo 248.º do Código dos Valores Mobiliários, vem informar que renovou o contrato de trabalho desportivo celebrado com o seu treinador Jorge Fernando Pinheiro de Jesus por mais duas épocas desportivas, ou seja, até 30 de Junho de 2015", podia ler-se no curto comunicado, de apenas quatro linhas, enviado ontem à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários, um minuto antes das 13h.

Para Toni, ex-treinador do Benfica, o desfecho deste processo é uma prova de confiança mútua entre Jorge Jesus e Luís Filipe Vieira: "Pode haver sócios e adeptos contra, mas há muitos a favor. Com Jesus ou sem Jesus, aquilo que se quer é que o Benfica ganhe. É nessa perspectiva que Vieira faz esta aposta na continuidade", apontou. No entanto, sublinhou, a renovação "não significará que possa estar a aparecer um Alex Ferguson no futebol português".

Luís Filipe Vieira expõe-se ao apostar na continuidade do treinador que venceu um campeonato e três Taças da Liga nos quatro anos que leva na Luz. O dirigente ficará ligado ao que vierem a ser os resultados desportivos na próxima temporada. "Temos de repetir o que fizemos este ano e escrever, apenas, um final diferente", dizia há poucos dias o presidente do Benfica, num jantar com 70 deputados benfiquistas. "A vinda do Jorge Jesus também está ligada ao presidente", lembrou Rui Águas. "Os estádios voltaram a encher e o futebol de qualidade voltou também. A fronteira é curta entre o sucesso e o fracasso", concluiu.

"Não era só o Benfica a querer o Jesus, o Jesus também quis o Benfica", afirmou Toni, concluindo: "Jorge Jesus sentiu que o seu ciclo no Benfica não estava fechado e mantém este desafio em aberto".