Portugueses já estão a ajudar a construir o grande telescópio europeu

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Espera-se que o E-ELT fique pronto em 2023 L. Calçada/AFP

Equipas nacionais estão a projectar aparelhos do próximo grande telescópio europeu que podem servir para a identificação das primeiras galáxias do Universo ou a análise de atmosferas de planetas extra-solares

O telescópio original do início do século XVII teve patente holandesa. Mas foi Galileu que melhorou o instrumento e observou as luas de Júpiter. Nos séculos seguintes, o telescópio foi evoluindo em prol de uma astronomia mais avançada. É isso que se pede agora para o Telescópio Europeu Extremamente Grande (E-ELT, sigla em inglês) do Observatório Europeu do Sul (ESO). Se tudo correr bem, o telescópio ficará pronto em 2023. Para já, está-se a pensar nos instrumentos que poderão integrar o telescópio. Há portugueses envolvidos em dois projectos que se vão candidatar para fabricar aparelhos: um para observar as galáxias mais antigas, outro para caracterizar a atmosfera de planetas extra-solares do tamanho da nossa Terra.

"Queremos compreender um fenómeno [astrofísico] e vamos fabricar um instrumento para isso", explica ao PÚBLICO Nuno Santos, astrofísico do Centro de Astronomia da Universidade do Porto (CAUP). É assim que se inicia o desenvolvimento de um aparelho astrofísico, conta-nos este especialista em planetas extra-solares envolvido num projecto para o E-ETL que ainda está numa fase muito embrionária. Nuno Santos, juntamente com colegas do Centro de Astronomia e Astrofísica da Universidade de Lisboa (CAAUL) e com parceiros europeus, está a conceber um espectrógrafo capaz de analisar a atmosfera de exoplanetas, o que pode indicar a existência de vida.

"É um passo a seguir ao Espresso", explica Nuno Santos, referindo-se a outro espectrógrafo que o ESO deu agora o aval para começar a fase final de construção e que em 2016 estará a funcionar no VLT, o telescópio que está há 15 anos a olhar o céu a partir do Norte do Chile, a poucos quilómetros onde o E-ELT irá ser construído. O Espresso também é uma colaboração europeia com participação do CAUP e do CAAUL, e será capaz de detectar planetas semelhantes à Terra a orbitar outras estrelas. O novo projecto para o E-ELT irá passar pelos mesmos passos que o Espresso passou. Na pior das hipóteses, pode nunca sair do papel se o ESO não o aprovar.

O outro projecto, com o nome preliminar de Mosaico, é uma câmara de campo largo que fará imagens de grandes áreas do céu. Se for construída, um dos objectivos desta máquina é identificar as primeiras galáxias que se formaram no Universo. "Temos apenas candidatos das primeiras galáxias, que se identificaram com o telescópio espacial Hubble", diz José Afonso, astrónomo do CAAUL, que está envolvido no projecto, que conta com outros parceiros europeus. "A confirmação destas galáxias como galáxias primordiais terá de esperar pelo E-ELT", acrescenta o cientista. Só a nova tecnologia é que vai permitir aceder a estes objectos longínquos que se formaram durante os primeiros mil milhões de anos.

Nestes projectos há muita competição, mas Portugal já passou o nível zero quando aderiu ao projecto do E-ELT e passou a ser membro de pleno direito. Desta forma, os centros de investigação e as empresas podem candidatar-se a todos os projectos necessários para a construção deste enorme telescópio, desde as infra-estruturas, até ao esqueleto do telescópio e instrumentos científicos.

Na segunda-feira, Tim de Zeew, director-geral do ESO, e o ministro da Educação e Ciência, Nuno Crato, reuniram-se com astrónomos e representantes da indústria em Lisboa para promover a iniciativa à participação na construção do telescópio e desenvolvimento dos aparelhos científicos do E-ELT. "Acho que os astrónomos portugueses estão a utilizar os instrumentos do ESO muito bem. Estão a construir instrumentos para o Very Large Telescope (VLT) e estão a ajudar a desenvolver os instrumentos para o E-ELT", disse o director-geral do ESO ao PÚBLICO.

"Ficámos bastante contentes em saber que Portugal passou a ser membro do E-ELT", disse por sua vez Luiz Quintas, administrador da empresa portuguesa Solidal, que produz cabos eléctricos. A Solidal participou na sessão de segunda-feira. É um exemplo de uma empresa que trabalhou para o ESO, fabricou quilómetros de cabos de média tensão para o radiotelescópio ALMA inaugurado em 2013, no Chile. Segundo Luiz Quintas, este projecto deu prestígio e publicidade à Solidal. Por isso estão atentos para entrar na corrida e poderem trabalhar para o E-ELT.