Flamenco de Lisboa em festa com a voz de Carmen Linares

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Hoje no CCB "um pilar fundamental de todo o cante actual" dr

Carmen Linares é o nome maior da edição de 2013 do Festival de Flamenco de Lisboa. Hoje, no CCB, a voz de uma diva do flamenco

É uma repetição, mas, no caso dela, ninguém se importa. Carmen Linares, que em Abril de 2011 actuou no CCB no âmbito dos Dias da Música, volta hoje à noite ao mesmo espaço (às 21h), mas desta vez, justamente, no Grande Auditório. O programa anuncia vários géneros do flamenco (soleá, taranta, toná, fandangos, bulerías, tangos, alegrias) com letras populares ou de poetas como Federico García Lorca (1898-1936), Miguel Hernández (1910-1942) e Juan Ramón Jiménez (1881-1958). Em suma: o excelente reportório de Remembranzas, título do seu mais recente disco, gravado ao vivo no Teatro de la Maestranza, em Sevilha, a 5 de Fevereiro de 2011. Nesse disco ouve-se dizer, a dada altura: "O cante provém de duas fontes: a emoção da tristeza e a emoção da alegria". Carmen Linares é uma prova viva da força de tal cruzamento.

Nascida Mari Carmen Pacheco Rodríguez em 1951, em Linares, Jaén (daí o nome que adoptou na sua vida artística), foi em Madrid que tomou contacto, ainda muito nova, com os meios do flamenco. Filha do guitarrista Antonio Pacheco, conheceu então alguns dos nomes já famosos à época como La Perla de Cádiz, Pepe el de la Matrona, Juan Varea ou Fosforito, iniciando-se como cantaora nas companhias de Paco Romero e Carmen Mora. Foi, aliás, apadrinhada por Fosforito que, segundo José Manuel Gamboa no seu Guía Libre del Flamenco, ela se estreou nas gravações fonográficas em 1970, com Juan Habichuela.

Nos tablaos madrilenos, Carmen teve ao seu lado jovens talentos da época, mais tarde consagrados, como Camarón de la Isla, Enrique Morente, Ramón el Portugués ou os irmãos Habichuela. Primeiro prémio nos Cantes Andaluces em 1978, aos 27 anos, Carmen vê projectada a sua carreira além-fronteiras, começando a actuar (e a triunfar) um pouco por todo o mundo. Porém, tal como Enrique Morente (que ela homenageia no disco Remembranzas, dedicando-lhe o tema Asesinado por el Cielo, mês e meio após a sua morte), a inquietude de Carmen levou-a a aventurar-se noutros campos, não se separando nunca das raízes e da alma do flamenco. Fez teatro, ópera, cantou zarzuelas e "ressuscitou" a versão primitiva de El Amor Brujo de Manuel de Falla e Gregorio Martínez. E esteve, claro, com Carlos Saura nas filmagens de Flamenco, sendo uma das suas estrelas.

Em 2011, no seu Guía, Gamboa considerava Carmen Linares "um pilar fundamental de todo o cante actual". Doze anos depois, isso continua a ser verdadeiro. Hoje, com Carmen Linares (cante) estarão no CCB Salvador Gutiérrez, Eduardo Pacheco (guitarras), Pablo Suárez (piano), Ana María González e Rosario Amador (coros e palmas).

Amanhã, ainda no CCB, o festival continua com a mesa-redonda Fado e Flamenco - Patrimónios Imateriais da Humanidade (na sala Luís de Freitas Branco, às 19h) e a 7 de Junho haverá um tablao em homenagem à extraordinária bailaora catalã Carmen Amaya (1913-1963), no pequeno auditório do CCB, às 21h. Haverá mais, em Julho. Mas no Porto.