A Angola que venceu o Leão de Ouro é uma nova Angola para ser descoberta

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Edson Chagas apanhou objectos que estavam abandonados na rua e fotografou-os em novos lugaresAs fotografias estão dispostas em pilhasA comissária com o prémio ao lado do artista e da ministraQualquer pessoa pode levar uma cópia fotos: ITALO RONDINELLA

À primeira participação, um prémio. O pavilhão angolano mostra as fotografias de Edson Chagas, onde se cruzam objectos estranhos com a Luanda colonial. A arte angolana em alta

É uma Angola aberta ao mundo, aquela que no sábado foi premiada com o Leão de Ouro na Bienal de Arte de Veneza para a melhor representação nacional. Uma Angola do pós-guerra, criativa e contemporânea, vista pela lente do fotógrafo Edson Chagas. É uma Angola que poucos ainda conhecem, o que faz com que a surpresa deste prémio seja ainda maior. É que não só esta foi a primeira vez que o país se fez representar na bienal italiana como Chagas, o artista premiado, é ainda novo nestas andanças.

"Os artistas não existem porque participam na Bienal de Veneza, é exactamente o contrário. Só vão a Veneza porque já existem como artistas." Quem o diz é o artista plástico e comissário angolano Fernando Alvim, que há muito tempo acompanha o trabalho de Edson Chagas. Não é da mesma geração do agora premiado, que nasceu em Luanda em 1977, e talvez por isso, ao contrário da opinião geral, não se surpreendeu com a escolha do júri. "É um prémio justo. Se Angola tem representação em tantas organizações internacionais, como nas Nações Unidas, porque há-de ser estranho que o mesmo aconteça na arte?", continua Alvim, que é também director da Trienal de Arte de Luanda.

Fernando Alvim, que em Janeiro foi curador da exposição No Fly Zone, no Museu Colecção Berardo, em Lisboa, na qual Edson Chagas participou, fala de um preconceito geral para com a arte contemporânea africana mas não tem dúvidas de que esta cada vez mais se afirma "com personalidade face a um mundo de arte hostil". "Até entendo que exista alguma desconfiança porque afinal a nossa história é nova mas são prémios como este que mostram o nosso valor e que mostram que as pessoas existem", explica ao telefone de Luanda. "E este é mais do que merecido" continua, acrescentando que o Leão de Ouro "foi entregue a um trabalho muito inteligente e bem pensado de dois curadores [Paula Nascimento e Stefano Pansera] que escolheram um artista, que apesar de não ter um currículo longo, tem uma obra muito interessante e sólida".

E conta quem esteve em Veneza que o projecto angolano não passou despercebido. Primeiro pelo local onde foi instalado: no Palácio Cini, um edifício histórico que acolhe uma colecção de arte e mobiliário renascentista e que estava fechado há cerca de vinte anos. E depois pela ideia do projecto, que passa pela disposição em pilhas de cópias de 23 fotografias de Chagas. À entrada do palácio é oferecida aos visitantes uma capa, na qual podem guardar depois as cópias das fotos que quiserem levar.

A ideia partiu da dupla de curadores, a angolana Paula Nascimento e o italiano Stefano Pansera, que há muito trabalham em conjunto e que desafiaram o Ministério da Cultura angolano a participar pela primeira vez nesta bienal de arte.

Luanda, Cidade Enciclopédica é o nome do projecto e mostra o trabalho fotográfico de Chagas enquanto uma enciclopédia urbana de Luanda. Nas imagens vêem-se objectos velhos enquadrados de forma surpreendente por edifícios históricos da capital angolana. "São objectos que estavam na rua e que encontrei", conta ao PÚBLICO o fotógrafo, explicando que os foi apanhando e fotografando-os em locais "que são do tempo colonial". "E assim de repente estes objectos transformam-se em obras de arte mas, ao contrário daquelas pinturas renascentistas do Palácio Cini, estas podem ser levadas para casa", explica Chagas, que quis que os visitantes pudessem fazer a sua própria enciclopédia. "É um trabalho brilhante com uma grande capacidade de interacção", diz Fernando Alvim.

Para o crítico de arte João Pinharanda, que visitou o pavilhão em Veneza, o trabalho de Chagas distingue-se por ser "político e interventivo sem ser demagógico". "É um fotógrafo que apanha o instante mas é um instante que se prolonga no tempo."

Edson Chagas não deixou de se surpreender com a quantidade de pessoas que quiseram levar as suas reproduções para casa. "Alguns visitantes que vi levaram duas ou três fotografias, outros acabaram por levar todas", diz o artista.

E levaram tanto que não houve stock de capas para tanto visitante. "Nunca esperámos que a procura fosse tão grande. Ao segundo dia fomos obrigados a fechar o pavilhão mais cedo porque a fila de espera era grande e não tínhamos como responder", diz a curadora Paula Nascimento, para quem o objectivo do projecto se cumpriu quando pela cidade de Veneza se começaram a ver as pessoas com os trabalhos de Chagas debaixo do braço. "O trabalho acabou por se reverter, ou seja, as pessoas acabaram por fazer o que o Edson fez, que foi pegar nos objectos, neste caso as fotos, e dar-lhes um novo contexto, levando sempre um bocadinho de Angola consigo", explica, sem esconder a satisfação. "É que nós já estávamos contentes só por lá estar", afirma.

A satisfação da curadora é a mesma, claro, de Edson Chagas, que espera que o prémio possa pôr as pessoas a olhar para a arte angolana. "Em Angola sempre se fez arte e nem sempre é fácil", admite Chagas, fotojornalista de formação, falando na falta de espaços de exposição e de escolas dedicadas às artes.

A ministra da Cultura angolana, Rosa Cruz e Silva, conhece estas dificuldades, garante. "É por isso que é importante participar nestes eventos internacionais. Não é apenas para nos mostrarmos em palcos mundiais mas também para dar oportunidade aos nossos artistas de conhecerem outras realidades e outras formas de trabalho", diz ao PÚBLICO, explicando que "o Executivo angolano sabe que a Cultura é uma variável que contribui para o Orçamento do Estado e para isso é preciso que o próprio Estado também invista".

Neste caso, Rosa Cruz e Silva diz que o apoio do Estado fixou-se nos 300 mil euros. Mas houve ainda apoios privados que a ministra se esquivou a quantificar. "Agora com o prémio ficou mais exigente para todos", continua a ministra, que em Veneza percebeu que as pessoas que visitaram o pavilhão ficaram também interessadas em saber mais sobre o país. "É importante para o desenvolvimento de turismo cultural. É que até aqui as pessoas tinham uma imagem de Angola que é a Angola da guerra e esta é uma Angola nova, uma Angola que se abre e dialoga com o mundo."