Opinião

O debate sobre pirataria de livros electrónicos, revisitado

Devem os livros electrónicos ter mecanismos de protecção contra cópia?

No outro dia vi um anúncio interessante da Tor Books UK, uma editora da área da ficção científica e fantasia.

Há um ano, a empresa fez uma experiência notável: retirou dos seus livros a protecção contra cópia.

Ora, há duas visões de senso comum sobre este tema. É claro que a maior parte das editoras acham que esta estratégia é insana. Para uma editora, a protecção contra cópia é a única coisa que impede os piratas de fazerem circular livremente os seus livros. Se deixasse de a ter, as suas receitas cairiam a pique e poderia vir a ter de fechar portas.

Mas há outra escola de pensamento que diz que ninguém pirateia software a não ser miúdos sem dinheiro que, assim como assim, não comprariam os livros na mesma. Esta linha sustenta que, se os livros tiverem um preço razoável e forem bem comercializados, as pessoas não terão problemas em pagar.

E algumas vozes dentro desta escola afirmam até que a remoção da protecção contra cópia levaria a que se vendesse mais, porque os clientes podiam experimentar a mercadoria e, se achassem que era de qualidade, da vez seguinte pagariam por ela.

Em geral, porém, tudo isto é um mero pingue-pongue de ideias. São muito poucas as experiências que podem demonstrar qual dos campos tem razão.

O que nos traz de volta ao anúncio e à experiência da Tor, cuja conclusão principal é: “Não detectámos um aumento sensível de pirataria em qualquer dos nossos títulos.”

Não posso dizer que tenha ficado surpreendido. A editora O’Reilly e eu fizemos uma experiência semelhante com um dos livros da minha série “Missing Manual” e os resultados foram idênticos.

A decisão da Tor e os seus resultados originaram, naturalmente, milhares de comentários por parte dos dois lados da discussão, reforçando, na sua maioria, os seus próprios argumentos.

A questão é que a experiência da Tor não se aplica a todas as outras editoras. Os seus resultados não constituem uma prova sólida e extensível de coisa nenhuma.

Por exemplo, a Tor reconhece que a sua comunidade de leitores de ficção científica/fantasia “é muito coesa, com um grande peso da presença online e porventura com uma comunicação entre editores, autores e leitores mais próxima do que noutras áreas da edição”. Assim, a experiência poderia ter resultados diferentes para outras editoras.

(A editora dos meus Missing Manuals, a O’Reilly, também vende com sucesso livros electrónicos sem qualquer protecção. Mas o público a que se dirige também é uma comunidade coesa e com uma forte presença na rede.)

Por fim, também me intriga como é que a Tor mediu a taxa de pirataria. Existe algum instrumento de medição que determine quantas pessoas estão, pela calada, a trocar por e-mail os ficheiros dos nossos livros?

Neste debate, encontro-me numa posição singular: como consumidor, odeio a protecção contra cópia; como autor, contudo, odeio a pirataria.

Assim, devo ter lido e pensado muito mais sobre o assunto que a maioria das pessoas. A experiência da Tor pode não ser conclusiva, mas tenho algumas respostas às reacções dos leigos:

“Claro que o resultado da experiência da Tor não podia ser outro! A protecção contra a cópia não incomoda ninguém a não ser os clientes cumpridores da lei.”

Espere aí. É verdade que a protecção contra cópia não detém todos os piratas. Todos os sistemas de protecção alguma vez concebidos podem ser furados. (Mesmo a Tor não diz que não foi vítima de pirataria, mas sim que não detectou um aumento.)

Mas daí a dizer que a protecção contra cópia tem efeitos nulos vai uma grande distância. Efectivamente, ela desencoraja os piratas ocasionais – pessoas sem grandes conhecimentos técnicos que clicariam em “Descarregar PDF gratuito” se pudessem.

“Quanto tempo é que estas indústrias vão levar para perceber que, se venderem um bom produto a um preço razoável, as pessoas vão pagar para o ter?”

Não é necessariamente verdade. A fricção também é importante. É por isso que a Apple e a Amazon têm tido um êxito tão grande com o botão único “clique para comprar”. Para evitar a pirataria, não basta oferecer um bom produto a um preço razoável, também é preciso tornar a compra o mais fácil possível.

“Enquanto os livros electrónicos forem escandalosamente caros, irei pirateá-los.”

Oiço muito isto, que o preço dos livros electrónicos parece ser excessivo.

Bem, eu não digo que ele é excessivo – as editoras continuam a ter de recuperar grandes investimentos iniciais (adiantamento ao autor, edição, indexação, grafismo, promoção, etc.). Mas o leitor médio tem o direito de perguntar por que é que um livro electrónico terá de custar tanto como um em papel, uma vez que não há custos com impressão, encadernação ou portes de envio.

Como autor, estou de acordo que o livro electrónico custe menos que o de papel. Acho que assim venderia muito mais, devido à vantagem da baixa fricção.“A indústria da edição só tem de pôr os olhos na indústria da música. Ela acabou por deixar cair a protecção contra cópia e assim acontecerá também com as editoras.”

Esse não é um argumento completamente legítimo. As canções (baratas, curtas, reproduzíveis repetidamente e fáceis de sacar dos CD) não são a mesma coisa que os livros electrónicos (grandes, normalmente lidos só uma ou duas vezes, muito mais difíceis de digitalizar a partir do suporte em papel).

Por outras palavras, a experiência da indústria musical não se aplica a todas as outras; alguns formatos, como o DVD, foram objecto de protecção contra cópia desde o princípio e ninguém parece importar-se com isso.

Portanto, em que ficamos?

Apesar de não sabermos ao certo, há cada vez mais indícios de que os livros electrónicos se parecem mais com os ficheiros de música do que com os filmes em DVD: a remoção da protecção contra cópia não tem efeitos negativos e talvez pudesse ser benéfica. E são muito poucos os indícios de que essa protecção esteja a travar a pirataria.

Isto não significa que o assunto fique decidido a favor de um lado ou do outro. Repito, os indícios de redução da pirataria são muito poucos. Experiências como a da Tor deveriam ser feitas por mais editoras de outras áreas. Deixemos de opinar sobre o que aconteceria e passemos à acção.

Tradução: Maria Eugénia Colaço©2013 The New York Times. Distributed by The New York Times Syndicate.