Em Bragança já não há "Bom dia, Tio João"

Programa de rádio unia idosos e foi calado na sexta-feira.

Adriano Miranda
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Adriano Miranda

O programa “Bom dia, Tio João”, que durante quase 24 anos deu voz, a partir de Bragança, sobretudo aos idosos isolados, está silenciado desde sexta-feira, deixando em “choque” a “família” que fez da rádio uma instituição social.

Sem aviso, milhares de “tios” e “tias” de todo o interior norte de Portugal foram surpreendidos, na sexta-feira, às 06h00 com a ausência da já habitual saudação do “Tio João”: “Familiazinha, bom dia”.

A rádio local, a RBA, que nasceu e cresceu com o “Tio João”, cedeu agora antena à Media Capital, que passa a ocupar a maior parte da emissão com a M80 e sem espaço para a “Família do Tio João”.

“Nós somos uma família autêntica”, garantiu à Lusa Alcino Silva, que se deslocou de Vinhas a Bragança para se solidarizar com Nicolau Sernadela, o “Tio João”. Nicolau não teve tempo nem de se despedir, nem de avisar a “família". Quinta-feira à tarde foi despedido e impedido de regressar à rádio.

“Foi um grande choque, ninguém estava à espera disto. A rádio era a nossa companhia de manhã. Nós tínhamos aquele vício, àquela hora certinha acordávamos para ouvir o programa”, desabafou Alcino Silva, com 69 anos e ouvinte “desde o princípio”. O ouvinte sublinhou o papel deste programa para “essas pessoas que estão isoladas, que vivem sozinhas”. Era uma companhia, o “ombro” para desabafar e tornou-se numa instituição social.

“Ainda agora vão entregar um computador a uma criança deficiente, fruto da solidariedade desta família”, que ao longo dos quase 24 anos, juntou dezenas de cadeiras de rodas, ajudou a reabilitar cinco casas consumidas pelo fogo, a comprar óculos e esteve presente em horas de angústia como a vivida por uma mãe sem dinheiro para o funeral e trasladação do corpo do filho do Porto para Bragança.

“Os idosos desabafavam comigo, compartilhavam. Aquilo que tenho feito ao longo destes anos também foi tentar derrotar a solidão deles”, vincou Nicolau Sernadela.

“A família não vai acabar, seja em que rádio for. Se o Tio João mudar para outra rádio, nós vamos atrás dele”, garantiu outro “tio”, Rogério de Sá.

Mesmo sem antena, locutor e "tios" decidiram manter o piquenicão agendado para o dia 16, em Seixo de Ansiães (Carrazeda de Ansiães), um encontro anual que serve para convívio, assim como as 230 viagens que organizaram ao longo destes anos e que para muitos “tios” foi a primeira vez que saíram de casa.

Ouvido em França

A emigração transmontana “também está de luto por estes dias”, afirmou Nicolau, que contou que “já muita gente em França acordava com o Tio João”.

O director da rádio RBA, Leonel Guedes, afirmou à Lusa que o programa do Tio João "não se enquadrava” no novo projecto. O responsável explicou que a mudança ocorre no âmbito da “parceria com a Media Capital rádios”, em que a M80 passa a ocupar a antena, reservada para emissão regional entre as “11h00 e as 17h00, feita a partir de Lisboa”.

Segundo disse, esta foi a forma que encontrou para “viabilizar o projecto com a minimização de custos face à conjuntura actual e à debilidade do mercado”.

A rádio regional mantém apenas um profissional, depois do despedimento de dois efectivos e da dispensa de vários colaboradores.