Manifestantes regressam à praça Taksim em Istambul e a Ancara

Polícia tentou dispersar manifestantes com gás lacrimogéneo. Primeiro-ministro mantém posição de desafio.

A praça Taksim voltou este domingo a encher-se de gente, após os violentos confrontos de sábado
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A praça Taksim voltou este domingo a encher-se de gente, após os violentos confrontos de sábado BULENT KILIC/REUTERS
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Manifestante em Ancara com uma improvisada máscara anti-gás Umit Bektas/REUTERS
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Um casal recém-casado foi fazer a festa para a praça Taksim, em Istambul, este domingo GURCAN OZTURK/AFP
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Barricada improvisada em Ancara Umit Bektas/REUTERS
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"O vosso problema é com a plantação de árvores? Não estamos a cortar árvores. O que se está a fazer é a arranjar a praça Taksim, no âmbito do projecto de tornar toda a zona numa área para peões", afirmou Erdogan na inauguração de uma outra obra neste domingo. "Estão a incendiar e a danificar as lojas. Isto é democacia?", exaltou-se, no relato do evento que faz a edição online do jornal turco Hurriyet.

"Dizem que Erdogan é um ditador. Se chamam a quem serve o público um ditador, não posso dizer mais nada", declarou o governante, que lidera os destinos do país desde 2002.

No entanto, disse que ainda não foi tomada uma decisão definitiva quanto à construção de um centro comercial na caserna otomana que deverá ser reconstruída no local onde fica o parque Gezi, vizinho da praça Taksim – o motivo que desencadeou os protestos, que no entanto se tornaram num grito muito mais amplo contra a política conservadora e de promoção de grandes projectos de obras públicas descaracterizadores.

"Talvez se faça um museu da cidade ou um edifício onde se possam realizar várias actividades", concedeu Erdogan.

Mas quem são estas pessoas que saíram à rua para contestar Erdogan e o Governo? Gente de todas as filiações políticas, dizem especialistas. “Estas manifestações não são obra de um punhado de militantes de uma organização, mas a expressão de uma frustração generalizada de pessoas de todas as tendências políticas”, afirmou à AFP o politólogo Ilter Turan, da Universidade Bilgi de Istambul.

“É um movimento popular sem precedentes, repentino, que resulta da frustração das franjas laicas da sociedade que se sentem sem influência sobre a vida pública há dez anos”, desde que o governo do AKP está no poder, contribuiu Sinan Ulgen, da Fundação Carnegie Europe. Há crescimento económico, maior acesso à saúde e à educação, mas há uma crescente influência da religião na vida pública — quando a separação entre o Estado e a religião foi um dos fundamentos da criação da República turca.

"Todos os turcos se sentem sobre pressão há dez ou 11 anos", disse à agência noticiosa francesa Hallit Aral, um dos manifestantes que neste domingo regressou à praça Taksim. "Hoje, só queremos que o primeiro-ministro se vá embora."

Mais de 1700 pessoas foram detidas por causa das manifestações, adianta a AFP, embora a maioria tenha sido libertada, assegurou o ministro do Interior, Muammer Güler. Desde 28 de Maio, foram registadas 235 manifestações em todo o país, adiantou o governante, citado pela agência noticiosa turca Anatolia.

Segundo o Sindicato dos Médicos, 414 civis ficaram feridos nos confrontos, dos quais seis com graves traumatismos na cabeça. A agência Anatolia noticia que há 56 polícias feridos. Há também uma notícia não confirmada de dois manifestantes mortos.