Meta os papéis no bolso, estamos a falar de uma criança

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O colégio Eduardo Claparède, de que João dos Santos foi um dos sócios fundadores E

João dos Santos mudou a abor-dagem da infância e da educação em Portugal mas foi ele próprio uma das vítimas da escola - era disléxico quando ainda se desconhecia o diagnóstico. A experiência levou-o a propor novas formas de ajudar as crianças com dificuldades. Não foi assim há tanto tempo, mas parece ter sido esquecido.

A aula sobre o legado do médico que revolucionou a abordagem da Saúde Mental Infantil em Portugal já vai longa, quando a pedo-psiquiatra Magda Mendo desabafa em resposta à questão que levou a este encontro - "O que é actual em João dos Santos? Sinto que estamos a remar contra a maré." A começar pela tendência para a medicamentação excessiva na pedopsiquiatria, a especialidade de que João dos Santos foi fundador em Portugal, quase tudo parece nestes tempos ser contrário ao que ele foi e ensinou. Por isso, Magda Mendo defende que a verdadeira interrogação não é tanto o que é actual em João dos Santos, mas antes "o que deveria continuar a sê-lo".

Será que há lugar para um humanista nos tempos que correm? João dos Santos, que foi um deles, nasceu há cem anos, morreu em 1987 e parece agora quase ter sido obliterado também das escolas, um dos seus lugares de intervenção e segundo ele o sítio que, em conjunto com a família, está na origem de muitas das perturbações infantis. "O drama das crianças que têm dificuldades de aprendizagem da leitura e da escrita é o da aplicação simplista e leviana do rótulo de disléxicos a casos simples de inadaptação a certos métodos de ensino", escreveu em 1975, antes de este tipo de diagnóstico, e também o da hiperactividade, ter invadido as escolas portuguesas.

"Trabalhei com ele, acompanhei-o nas escolas e uma das marcas de João dos Santos é que nunca apresentava um diagnóstico nestas reuniões. Hoje, pelo contrário, o que vemos são professores a dizer de alunos seus: "Ele é hiperactivo. Não lhe subiu a dose? Olhe que tem de subir"", comenta Magda Mendo, durante a aula a cargo de Simões Ferreira, director do serviço de Psiquiatria da Infância e da Adolescência do Hospital D. Estefânia, em Lisboa, herdeiro do Centro de Saúde Mental e Infantil criado por João dos Santos em 1965.

Na sala estão 13 jovens médicos. São internos de pedopsiquiatria. Simões Ferreira recua a um dos artigos de João dos Santos que considera centrais. Foi publicado em 1963 na revista francesa La psychiatrie de l"Enfant e continua por traduzir para português, o que, comenta, "pode dificultar o acesso a muitos dos nossos jovens anglófilos". Com o título La valeur du symptome dans le domaine préventif (O valor do sintoma na prevenção), João dos Santos defende neste artigo que os "problemas das crianças podem ser encarados como um sintoma dos pais [outros podem ser sintoma das escolas]" e que é por estes que passa sobretudo a intervenção terapêutica. Como ouvir então as queixas dos pais sobre os problemas dos filhos? "Como as de um doente que nos está a falar de um órgão ou função afectados", escreveu João dos Santos no artigo evocado por Simões Ferreira.

É uma recomendação que leva uma das futuras pedopsiquiatras presentes na sala a propor uma das várias hipóteses de explicação, que serão apresentadas no encontro, para o domínio actual do diagnóstico e da medicamentação. O tema, já se sabe, não é pacífico. "Será muito mais fácil para os pais ou para as escolas ter um diagnóstico da criança que lhes é exterior do que pensarem que também eles têm que ver com o problema. Que têm um órgão "doente". Medicam-se comportamentos saudáveis, diagnostica-se como hiperactivo quem não se enquadra num sistema de ensino que está feito para um tipo de comportamentos e de crianças", aponta.

Magda Mendo e Simões Ferreira referem que por detrás desta deriva estão "interesses económicos muito poderosos da indústria farmacêutica". "É fácil apontar o dedo à indústria farmacêutica, mas os médicos trabalham com os meios que têm e hoje estão sem equipas [a importância do trabalho em rede é outra das pedras-de-toque de João dos Santos]. É um peso que temos para o futuro. Por outro lado, as crianças vêm à consulta uma vez por mês, ou ainda mais espaçadamente, porque as famílias têm cada vez mais dificuldades, e acaba por se medicar porque as outras alternativas são menos eficazes", contrapõe outra interna.

Simões Ferreira corrobora: as equipas de pedopsiquiatria nos hospitais estão a ficar reduzidas aos médicos; os outros técnicos - terapeutas da fala, psicomotores, psicólogos, etc. -, quando se reformam, não são substituídos e, sem a sua intervenção complementar, a tendência para tentar resolver medicando aumenta, admite.

Quanto a eles, pedopsiquiatras, defende que o principal que podem oferecer a quem os procura "é uma determinada atitude relacional". O enfoque na necessidade de se estabelecer uma relação médico-pais e médico-criança, uma das premissas de João dos Santos que permanece "perfeitamente actual", frisa. Nas equipas de que é responsável, continua a apostar-se na promoção de "técnicas de intervenção familiar com vista a alterar algumas situações e permitir que o desenvolvimento das crianças se faça em melhores condições". Resultados? "Umas vezes é muito difícil, outras é impossível", diz.

A aula sobre João dos Santos é uma das várias iniciativas programadas para assinalar o centenário do seu nascimento que têm vindo a ser organizadas pela família. João dos Santos casou com uma colega do curso de Medicina e teve quatro filhos, dois dos quais morreram novos. Um era pedopsiquiatra, como o pai. O outro pintor.

Antes de escolher Medicina, João dos Santos tinha sido professor de Educação Física. Quando se estreou na psiquiatria, nos anos 40 do século passado, ainda não havia em Portugal uma "tentativa de contacto com o funcionamento mental das crianças" e o internamento num hospital psiquiátrico "arriscava-se a ser uma coisa definitiva", que só terminava com a morte, lembra Simões Ferreira. Para João dos Santos, a possibilidade de encarar a psiquiatria da infância de outro modo aconteceu em Paris, para onde partiu em 1946 depois de ter sido impedido de exercer na função pública devido às suas ligações à oposição. Entre os médicos com quem trabalhou, figura Henri Wallon, um dos primeiros a defender que a escola deve proporcionar às crianças não só uma formação intelectual, mas também afectiva e social. Era também um opositor declarado dos chumbos, uma prática em que França e Portugal são campeões, considerando que a reprovação era uma negação do ensino.

Uma das primeiras colaboradoras de João dos Santos, a médica Manuela Mendonça, lembra num artigo que, de certo modo, ele foi uma das vítimas da escola: "Era disléxico, mas, ao tempo, ninguém sabia o que isso era; o facto valeu-lhe castigos e epítetos de mandrião, cábula... e outros. E deixou-lhe uma recordação indelével da incompreensão e da rigidez dos métodos de ensino de que fora alvo."

Numa vivenda em Lisboa continua a funcionar uma das instituições fundadas por João dos Santos, onde implementou a "pedagogia terapêutica" - uma intervenção dirigida a crianças com dificuldades de aprendizagem motivadas por problemas emocionais. O médico descreveu-a como "uma arte de curar bloqueios aos processos de aprendizagem", que devia ser curta no tempo (máximo um ano escolar), desenvolvida em aulas ou instituições especiais, com terapeutas capazes de empatia e utilizando formas de comunicação diferentes das habituais no ensino expositivo em sala de aula. Um dos pressupostos de base: "A vida mental não funciona só com ideias razoáveis, mas, também, com sentimentos e fantasias."

O colégio Eduardo Claparède, de que João dos Santos foi um dos sócios fundadores em 1953 e que tem o nome de um neurologista e psicólogo especializado no desenvolvimento da criança, deixou entretanto de ser um local de "reparação" transitório. Só muito dificilmente algum dos seus cerca de 80 alunos terá possibilidade de ingressar no ensino regular, embora vários tenham vindo de lá.

São crianças e jovens com défices cognitivos e outras patologias que impossibilitam que as dificuldades de aprendizagem sejam apenas temporárias. Na maioria, são também oriundos de meios familiares problemáticos: cerca de metade foi, aliás, retirada à família por ordem do tribunal e vive em instituições de acolhimento. Dezasseis deles estão nos dois lares (um para raparigas, outro para rapazes) fundados pelo próprio colégio. "São miúdos com um grande sofrimento", resume Maria João Gouveia, uma das responsáveis.

Há salas onde se trabalha componentes adaptadas da escolaridade obrigatória, que aqui vai até ao 2.º ciclo. Outras em que se implementam métodos alternativos de comunicação possibilitando, por exemplo, que os alunos se façam entender e entendam outros através de imagens, música ou dança. "É muito importante que percebam que não desistimos deles", assegura a psicóloga do colégio, Isabel Beirão.

Para os pais de D., de 14 anos, um telefonema da escola significava até ao ano passado mais um sobressalto. Agora já não é assim. David está numa das salas equivalentes ao 2.º ciclo e não se coíbe de testemunhar a sua paixão: música, a começar pelos Xutos & Pontapés.

Isabel Beirão conta que os alunos como D., que vieram do ensino regular, chegam ali de rastos. Acumularam retenções, castigos, "habituaram-se a não conseguir". "Aqui fazemos o contrário: damos-lhe valor, elogiamos." O objectivo é proporcionar a conquista da autonomia possível a cada um. Para chegar até lá, é preciso que aquelas crianças se sintam seguras, num ambiente familiar e afectuoso. Dizem que foi o que aprenderam com João dos Santos, que "não se aprende nem se ensina sem afectividade". O que ali passa também, por exemplo, por garantir que nos lares seja o mesmo adulto que está presente quando as crianças se levantam, de manhã, e se deitam, à noite.

R., sete anos, não consegue falar, mas anda com uma máquina de sons de um lado para o outro. Carrega num botão, ouve, dá a ouvir. Chegou em Setembro ao colégio, vindo de outra instituição de acolhimento. Agora é um dos internos do Claparède. À semelhança de M., que chegou quando tinha sete anos e lá continua aos 29. Ele e a irmã, de 28, são excepções. Geralmente, os alunos são encaminhados a partir dos 18 anos para sistemas de formação profissional ou, nos casos mais graves, para outras instituições especializadas.

O colégio tem cerca de 30 funcionários. Recebe subsídios do Ministério da Educação e da Segurança Social e a sua frequência é gratuita para os alunos. Na sala de pintura, por onde os alunos passam em pequenos grupos, Flávio, de 19 anos, desenha um homem que está numa horta. "É o que ele quer ser no futuro, agricultor", explica uma das professoras. A "educação pela arte", outra das abordagens propostas por João dos Santos, é utilizada no Claparède como um desbloqueador. Num dos muitos desenhos que recobrem as paredes do colégio, uma figura adulta feminina leva uma criança pela mão. Estão a sorrir. Foi feito por uma rapariga que já saiu do colégio e a figura adulta não é a mãe, mas sim uma monitora que ali trabalhou durante 40 anos.

Maria João Gouveia, filha de um dos fundadores do colégio e que conheceu João dos Santos desde criança, tem em cima da secretária uma fotocópia com um pequeno texto do médico que recolheu para entregar à Revista 2: "As crianças malcomportadas são as que agem em vez de pensar. Mas o que acontece é que muitas vezes eles não sabem o que é pensar; porque pensar é não só resolver operações, mas também imaginar... e que a imaginação é invadida por fantasmas (...)" "E se os professores pusessem as crianças malcomportadas a olhar para dentro?", exorta no final.

Na aula do internato de pedopsiquiatria do hospital D. Estefânia, Simões Ferreira diz: "Tinha uma capacidade notável para fazer crescer as coisas." Esteve na fundação da Liga Portuguesa de Deficientes Motores, da Associação Portuguesa de Surdos, da Liga Portuguesa contra a Epilepsia, do Centro Infantil Helen Keller, instituições que ajudou a criar em colaboração com pais de crianças que até então não dispunham de respostas às suas dificuldades.

A última instituição que fundou resultou da ocupação de uma casa em Lisboa, em 1975. Na Casa da Praia, como se passou a chamar o edifício por se situar na Travessa da Praia, têm sido acompanhadas desde então crianças com insucesso escolar repetido e problemas de ordem emocional, que muitas vezes estão na base do seu mau aproveitamento na escola.

Na apresentação da sua "pedagogia terapêutica", feita em 1975, João dos Santos lembra alguns dos "casos" com que lidou. O de Carlos, por exemplo. Tinha 12 anos: "Vem trazido pelo pai, muito afectuoso mas impulsivo, tipo atlético e muito activo e interveniente nos estudos da criança. Acusado de preguiçoso, estava no fim do 2.º período do 2.º ano do ciclo preparatório [equivalente ao 6.º ano], em risco de perder o ano por baixas classificações. Depressão acentuada com forte inibição para tudo o que fosse matéria escolar. Foi tratado pela professora Manuela Cruz através de diálogo não escolástico e de textos livres. Ao fim de pouco mais de um mês, produziu um texto ilustrado com muito interesse literário", O Barco das Flores (...). Passou o ano."

Isabel Vaz Pereira, uma das directoras do colégio Claparède, não esquece uma das reacções de marca de João dos Santos - "Se lhe apareciam à frente com documentos nas mãos para falar de um caso, dizia logo: "Meta os papéis no bolso, estamos a falar de uma criança. Diga o que sente"."