Na laguna dos vaporetti a estranheza de um cacilheiro

Foto
Instalação Valkyrie Azulejo no interior do cacilheiro Trafaria PraiaO cacilheiro Trafaria Praia em Veneza fotos: Luís Vasconcelos/Unidade Infinita Projectos

O cacilheiro de Joana Vasconcelos já está em Veneza para fazer parte da Bienal. O Trafaria Praia é tão eficaz que poderá diluir a componente que mais facilmente identificamos com uma "obra de arte".

Na água, atracado mesmo em frente aos Giardini - o recinto onde se encontram os pavilhões mais antigos da Bienal de Veneza - está o Trafaria Praia, um cacilheiro de Lisboa transformado em Pavilhão de Portugal. Um barco estranho, diferente tanto dos enormes iates que mais à frente quase tapam a vista da Praça de S. Marcos como dos vaporetti que param ali perto para constantemente deixar pessoas.

Com parte do casco coberto de azulejos brancos pintados em vários tons de azul, o cacilheiro transformado resulta discreto mas apelativo. Encostada à proa, uma criança com cerca de oito anos comenta aquilo que passa pela cabeça de muitos: "Gosto de ver a bandeira portuguesa em Veneza!"

De facto, a obra de Joana Vasconcelos cruza-se frequentemente com o trabalho, colectivo e mais lato, de construção da ideia de nação. Seja através do uso da cultura material de cariz popular, seja através do uso das narrativas históricas, a identidade nacional é por ela convocada, desconstruída e também construída. De forma consciente, a artista integra essa empresa colectiva e o comentário da criança portuguesa de visita a Veneza mostra a eficácia desta sua intervenção: ali, içada em frente ao lugar que durante alguns dias centraliza o mundo da arte, a bandeira coloca a nação no planeta global. O projecto, um todo produzido pelo Atelier Joana Vasconcelos, traduz-se numa performance cujo terreno de intervenção é a identidade nacional.

O cacilheiro, escolhido porque permite evocar as relações e os paralelismos históricos entre Veneza e Lisboa, foi desmontado e refeito de forma a poder transformar-se num lugar que acolhe visitantes em vários acontecimentos: ouvem conferências, assistem a concertos, consultam bibliografia, bebem, comem, compram objectos, percorrem uma instalação e passeiam ainda pela laguna.

O trabalho de arquitectura é muito eficaz. Desde uma pequena entrada, que acolhe os visitantes ainda no exterior, até ao chão do "porão", todo o cacilheiro foi coberto e mobilado com cortiça. Para lá da cortiça, material representativo de um craft português com reactivações recentes, o exterior do barco foi coberto com um enorme painel de azulejo - outra arte decorativa nacional - que representa a Lisboa contemporânea e que simula o painel que nos dá hoje a imagem do que foi a cidade antes do terramoto de 1755.

No interior, podem ainda ver-se e comprar-se múltiplos produtos representativos de uma cultura material de cariz popular que está hoje sujeita a processos vários de patrimonialização, frequentemente de carácter nacionalista (das latas de sardinha aos azeites e vinhos, das cerâmicas aos sabonetes e pastas de dentes), bem como objectos de design contemporâneo que reabilitam matérias que foram de uso artesanal. No "porão", a instalação de Joana Vasconcelos socorre-se também ela de técnicas artesanais que, embora não tenham nada de exclusivamente nacional, assumem pelas memórias que evocam uma ressonância tradicionalista. O espaço é forrado por formas que evocam o fundo dos mares feito de crochés, fitilhos, pompons, restos de tecidos... Tudo aquilo que as bisavós da geração Ikea usavam para encherem as suas casas de conforto.

Relativamente a tudo isto, Joana Vasconcelos tem um discurso que transporta, de forma directa, a problemática questão dos usos contemporâneos da cultura popular para o terreno da produção artística. "A parte tradicional desaparece e aparece uma nova dimensão. É essa que é avaliada. Não é o lado tradicional da obra, que só nós é que conhecemos", diz a artista num dos materiais distribuídos à imprensa.

Nesse salto conceptual, Joana Vasconcelos afasta-se de um possível discurso crítico relativo aos processos de tradicionalização e de nacionalização presentes, que, apesar de serem transpostos para o interior do processo de construção de uma peça de arte, acabam por não ser desconstruídos. Ao mimetizar a lógica representativa das grandes exposições internacionais, o cacilheiro, que na realidade é uma peça central de uma performance concebida por uma artista, parece, sem o ser, um pavilhão representativo de uma cultura nacional. Nas palavras da própria autora, na conferência de imprensa de ontem em que estavam presentes o secretário de Estado da Cultura, o comissário Miguel Amado e o presidente da Câmara de Lisboa, o pavilhão é "uma embaixada portuguesa". [E] quisemos trazer o que há de melhor em Portugal."

O facto é que o atelier Joana Vasconcelos conseguiu, num notável esforço de produção em que envolveu privados - a autora disse ao PÚBLICO que os custos da obra ultrapassam, no total, um milhão de euros -, trazer para a laguna dos vaporetti a estranheza de um outro barco, um cacilheiro de Lisboa. A performance funciona como um todo e é tão eficaz que pode até nela diluir a instalação de Joana Vasconcelos, a componente que mais facilmente se poderia identificar como uma "obra de arte", no sentido estrito do termo.