25% das crianças com um ano consomem refrigerantes

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O aleitamento materno exclusivo é assegurado em média apenas até aos três meses e meio de vida do bebé ENRIC VIVES RUBIO

Estudo sobre o padrão alimentar mostra que comem muita fruta e vegetais e provam doces e refrigerantes muito cedo.

Para a maioria das pessoas, será difícil imaginar uma criança com apenas um ano de vida a beber um refrigerante. Porém, de acordo com os resultados preliminares do projecto EPACI Portugal 2012 - Estudo do Padrão e de Crescimento na Infância, que serão divulgados hoje e que para já se referem apenas às avaliações feitas na Região Norte, aos 12 meses 25% das crianças já provaram um refrigerante. Já as sobremesas doces aparecem no prato das crianças pelos 13 meses (média), sendo que 50% experimentaram estes sabores entre os 12 e os 18 meses. Felizmente, os pratos dos mais pequenos também têm uma boa quantidade de frutas e vegetais. Porém, este bom indicador não será suficiente para alterar a conclusão sobre o estado de nutrição destas crianças que passam de uma sobrecarga ponderal (excesso de peso) de 4,3% ao nascimento para 32,7% entre os 12 e os 36 meses.

O projecto EPACI Portugal 2012 vai avaliar, pela primeira vez, a forma como crescem e como comem as crianças até aos três anos em Portugal. "Actualmente, não temos nenhuma informação sobre esta fase importante e decisiva a nível nacional ou europeu, era uma área em branco, nebulosa", lamenta Carla Rêgo, a pediatra e mentora do projecto EPACI. O inédito estudo - realizado pela Escola Superior de Biotecnologia (ESB) da Católica do Porto com a Faculdade de Medicina (FMUP) e o Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto e o apoio da Direcção-Geral de Saúde (DGS) - assenta na avaliação de mais de duas mil crianças entre os 12 e os 36 meses de idade, de todo o país. Para já, os resultados preliminares que são divulgados hoje correspondem apenas às 721 crianças avaliadas na Região Norte, estando prevista para Setembro a apresentação dos resultados nacionais. O processo de avaliação envolve recolha de dados por entrevista aos cuidadores, mas também medições e pesagens às crianças.

Os dados obtidos até agora mostram que até aos 12 meses de idade não parece haver motivo para grandes preocupações sobre os hábitos alimentares das crianças portuguesas. Destaca-se, no entanto, o facto de o aleitamento materno exclusivo ser assegurado, em média, apenas até aos três meses e meio de vida do lactente, ficando aquém da meta dos seis meses estabelecida pela Organização Mundial de Saúde. E há ainda outro indicador menos positivo que revela que em 20% das crianças o leite de vaca é introduzido antes dos 12 meses. Porém, nada de muito grave até aqui. "Até esta fase dos 12 meses há uma vigilância mais apertada, com consultas regulares, e uma orientação correcta dos profissionais de saúde aos cuidadores que, em geral, cumprem o que lhes é dito, até porque nesta altura existe uma fragilidade associada à criança e um medo de errar", justifica Carla Rêgo.

Pais "descarrilam"

Mas, a partir deste 12 meses, o bom comportamento dos cuidadores "descarrila", reconhece a pediatra e docente na FMUP e na ESB. "Percebemos que quando se fala aos pais em iniciar a dieta familiar, o que começa é a "desbunda" familiar", refere a especialista, sublinhando que nesse momento as crianças começam a partilhar "os erros" da família.

Os resultados do estudo espelham isso mesmo. A idade média para a introdução dos refrigerantes com e sem gás nas crianças é os 18 meses, sendo que 25% começam aos 12 meses (no caso dos refrigerantes sem gás) e 25% provam sumos com gás aos 15 meses. No caso das sobremesas doces, as primeiras provas acontecem em média pelos 13 meses (50% introduziram estes sabores entre os 12 e 18 meses). "Incrível", comenta a pediatra, que avisa: "A forma como se come nos primeiros anos de vida é determinante para o risco de obesidade, doenças cardiovasculares, diabetes, etc." Carla Rêgo também esclarece que o "treino do paladar" é algo que não se faz de um dia para o outro. Por vezes, é preciso dar o mesmo alimento dez vezes a uma criança para ela "aprender" a gostar. "Os doces são fáceis, a criança está habituada ao doce leite materno. O mais difícil são os ácidos, azedos e amargos", diz a pediatra, que nota ainda que a decisiva etapa da "programação metabólica" destas crianças começa quando ainda estão na barriga da mãe.

Mas há mais. Entre os 12 e os 36 meses, 12,2% das crianças nunca comeram vegetais no prato, 31,4% nunca provou cereais. O EPACI não é um estudo sobre a obesidade, tal como sublinha Carla Rêgo, porém nesta avaliação do padrão alimentar e de crescimento é tido em conta o estado de nutrição da criança. E nesta tabela percebe-se que os casos de "adequação nutricional" de uma criança passam de 92,3% ao nascimento para 66,9% na data de avaliação (entre os 12 e 36 meses), que na "sobrecarga ponderal" a evolução é desde os 4,3% aos 32,7% no mesmo período e que na "obesidade" se parte do zero para os 7,1%. Esta evolução é "altamente preocupante" e é ainda mais grave quando olhamos para os resultados sobre a percepção que os pais têm dos seus filhos: apenas 6% dos cuidadores consideram que a criança tem peso a mais, 14% que têm peso a menos e 80% acham que os seus filhos estão bem. "Um distúrbio brutal da imagem corporal", conclui Carla Rêgo.

Misturar o bom e o mau

Sobre a diversificação alimentar, ficamos a saber que acontece em média aos cinco meses, embora existam casos de crianças que experimentaram outros alimentos além do leite com apenas três meses de vida. Os dados mostram ainda que 45% das crianças começam pela sopa e 45% pela papa. A carne chega em média pelos seis meses, o peixe pelos oito, os vegetais na sopa pelos seis e no prato pelos 12. Boas notícias? 93% consomem diariamente leite, 81% comem sopa de vegetais pelo menos duas vezes por dia, 92,5% comem fruta todos os dias.

"Nos hábitos alimentares, Portugal costuma fazer isto, misturar o muito bom com o muito mau", constata Pedro Graça, coordenador da Plataforma contra a obesidade da DGS. Dos resultados, o especialista destaca uma "reviravolta" decisiva. "Este estudo mostra que o papel dos pais é decisivo. Pela primeira vez, diz-se às famílias que a culpa também é delas. Nestas idades a responsabilidade não é das escolas, das cantinas, da televisão ou do marketing. São os cuidadores - pais, avós ou amas - que são responsáveis. É um alerta importante", sublinha. Considerando que os dados sobre os doces e refrigerantes - "quase venenos nestas idades" - são "assustadores", Pedro Graça lamenta que "as desgraças comecem "tão cedo". "Os hábitos alimentares, os gostos que se criam nesta altura mantêm-se para toda a vida", alerta.

Carla Rêgo não usa a palavra culpa. "Há muita desinformação. É preciso informar mais e melhor os cuidadores, que são, de facto, os responsáveis por estes resultados. Poucas pessoas sabem, por exemplo, que um refrigerante por dia pode significar quase dois quilos de açúcar por mês".