Ódio do Aurora Dourada pode cegar até a coligação no Governo da Grécia

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Membros do Aurora Dourada na celebração do 450.º aniversário da queda de Constantinopla, anteontem em Atenas afp

Nova Democracia não quer aprovar uma proposta de lei para reforçar o combate à violência neonazi, defendida pela Esquerda Democrática e Pasok. Socialistas acusam partido maioritário de eleitoralismo

Ao fim de um ano no poder, a coligação que os políticos gregos conseguiram remendar para governar o país parece estar mais esfarrapada do que nunca. A aliança entre os conservadores da Nova Democracia, os socialistas do Pasok e a Esquerda Democrática vai resistindo à desgraça económica e social em que o país mergulhou nos últimos anos, mas começou a tremer nos últimos dias por causa das divergências sobre uma proposta de lei que visa reforçar o combate ao racismo e à xenofobia, o que na Grécia actual significa reduzir o espaço de manobra do partido neonazi Aurora Dourada.

A proposta foi elaborada pelo ministro da Justiça, Andonis Roupakiotis, da Esquerda Democrática, e tem o apoio do Pasok, mas o partido maioritário não está disposto a discutir o assunto no Parlamento. A Nova Democracia, do primeiro-ministro, Antonis Samaras, considera que as leis actualmente em vigor são suficientes para conter o discurso de ódio e os actos de violência contra imigrantes protagonizados por apoiantes do Aurora Dourada, o movimento que conquistou 18 assentos nas eleições de Junho de 2012 e cuja popularidade não parou de crescer desde então - segundo as últimas sondagens, os neonazis gregos recolhem agora cerca de 10% das intenções de voto, mais três pontos percentuais do que há um ano.

Elaborada com o apoio inicial da Nova Democracia, que depois recuou, a proposta de lei prevê um endurecimento das penas de prisão para o incitamento à violência com base na etnia, na religião e na orientação sexual, mas também a perda de financiamento estatal para os partidos que neguem o Holocausto ou que ostentem símbolos nazis.

As divisões ficaram patentes numa reunião entre os três partidos, que decorreu esta semana. No final, o líder socialista, Evangelos Venizelos, acusou o maior parceiro da coligação de ter mudado de opinião para conquistar "um público nas franjas do Aurora Dourada" e garantiu que o Pasok irá apresentar a sua própria versão da lei, se o Governo não avançar em conjunto. "Temos uma formação política que é abertamente nazi. Temos o dever de aprovar uma legislação abrangente contra o comportamento pró-nazi, racista e violento", declarou Venizelos.

Mas a pressão sobre a Nova Democracia não vem apenas do interior da coligação. No mesmo dia em que o partido maioritário transmitiu a sua posição sobre a proposta de lei, a comissária europeia para os Assuntos Internos, a sueca Cecilia Malmstrom, disse esperar que o documento seja discutido pelo Parlamento grego, "tal como foi prometido". Também o comissário para os Direitos Humanos do Conselho da Europa, o letão Nils Muiznieks, deu voz à preocupação das instituições europeias. "No meu último relatório sobre a Grécia, sublinhei a necessidade de se refrear os crimes de ódio e de combater a impunidade", escreveu o responsável num artigo publicado no dia 13 de Maio.

Com ou sem nova legislação, o Aurora Dourada já fez saber que veio para ficar. Numa manifestação contra a proposta de lei, o seu líder, Nikolaos Michaloliakos, foi bem claro: "Querem proibir os gregos de se exprimirem. Estão a preparar uma lei. Que a aprovem. Nós podemos existir fora da lei. Digo-lhes isto directamente e em público."

Em menos de um ano, entre Outubro de 2011 e Dezembro de 2012, foram registados 220 ataques racistas na Grécia, estimando-se que muitos outros não cheguem a dar lugar a queixas. Para além dos actos de violência, os apoiantes do Aurora Dourada já realizaram acções discriminatórias, como a distribuição de comida e roupa apenas a pessoas nascidas na Grécia.

"A época em que a Europa era boa já passou", sentencia Austin Nnanna, um nigeriano que deixou o seu país de origem em 2001 em busca de uma vida melhor entre os "amáveis gregos". "Nessa altura, eles gostavam dos estrangeiros. Agora, não. As coisas mudaram", lamenta, numa reportagem do Channel 4 sobre o Aurora Dourada, transmitida no início da semana. O trabalho do canal britânico mostra também a face da revolta contra os neonazis, que começa a organizar-se nas ruas de Atenas. Michael Chege, um natural do Quénia que chegou à Grécia com apenas oito meses de idade, faz parte dos recém-formados Panteras Negras, que patrulham a capital em busca de apoiantes do Aurora Dourada. "Não tenho medo deste grupo neonazi estúpido e idiota. Na II Guerra Mundial, foram esmagados. Na III Guerra Mundial, vamos exterminá-los da face da Terra."