Um animal ferido à solta chamado Nick Cave

Não tem nada que saber, Nick Cave deu um grande concerto na noite inaugural do Optimus Primavera Sound. Mas James Blake, Deerhunter ou Dead Can Dance também conquistaram, num primeiro dia que consolida o que de bom aconteceu no ano passado.

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Nick Cave sabe exactamente qual a altura em que vai agarrar irremediavelmente o público pelos colarinhos Paulo Pimenta
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James Blake nunca será um felino em palco, mas já encontrou o seu espaço Paulo Pimenta
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Paulo Pimenta
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Dead Can Dance causaram sensações mistas Paulo Pimenta

O tempo é o que é. Podemos ter consciência dele pelo esforço das The Breeders, no sentido de reproduzirem com dignidade o álbum Last Splash, ou pelo ritual que evoca outras eras dos Dead Can Dance. Mas depois entra em palco Nick Cave e os seus Bad Seeds, revolve as suas entranhas, e devolve-nos o nosso mundo: fealdade, demónios, afecto, num vórtice onde não existe nem passado nem futuro. Apenas presente.

Ali está aquela figura esguia, de preto, olhos faiscantes, parecendo gritar "odeio-vos", sem que percebamos se não seria "amo-vos" que ele quereria realmente vociferar.
 
É isso. Nick Cave foi o destaque da primeira noite de um festival que se consolida à segunda edição. O público afluiu, o espaço do Parque da Cidade revela-se funcional e existe um excelente ambiente no recinto, entre portugueses, estrangeiros, adolescentes e um público mais adulto. Quando assim é, o resto é apenas com a música. Na edição deste ano muito se tem falado de idades.
 
Os 55 anos de Nick Cave podem ter-lhe tirado energia. Mas está agora mais canalizada. Sabe exactamente qual a altura em que vai agarrar irremediavelmente o público pelos colarinhos. Como todos os grandes performers domina totalmente o espaço. Mas primeiro, conquista-o. Ele e os magníficos músicos que tem atrás de si, em particular Warren Ellis (Dirty Three), esse outro grande performer que golpeia o violino sem remissão.
 
Não tem nada que saber. Nick Cave deu um grande concerto na noite inaugural do Optimus Primavera Sound. E o que é mais notável é que não constituiu nenhuma surpresa. Tem sido assim nos últimos anos sempre que o vimos, seja como Nick Cave ou com o colectivo Grinderman. No Porto a diferença foi apenas o alinhamento, tocando temas do novo álbum Push The Sky Away, mas acima de tudo recuperando material antigo, brincando até com isso: “O que querem ouvir agora?”, lançou às tantas, auto-ironizando por estarem a tocar algumas das canções mais conhecidas do seu percurso.
 
À terceira canção (o clássico From her to eternity) já se tinha percebido que a noite iria ser dele. Desceu muitas vezes até ao público, provocando o contacto, olhando-nos nos olhos na interpretação de canções intemporais como Jack the ripper, The weeping song, The mercy seat ou Red right hand. Como todas as catarses, não há apenas fúria, e todos somos transportados do som cerrado das guitarras ao recolhimento de We real cool ou Push the sky away, com uma voz a uivar pelo Parque da Cidade.
 
No final, havia quem dissesse que havia sido curto. Outra vez, a percepção do tempo. Para nós foi a duração certa. Nos anos 1980 e 1990 vimos Nick Cave. Mas nunca o vimos como nos últimos anos: enxuto, certeiro, no tempo certo.
 

James Blake conquistou

Essa é a verdade do palco. Em disco, hoje, continua vital, mas já não é inventivo. Esse papel está destinado, por exemplo, ao inglês James Blake. Horas antes conversávamos com ele e dizia-nos que o concerto mais entusiasmante que vira nos últimos meses havia sido precisamente Nick Cave no festival Coachella de Los Angeles. “E o que é mais incrível é que nunca o vira ao vivo na minha vida, nem sequer conhecia as canções”, confessou-nos.
 
O inglês nunca será um felino em palco, mas já encontrou o seu espaço, com uma voz calorosa, um balanço sonoro intenso e a afirmação de uma música íntima mas comunicante. Em estúdio cria momentos de abstracção electrónica ou de enlevo em forma de canções que se aproximam muitas vezes do silêncio. Não é uma música fácil. E mais difícil é se for recriada num ambiente disperso de festival a uma hora ingrata – já depois das 2h da manhã.
 
Mas mesmo assim, conquistou. Em concerto mistura a faceta mais etérea, projectando vulnerabilidade com voz e instrumentação mínima, ao mesmo tempo que coloca maior dinamismo rítmico em alguns temas, coadjuvado por baterista e guitarrista, enquanto o próprio se ocupa dos teclados. Há uns anos seria quase impossível ouvir num festival ao ar livre, canções introspectivas como Limit to your love, To the last ou Overgrown, mas graças ao efeito de sucesso de Blake, ou dos compatriotas The XX, isso acontece hoje.  

The Breeders, concerto mediano

Por razões diferentes, Nick Cave e James Blake acabaram por ser os destaques de uma noite que havia começado muitas horas antes com os espanhóis Guadalupe Plata. Da fase inaugural, vale a pena mencionar o concerto dos americanos Wild Nothing, mostrando uma pop luminosa, construída à volta das guitarras, que às vezes parece evocar grupos dos anos 1980 como os Orange Juice. À hora de jantar avançamos até aos anos 1990 com as The Breeders, que tocaram na íntegra o álbum Last Splash.
 
Aqui sim, a memória ressentiu-se. Na tentativa de reproduzirem com fidelidade uma música que vivia muito do nervo e da espontaneidade, as irmãs Deal deram um concerto mediano, ao qual faltou inspiração, apesar dos mais indefectíveis terem rejubilado com Cannonball ou Divine hammer.
 
Os Dead Can Dance, que viveram os seus tempos mais criativos na década de 1980, e que regressaram recentemente, depois de muitos anos afastados, causaram sensações mistas. Por um lado, surpreende como a sua música solene continua actual e as vozes de Brendan Perry e Lisa Gerrard se mantém cristalinas, por outro, aqui e ali, existem algumas opções discutíveis ao nível dos arranjos que tornam a sua sonoridade um pouco fechada sobre si própria.
 
Mas deram um concerto que acabou por resultar, seja quando optaram por interpretar canções mais climáticas, ou quando se entregaram a momentos mais dinâmicos e ritualisticos, com a presença de elementos percussivos. Em canções como Opium ou  Children of the sun, as vozes pairam sobre a instrumentação, criando um ambiente litúrgico. Acabaram com uma versão de Song to the siren de Tim Buckley, a canção popularizada nos anos 1980 pelo projecto This Mortal Coil da editora 4AD, do qual faziam parte.
 
Dos americanos Deerhunter pode-se sempre esperar o melhor ou o pior. No Porto apresentaram a face mais saudável, sendo capazes de apresentar canções rock equilibradas, com melodia pelo meio do ruído, sem devaneios inúteis, num alinhamento que privilegiou o último álbum Monomania.
 
Apenas uma nota negativa: para quem não tem transporte próprio não é fácil chegar ao centro da cidade. Táxis quase não há e os autocarros disponibilizados pela organização revelam-se insuficientes, principalmente quando parte significativa do público sai à mesma hora. Foi o que aconteceu ontem depois do concerto de James Blake. Muitos estrangeiros – os principais afectados – desesperavam com a espera. Um pormenor, a rever.
 
 

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