Minoria da Birmânia obrigada a restringir número de filhos

Foto
Mãe e filho rohingya num campo de deslocados DAMIR SAGOLJ/REUTERS

Lei da ditadura está a ser recuperada pela maioria budista contra os muçulmanos rohingya. Suu Kyi condenou a intenção

A líder da oposição birmanesa, Aung San Suu Kyi, condenou a decisão das autoridades do estado de Rakhine de impedirem os casais da perseguida minoria muçulmana rohingya de terem mais do que dois filhos. "Isto é discriminatório e viola os direitos humanos", afirmou Suu Kyi, que tem sido criticada por não intervir para tentar acalmar o clima de grande violência inter-religiosa de conteúdo racista.

A medida traduz uma lei imposta na ditadura militar em 1994 que não tem sido aplicada. Mas agora foi anunciado que será aplicada em duas zonas, junto à fronteira com o Bangladesh, onde os rohingya representam 95% da população: Buthidaung e Maungdaw.

O objectivo da medida é "conter a explosão populacional muçulmana", apontada no mês passado como uma causa da violência sectária entre as comunidades budista e muçulmana, no relatório de uma comissão encarregue pelo Governo de estudar os motivos dessa violência.

"Esta é a melhor maneira de controlar a população que é uma ameaça para a nossa entidade nacional", disse o ministro dos Assuntos Nacionais da região de Rangum, Zaw Aye Maung, natural de Rahkine. Ainda que os 800 mil rohingya sejam apenas 4% dos cerca de 60 milhões de birmaneses, e que a lei da cidadania de 1982 não os tenha reconhecido como uma das 135 minorias do país. São considerados imigrantes ilegais que vieram do Bangladesh no século XIX. Chamam-lhes "bengali", como que a dizer que são estrangeiros.

Mas o Bangladesh também não os quer, pelo que são um povo sem Estado, um dos mais discriminados do mundo, para as Nações Unidas. Nos últimos tempos, tem havido um êxodo para os países vizinhos: Malásia, Tailândia, Indonésia.

Os budistas, que são a maioria no país, tem a mão forte neste caso, acicatados por monges radicais. O Dalai Lama condenou a violência: "Matar em nome da religião é impensável. Mas hoje até budistas se envolvem na Birmânia. É muito triste. Rezo por eles [pelos monges], para pensarem no rosto de Buda, que tem protegido os muçulmanos", afirmou o líder religioso numa palestra nos EUA, citado pela Reuters.

Se a restrição dos nascimentos nas famílias for de facto para a frente, a Birmânia será o único país a ter uma política deste tipo contra um grupo religioso, sublinha a Associated Press (AP). A política de filho de único chinesa não se baseia na religião.

"Esta restrição viola os direitos humanos. Mesmo que tenha sido criada durante a ditadura, a deve ser considerada imprópria no sistema democrático", disse à AP Nyunt Maung Shein, líder do Conselho Religioso Islâmico da Birmânia.

Barack Obama, ao receber o Presidente reformista Thein Sein na semana passada na Casa Branca, instou-o a resolver o problema dos rohingya: "A violência tem de parar", afirmou. Suu Kyi falou finalmente. Algo mudará?