Dexter, um rapper forjado numa prisão do Brasil

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Nuno Alexandre Mendes

Hoje, no Constantino Nery, em Matosinhos, sobe à cena O Mundo Magico de Ooohs!!!, no qual o músico participa. Depois de amanhã também, Vieira do Minho. Domingo, concerto na Amadora

Está ensonado Dexter. Ainda se ressente da viagem de São Paulo para o Porto. Aprende a lidar com o fuso horário. Aterrou domingo para participar numa tragicomédia musicada que sobe ao palco esta noite, no Teatro Constantino Nery, em Matosinhos, e quinta-feira no Auditório Municipal de Vieira do Minho. Domingo, o rapper dá um concerto no Estaleiro, na Amadora.

Não é de viajar. Esteve 13 anos preso. Vai redescobrindo a "liberdade nas pequenas coisas". Numa música exemplifica: "Cadeia lugar que você sente mó saudade/Do mínimo que quando se tem não dá valor/Tipo o quê? Pisar na terra descalço morô?" Na cadeia, todo o chão era cimento.

Esteve na Casa de Detenção de São Paulo, conhecida por Carandiru. Mais de sete mil pessoas sem nada de produtivo que fazer. "Aquilo era um quarto mundo dentro de um terceiro", diz, ao lado da irmã, Creusa Borges, actriz e directora do grupo Dragão 7. As condições eram infra-humanas. Volta e meia, rebelião. "A rebelião é o grito dos excluídos. É uma forma de chamar a atenção do exterior."

O Carandiru foi desactivado em 2000, mas a experiência de Dexter diz-lhe que o sistema prisional pouco melhorou. Guarda pessoas, afasta-as do resto. "Não existe uma política de reinserção. Não existe estudo, não existe trabalho. As pessoas vivem na ociosidade. Ficam o tempo todo jogando bola, fumando maconha, vendo televisão."

O Brasil tem uma das maiores populações prisionais do mundo - mais de meio milhão. E, na opinião do rapper, a imagem que os media passam desumaniza-a. É como se nas cadeias vivessem "animais, monstros", entregues ao desleixo, ao crime. As canções de Dexter trazem um olhar diferente, um olhar de dentro.

Cresceu em São Bernardo do Campo, na área metropolitana de São Paulo. Despertou para a música em 1990. Um domingo, estava em casa, ouviu Pânico na zona sul, dos Racionais. Qualquer coisa se acendeu dentro dele. Mano Brown "relatava uma situação vivida em todas as periferias de São Paulo". Se aquilo era rap, então ele queria fazer rap.

Pôs-se a escrever rimas. Escolheu um nome em língua inglesa, como então se fazia. Dexter. Encontrara esse nome num livro. Era o nome de um filho de Martin Luther King. Significava destro, correcto. Remetia para sagaz, esperto. Tinha de ser tudo isso para sobreviver nos bairros periféricos do Brasil.

O convite para gravar o seu primeiro CD apareceu em 1997, integrava ele a formação Tribunal Popular. Mano Brown e Edi Rock iam produzi-lo. O empresário que ia pagar a gravação ficou sem dinheiro. E Dexter decidiu que havia de o arranjar. Pouco depois era preso por assalto à mão armada. Apanhou 52 anos de prisão por sete assaltos. Fizeram-lhe um cúmulo de 38. Cumpriu 13 anos e três meses e saiu em liberdade condicional.

"Eu não sinto orgulho do que eu fiz", afiança. Orgulha-se de ter percebido, depressa, que não era aquela vida que desejava e de ter aproveitado o tempo para "desenvolver um dom". Há uma ideia que repete, de entrevista para entrevista: "Foi o rap que me salvou."

Na cadeia, percebeu o sofrimento alheio. Um recluso vira-o escrever umas rimas e aconselhara-o: "Você é muito talentoso, canaliza isso para fazer algo bom, mostra para a sociedade." Aproximou-se de "pessoas que gostavam de ler, de estudar", afastou-se de quem "ficava produzindo faca". Concentrou-se no que ama fazer: a música.

A actriz Sofia Bisilliat levara para lá um projecto intitulado Talentos Aprisionados. Descobriu-o e a Afro-X. "Ela conhecia um cara que gravava", recorda. Era Wilson Souto. Ele gostou das músicas Saudades Mil e Oitavo Anjo.

Para gravar o primeiro álbum, Provérbios 13, passaram quatro dias fora da cadeia. Os 509-E, nome da dupla, tornaram-se um fenómeno de popularidade. Talvez por irem "em contramão de tudo o que estava sendo cantado". Conseguiram ter autorização para dar concertos no exterior. Saíram 157 vezes em sete meses. Foram nomeados para dois prémios do Video Music Brasil. Ganharam o Prémio Hutus de grupo revelação do ano.

Após um controverso debate na Rede Globo, a dupla deixou de ter autorização para sair. 509-E ainda lançou um segundo álbum, MMII DC (2002 Depois de Cristo), gravado lá dentro. Depois, Afro-X foi libertado. O grupo terminou e Dexter recomeçou a carreira, a solo.

No ano de 2005, lançou o primeiro disco dessa nova fase: Exilado Sim, Preso Não, com participações especiais de Mano Brown, GOG, MC"s, MV Bill e outros elementos da cena brasileira. Não se sentia preso, sentia-se exilado. "Preso é pela consciência, nunca tive preso pela consciência", salienta. Em 2009, lançou Dexer & Convidados, com gente como Mano Brown, Kl Jay, Edi Rock, DJ Hum, Thaíde e Max B.O. Até ao final deste ano deverá lançar um novo trabalho, que também incluirá a participação de diversos artistas conterrâneos, incluindo Jorge Ben, uma referência para ele. Chamar-se-á Flor de Lótus. A flor de lótus cresce no lodo. Dexter considera-se uma. Algumas músicas desse novo trabalho ainda falarão no "exílio", a maioria abordará a liberdade.

Não virou costas à prisão. Idealizou o projecto Como Vai Seu Mundo?, em parceria com o ex-juiz corregedor da Vara de Execuções Criminais de Guarulhos, Jayme Garcia dos Santos Junior. Por meio de oficinas de teatro, música, dança, fotografia, rádio, trabalham a ideia de que "existem outras coisas para fazer, não só o crime".

Hoje, às 21h30, e depois de amanhã, à mesma hora, participa no espectáculo O Mundo Magico de Ooohs!!!, uma produção de Dragão 7, dirigido pela irmã, Creusa Borges. As suas canções são uma espécie de extensão das cenas. As cenas do quotidiano desenrolam-se e ele reflecte sobre elas. Uma dica: furibundo com as barbaridades protagonizadas pelos seres humanos, Zeus está prestes a apertar o botão para pôr fim à Terra. O concerto, na Amadora, é as 23h.