Crítica

Daqui ninguém sai vivo

Depois da Palma de Ouro 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, o romeno Cristian Mungiu assina um grandíssimo filme que está entre as obras maiores da “nova vaga romena”.

Desde que o soberbo A Morte do Sr. Lazarescu (2005) de Cristi Puiu lançou a “nova vaga” do cinema romeno, raros foram os filmes oriundos daqueles lados que trairam um invejável nível médio. Ao nível daquele, até agora (e vimos bastantes) só nos lembramos do Puiu seguinte, Aurora (2010) - mesmo apesar da Palma de Ouro em Cannes para o excelente primeiro filme de Cristian Mungiu, 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (2007). E dizemos até agora, porque Para Lá das Colinas, segunda longa de Mungiu (que ganhou melhor argumento e melhor actriz em Cannes 2012), vem juntar-se a esses dois como grande filme que capta de modo perturbante a desorientação da sociedade moderna.Para Lá das Colinas baseia-se num caso verídico ocorrido há cerca de dez anos, a partir dos quais Mungiu ficcionou o reencontro de duas amigas de infância, inseparáveis quando viviam juntas num orfanato. Voichita encontrou refúgio na religião e juntou-se à rígida comunidade de freiras ortodoxas local; Alina, aceite por uma família de acolhimento e entretanto emigrada na Alemanha para ganhar a vida, vai visitá-la, esperando convencê-la a juntar-se a ela. O mosteiro é pobre e dirigido com mão de ferro por um padre que se converteu após um episódio místico, e a chegada deste espírito livre pouco religioso vem meter um pauzinho na sua engrenagem; Alina quer recuperar o tempo perdido (e mais alguma coisa), Voichita crê ter encontrado a sua vocação. A tensão nascida da pressão de Alina sobre Voichita, dividida entre a religião e a amizade, corporiza-se num ataque epiléptico que põe em marcha uma engrenagem infernal que levará à tragédia.


O modo como Mungiu vai introduzindo despreocupadamente pequenos detalhes aparentemente anódinos (sobre o orfanato, o mosteiro, os passados das duas amigas ou do próprio padre, o hospital local) que se virão a revelar importantíssimos na progressão narrativa é absolutamente notável; sobretudo porque nunca deixa que isso o desvie do verdadeiramente importante (a relação entre Alina e Voichita, onde a força não está necessariamente onde o julgamos). Mais notável ainda é ver o cineasta a dar o “passo seguinte” na estética da “nova vaga romena” sem nunca trair o “caderno de encargos” que nos habituámos a encontrar. Para Lá das Colinas confia de tal modo na força do guião e das interpretações que a ausência do tradicional plano-sequência e o maior classicismo formal do filme se colocam por inteiro ao serviço da história, reduzida a um jogo de poder pela alma de uma mulher apaixonada, onde se questiona o papel da religião, o desejo de companhia, o desespero da solidão, a necessidade de construir uma vida para si próprio.

Espécie de “filme-complemento” da Morte do Sr. Lazarescu, com o qual tem uma série de pontos em comum a começar pela progressão narrativa implacável, Para Lá das Colinas é outro mergulho num túnel sem luz ao fundo, outro retrato angustiante de uma tragédia inexorável e claustrofóbica que arrasta todos os que nela estão envolvidos.

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