Helena Sá e Costa, a pianista que "rasgou horizontes para a música"

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Pedro Burmester (em primeiro plano) com Sá e Costa e outros alunos, em 1976, em Salzburgo; Helena Sá e Costa em 1999 Fotógrafo

Centenas de jovens estudantes e músicos tocam hoje em vários espaços Casa da Música, no Porto, para celebrar os cem anos do nascimento de Dona Helena. Professora e intérprete, é uma referência no séc. XX

Não haverá, no país, muitas figuras tão consensuais como Helena Sá e Costa (1913-2006) quando se trata de ouvir considerações sobre a sua vida, carreira e pessoa. A pedagoga que formou gerações sucessivas de pianistas, em Portugal e no estrangeiro, e que tratava cada aluno como uma pessoa e um caso singular; a intérprete extraordinária, que ficou principalmente conhecida pela sua atenção à música de Bach, mas que foi também uma divulgadora comprometida com a música portuguesa; a figura humana marcada por uma generosidade sem limites...

É este o denominador comum dos testemunhos ouvidos a pretexto do centenário do nascimento de Helena Sá e Costa, que hoje se celebra, e que vai ser assinalado na Casa da Música, no Porto, com a iniciativa 100 teclistas para Dona Helena - mais de 300 jovens estudantes e músicos de escolas de todo o país a tocar nos diferentes espaços do edifício. O recital de Grigori Sokolov previsto para hoje foi adiado para 2 de Junho, por doença do pianista russo.

Helena Sá e Costa é considerada uma referência fundamental da vida musical portuguesa do século XX - a sua estreia nos salões privados portuenses aconteceu quando tinha apenas seis anos e chegou, ainda adolescente, aos palcos dos teatros São João e Gil Vicente, no Porto, e do São Carlos, em Lisboa.

Vasco Graça Moura diz que Sá e Costa "rasgou horizontes para a música como muito poucos o fizeram entre nós". E "fê-lo de uma forma simples e despretensiosa, mas sem nunca esquecer uma poética de rigor e de extrema exigência musical e interpretativa, que trouxe até nós a grande tradição da música europeia dos últimos dois séculos", acrescenta o escritor, que em 2001 lhe dedicou o poema Prelúdio n.º 8, que começa com uma referência à sua devoção à música de Bach: "Helena bem temperada/ acho que ainda sei de cor/ do teu primeiro caderno/ todo o mi bemol menor..."

O professor do Conservatório de Música de Lisboa João Pedro Mendes dos Santos, que com ela privou desde a década de 1970, realça a grande atenção que Dona Helena sempre dedicou à música portuguesa, e cita o facto de a pianista ter realizado primeiras audições de compositores como o seu pai, Luiz Costa, mas também Carlos Seixas, Claudio Carneyro, Luís de Freitas Branco ou Álvaro Cassuto, por exemplo. "Era uma pianista sensacional, que aliava uma cultura inconcebível a uma inteligência impressionante e a uma grande generosidade", acrescenta o também director artístico do Festival de Música de Espinho.

"Tinha um lado muito portuense, muito terra-a-terra, que era a simplicidade, mas simultaneamente um grande rigor, pouco disposta a fazer concessões na sua arte. Era uma poética e uma pedagogia muito pessoal", acrescenta Graça Moura.

Professora sem método

A faceta pedagógica de Helena Sá e Costa foi intensamente vivida por Pedro Burmester, seu aluno durante uma década, entre os dez e os 20 anos. "Era uma forma de ensino que é rara, hoje em dia, e que passa por uma relação mestre-discípulo em que o conhecimento é passado de um para o outro através de uma experiência pessoal", diz o pianista, notando que Dona Helena "não tinha um método definido: cada aluno era tratado pessoalmente como um caso".

A mesma experiência de atenção pessoal viveu Elisabete Costa, que estudou com a pianista entre os três e os 17 anos. "É a minha máxima referência do ponto de vista musical. Manifestava um grande respeito pelos alunos, fazia-nos sentir que éramos alguém especial, sem favoritismos", diz esta professora reformada do Conservatório de Música Calouste Gulbenkian de Braga.

Pedro Burmester acrescenta que, para Dona Helena - e ao contrário do que acontece no ensino actual -, "o piano era apenas um instrumento para atingir a música, a obra do compositor e a sua mensagem - era esta a essência do seu ensino". E destaca também "o grande grau de exigência" em alguém que vivia a música "quase como uma devoção, um sacerdócio". "Mesmo se não era a mais perfeita das pianistas, era uma intérprete extraordinária, e sempre com uma grande generosidade", acrescenta o pianista.

Dessa generosidade fala também a irmã Madalena Sá e Costa, violoncelista, hoje com 97 anos. Helena e Madalena formaram um duo quando ambas eram ainda adolescentes e, mais tarde, nos anos 1950, o Trio Portugália (com o violinista Henri Mouton). "Admirava-me que ela tocasse comigo, pois eu era uma pessoa simples e, no início, ainda não era grande violoncelista. Mas ela era muito dedicada à sua irmã, e aguentava aquilo", recorda Madalena, que integrou a orquestra formada nos anos 1950 pelo grande maestro e pianista suíço Edwin Fischer, com quem Helena Sá e Costa (e outros pianistas de renome) fez uma digressão pela Europa (França, Bélgica e Alemanha) com obras de Bach para um, dois, três e quatro pianos. "Foi uma coisa grandiosa, muito aplaudida e festejada em todo o lado, que terminou em Paris na famosa Sala Gaveau", recorda a violoncelista.

Para além do legado imaterial e humano, Helena Sá e Costa deixou também herança material. A começar pelos (poucos) discos que deixou gravados, o mais celebrado dos quais com o 1.º Caderno do Cravo Bem Temperado, de Bach - que há muito se encontra esgotado e que a família está a tentar reeditar. Os outros discos são dedicados a obras de Luíz Costa, Fernando Corrêa de Oliveira e Lopes-Graça. Mas há centenas de gravações de actuações da pianista nos arquivos da RDP/Antena 2.

No Porto, existe um teatro com o seu nome na Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo, que Helena Sá e Costa ajudou a fundar. E, na Casa da Música, a mediateca guarda o mobiliário e o arquivo documental do histórico Orpheon Portuense (1881-2008), fundado pelo avô Bernardo Moreira de Sá, e que ao longo dos anos foi dirigido por sucessivos membros da família.

E há, finalmente, a casa portuense da família Sá e Costa no Largo da Paz, uma autêntica casa-museu recheada de testemunhos e memórias de intensa actividade musical, desde as aulas e recitais até à passagem de grandes nomes da música portuguesa, como Vianna da Motta, Guilhermina Suggia, Luís de Freitas Branco e Fernando Lopes-Graça, ou estrangeiros, como Pablo Casals, Edwin Fisher, Wilhelm Kempff, Alfred Cortot ou Alfred Brendel.