Sob o céu de Atacama, o telescópio VLT faz 15 anos

É o maior telescópio óptico do mundo, recebeu a sua primeira luz a 25 de Maio de 1998, fica no Chile e o céu por cima dele é de uma limpidez assombrosa.

Luis Sepúlveda tinha um amigo do deserto de Atacama que adorava tanto as árvores que um dia, no parque florestal de Santiago, vi-o anotar num caderno o número de plátanos altos que ladeavam o passeio central. O escritor chileno não compreendia muito bem essa paixão dizendo-lhe que esses plátanos nem sequer eram os mais altos da capital chilena. O amigo, Fredy Taberna, respondia-lhe que ele não percebia esse amor porque nunca tinha estado no Norte do Chile, no deserto de Atacama. No dia em que esteve, Sepúlveda percebeu de vez. Ele - e nós, a caminho do maior telescópio óptico do mundo, no Atacama.

Pode-se subir e descer montes, percorrer quilómetros pela auto-estrada que corta planaltos imensos, perder o olhar pelo horizonte, e mesmo assim não avistar uma árvore, uma erva sequer. Os montes e as planícies estão despidos, como se alguém que tivesse passado no Atacama arrancasse qualquer coisa verde que ousasse despontar. Nas poucas cidades e nos lugares com meia dúzia de casas que bóiam na imensidão encontra-se alguma vegetação, ainda que de um verde esbatido. O resto limita-se aos castanhos, aos rosados, aos alaranjados de um deserto de terra e de calhaus, não de areia. Teremos chegado a Marte (parece) sem dar por isso?

Não, aterrámos em Antofagasta, grande cidade mineira no Norte do Chile, 300 mil habitantes, e logo se sente o primeiro bafo do deserto que esconde no subsolo quantidades absurdas de cobre. E daí se vai de autocarro rumo a uma sofisticação tecnológica ao serviço da astronomia, o Very Large Telescope (VLT), ou Telescópio Muito Grande, a 130 quilómetros de distância, até ao cimo do Monte Paranal.

Atravessada a parte industrial de Antofagasta, com ares de bairro de lata, ao longe prédios altos, ao lado o porto com petroleiros, avança-se pelos montes. Secos como tudo. Avança-se pela estrada sobre a aridez, encimada por um céu azul-límpido, sem qualquer mancha branca. Pessoas e camiões em movimento, alguns; um inesperado centro penitenciário no meio de nada; e as esperadas máquinas das minas. É então que a ideia que pairava algures no cérebro toma forma. Onde estão as árvores?

Em As Rosas de Atacama, o que contará Luis Sepúlveda sobre esta paisagem? "Meses mais tarde, Fredy mostrou-me o Norte. O seu Norte. Árido, ressequido, mas cheio de memória e sempre pronto para o milagre." Ou: "Às dez da manhã o deserto de Atacama mostrava-se com toda a sua esplendorosa inclemência, e eu entendi de uma vez por todas por que é que a pele dos atacamenses se mostra prematuramente envelhecida, marcada pelos sulcos deixados pelo sol e pelos ventos impregnados de salitre", escreveu o escritor chileno, que nessa viagem viu pela primeira vez as rosas de Atacama, pequenas flores vermelhas, e pela última o amigo Fredy Taberna. "A 16 de Setembro de 1973, [cinco dias] depois do golpe militar fascista [do general Augusto Pinochet], um pelotão de soldados levou-o para um descampado nas vizinhanças de Iquique. Mal se podia mexer, tinham-lhe partido várias costelas e um braço e quase não podia abrir os olhos porque a cara era um hematoma uniforme."

Tenebrosos tempos esses em que a Caravana da Morte, chefiada pelo general Sergio Arellano Stark, a mando de Pinochet logo após a sua chegada ao poder, percorreu o Chile em execuções e as vítimas do Norte enterraram-nas em parte incerta no Atacama. A ditadura de Pinochet duraria 17 anos, até 1990, e deixou mais de 3100 mortos e desaparecidos e 28.000 vítimas de tortura.

Ainda que testemunha desse lado negro dos seres humanos, o Atacama tem proporcionado que o melhor de nós também se manifeste, ao permitir que olhemos para o Universo, em busca da origem de tudo. Do início da matéria e da energia, no Big Bang há 13.800 milhões de anos, das estrelas, dos planetas, das galáxias e de nós próprios, em última análise.

Por que atrai os astrónomos

Este deserto é dos locais mais secos da Terra, porque as nuvens ficam por cima do Pacífico, a oeste dos Andes, e não se atrevem a passar esta barreira de montanhas. A famosa corrente de Humboldt, fria ao longo da costa do Chile e do Peru, também condensa a humidade que vem do Pacífico. É assim que as nuvens, a chuva, a humidade relativa (menos de 10%), que costuma perturbar as observações astronómicas, ficam no Pacífico e não chegam ao Atacama. Explicada a ausência de vegetação, aquelas são razões que fazem deste deserto local de eleição a nível mundial para a astronomia: o Observatório Europeu do Sul (ESO), organização europeia criada em 1962, com sede na Alemanha e hoje com 14 países, incluindo Portugal desde 2000, constrói aqui os seus telescópios desde o princípio. Sobrevivendo aos tempos do regime de Pinochet, em que também astrónomos estrangeiros foram perseguidos, a relação do ESO com o Chile manteve-se até hoje e vários telescópios foram sendo construídos.

O actual Presidente chileno, Sebastián Piñera, já disse: "Queremos fazer do Chile a capital mundial da astronomia e um dos pontos de turismo astronómico. O Chile vai concentrar 60% da capacidade de observação do Universo."

E, de repente, eis que surgem os quatro edifícios metálicos do VLT, em contraste com o castanho do Monte Paranal. Tão solitários lá no alto, a 2600 metros.

Os quatro espelhos principais do VLT, dentro nas cúpulas metálicas, também funcionam em conjunto como um único telescópio de 16 metros de diâmetro, tornando-o o maior telescópio óptico (que capta a luz visível, a mesma vista pelos olhos humanos) e de infravermelhos do mundo. Esperam pela noite.

Lá em cima, o vento assobia, o sol queima e a fronteira entre as nuvens sobre o Pacífico e o deserto límpido é nítida. Do lado do oceano, a 12km do VLT, o algodão das nuvens, imóveis ao verem-se cá de cima, tapa o Pacífico. Do outro lado, o Atacama, destacando-se um monte a 20km dali, o Armazones, onde ficará a casa do gigantesco sucessor do VLT - o European Extremely Large Telescope (E-ELT), com um único espelho principal de 40 metros e que em 2023 captará a sua primeira luz.

Assim que a tarde começa a passar o testemunho à noite - e a Via Láctea como não a vemos no hemisfério Norte -, as quatro cúpulas do VLT abrem-se lentamente, a aragem entra, os telescópios movem-se devagar e o Universo é deles.

O primeiro dos quatro espelhos recebeu a sua primeira luz a 25 de Maio de 1998, faz hoje 15 anos, e até ao fim de 2000 sucedeu o mesmo com os outros. Desde então, publicaram-se mais de 4800 artigos científicos baseados em observações do VLT, conta Andreas Kaufer, director do Observatório do Paranal. "A cada seis meses, recebemos cerca de mil propostas para usar o VLT. Temos sete mil utilizadores no mundo", leia-se sete mil cientistas que usam o VLT, cuja operação custa 24 milhões de euros por ano. É preciso trazer tudo, comida, água, combustível.

O local onde Andreas Kaufer faz estas declarações é outro mundo - como se repente tivéssemos sido transportados do Atacama para os trópicos, ou não nos tivéssemos deparado com palmeiras, uma piscina, o cheiro a terra molhada, um calor húmido. Mas não, continuamos no Atacama - mais: no Paranal -, só que um pouco mais abaixo do monte dos quatro telescópios.

As árvores que Fredy Taberna tanto gostava existem afinal em pleno Atacama, só que refugiadas na Residência do Paranal, que acolhe os astrofísicos de visita ao VLT em observações, além dos cientistas e do pessoal que os apoia e cuida da infra-estrutura. É onde comem, dormem, conversam e vêem filmes. O staff tem 180 pessoas, incluindo cientistas que executam as observações de outros cientistas na sala de controlo do VLT, engenheiros, técnicos. "Falamos muito sobre trabalho, mas também muito sobre a vida", diz o brasileiro Cláudio Melo, um dos astrofísicos do staff.

Com a entrada enterrada ao nível do chão, a residência tem a singeleza de um L, com a parte de trás fora do solo confundindo-se com o avermelhado da paisagem. O jardim tropical e a piscina, concebidos a pensar não só no lazer mas para aumentar a humidade interior, ficam por baixo de uma enorme clarabóia que durante o dia deixa entrar o sol e à noite é tapada por uma lona, para que a luz das lâmpadas não perturbe as observações no VLT. Num dos filmes do James Bond, Quantum of Solace, de 2008, a residência serviu de casa do vilão da história. No ano seguinte, o jornal The Guardian considerou-a um dos dez edifícios da primeira década do século XXI.

Antes desta viagem, a astrofísica Teresa Lago, da Universidade do Porto, dizia-nos: "O Paranal é a eficiência, a perfeição, tudo funciona bem. O VLT é o conjunto de telescópios que dá mais resultados científicos, mais publicações e tem maior impacto em todo o mundo." Entre os seus avanços está a descoberta de que o Universo está em expansão acelerada; a identificação da estrela mais velha da nossa galáxia, com 13.200 milhões de anos; a primeira análise da atmosfera de um planeta noutro sistema solar; ou a detecção de muitos destes planetas.

Tudo longe de Portugal? Além de tecnologia para o VLT desenvolvida em Portugal, de ser usado por dezenas de cientistas portugueses que publicaram centenas de artigos, o encontro casual com Claúdio Melo ilustra essa proximidade: é amigo do astrofísico português Nuno Santos, na vanguarda da detecção de planetas extra-solares, e já trabalharam juntos. "Um momento por que tenho muito carinho é quando [em 2004] o Nuno veio ao VLT e eu era o astrónomo de suporte e ele o visitante e observámos planetas em trânsito." Encontraram dois gigantes a passar em frente à sua estrela, confirmando então, com este telescópio, uma nova classe de planetas, a dos "Júpiteres muito quentes".