Emmy Curl e Vila Real

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Adriano Miranda

Gravou um videoclip ao pé de casa, entre vinhas crescidas e com a cidade onde nasceu em pano de fundo. A paisagem de Trás-os-Montes acalma-a e, ao mesmo tempo, dá-lhe energia. A cantora Emmy Curl, Catarina Miranda no bilhete de identidade, não renega as origens. É transmontana com muito orgulho, mas confessa que as auto-estradas que rasgam a natureza partem-lhe o coração

Gostava de mexer nas plantas, na terra e de misturar ervas com água que cozinhava numa sopa faz-de-conta que mostrava à avó. Ajudava o avô a plantar morangos no quintal e enchia os pulmões do ar fresco que Vila Real emanava por todos os poros, aconchegada entre montanhas, aninhada em paisagens alcatifadas pelo verde intenso da natureza.

Quando era pequena, Catarina Miranda andava pelos campos, tomava banho no rio e tinha um gravador com cassetes que registava o que ouvia e as vozes das aulas da primária. Uma vez por semana, pedia com jeitinho à professora para cantar com a amiga Ana Isabel uma canção da Disney que ambas decoravam para a ocasião especial, com direito a microfones e palco improvisados.

Catarina, menina teimosa de sangue na guelra e sardas na face, transmontana dos pés à cabeça, sempre quis ser cantora. Agarrava-se às guitarras que havia lá por casa, instrumentos da banda do pai arquitecto e guitarrista e da mãe professora e vocalista. O pai ensinou-lhe os primeiros acordes, a técnica de guitarra clássica foi aperfeiçoada no Conservatório Regional de Vila Real. Estudou canto lírico na mesma escola e aprendeu a colocar a voz. A inspiração brotava sem pedir licença da paisagem transmontana. Os dois quilómetros que separam a casa da cidade eram percorridos a pé vezes sem conta quando queria encontrar-se com os amigos. Os atalhos que a levavam ao destino tinham silêncios da natureza e muitas cores. "Tinha muito tempo para mim e a paisagem servia para reflectir, para meditar", recorda. De regresso a casa, passava para o papel o que lhe ia na alma. Emoções que não tardavam a transformar-se em músicas. Melodias cozinhadas em segredo. "Compunha para mim, não mostrava a ninguém." Hoje o país sabe o que faz.

Transmontana com muito orgulho. Vila Real dá-lhe calma e, ao mesmo tempo, ajuda-a a recarregar baterias, pôr energias na ordem. "As nossas origens fazem-nos sempre muito bem." Aos 22 anos, é o que queria ser e muito mais. Cantora, compositora, intérprete, estilista e costureira de peças vintage, designer gráfica, apaixonada por fotografia e cinema. Catarina Miranda cresceu e tornou-se Emmy Curl no meio musical. Há uma semana, terminou a digressão de Origins e está a preparar um álbum que quer lançar no final do ano. Nasceu em Vila Real, onde regressa e de onde parte constantemente para Aveiro, onde agora mora, ou para outro sítio do país com palco marcado para mais um concerto. Parte sempre com mais energia e um brilhosinho no olhar que só o cenário transmontano é capaz de lhe dar.

"Tenho um fascínio muito grande pela paisagem de Trás-os-Montes, não há paisagem assim em mais lado nenhum. Adoro o lado rural", conta. Património que, na sua opinião, merece ser preservado até ao tutano. Tem feito por isso, no estilo campestre das roupas que desenha e costura, nos videoclips que grava em Vila Real. Um deles ao pé de casa, num campo de vinhas alinhadas com a cidade ao fundo, na paisagem que todos os dias observava sentada no banco da paragem do autocarro, nas idas para a escola. Cenário gravado na fresca memória e que só podia resultar num filme. "Sou muito influenciável pelo sítio onde vivo", confessa.

Estante com gavetas

Não muito longe do centro histórico de Vila Real, mesmo ao lado de uma estrada movimentada, há uma escada de pedra quase escondida que dá acesso ao Parque do Corgo, que no Outono se cobre de folhas caídas das árvores e ganha uma tonalidade sépia que tanto encanta Emmy Curl. Em baixo, corre o rio Corgo, frenético. Pelos caminhos estreitos, passa um homem com canas aparadas às costas, foucinha na mão. Vai à sua vida. Por ali, há um banco de madeira, um mini-santuário em homenagem ao Nosso Senhor da Boa Viagem. A vegetação cobre as encostas da "falésia", como lhe chama, e há flores, papoilas, ervas, natureza em estado bruto. Do outro lado, um cavalo pasta sem pressas. Emmy Curl olha para o animal e pensa alto: "Dava uma bela foto." Conhece bem aqueles caminhos repletos de vegetação, aquela escada de pedra que, degrau a degrau, faz a passagem quase perfeita do urbano para o rural. A cantora também é assim. Menina do campo, com o olhar amarrado à paisagem natural, menina da cidade, com sede de cultura e defensora que as novas tecnologias devem facilitar a vida do homem. Mas há construções de betão que lhe ferem o olhar. Mais uma ponte, um prédio despido e embargado não muito longe daquelas escadas. "Senti um golpe no coração quando fizeram a auto-estrada. Cortou a vista e a paisagem foi devastada", desabafa.

Quando era miúda, diziam-lhe que tinha cara de Emília. Na hora de encontrar o nome artístico, escolheu Emmy, até para distinguir as duas Catarinas que havia na turma, e juntou-lhe Curl pelas espirais que desenhava em toda a parte e pela ligação com a lua, o seu astro regente. Catarina tem mais nomes. Na moda, assina como Emília Caracol. É Emmy Curl na música que compõe, grava, produz e canta ao vivo. Catrain nos desenhos, na pintura, na expressão plástica. Deep:Her na vertente electrónica. Nomes que arruma com cuidado para que não haver confusões. "É como ter uma estante com várias gavetas. Uma gaveta para meter cada coisa que faço." "Sou muito metódica na profissão", garante. E assim compartimenta os heterónimos que escolheu para as suas artes e que faz questão de manter distanciados de Catarina Miranda. Para si, é importante separar as águas. "Para ter a minha individualidade, como sujeito, como pessoa. Sou muito terra-a-terra e há um lado muito meu que gosto de preservar", diz.

Artes embutidas no cinema

Independente desde muito nova. Senhora do seu nariz. Gostava de aprender tudo sozinha, mas o tempo ensinou-lhe a importância de aprender com os outros. Hoje prefere essa partilha. Mas o vício do gravador não lhe passou. Regista o que faz. O seu primeiro EP nasceu há seis anos. O estúdio que os pais construíram na cave de casa foi o seu laboratório, o tubo de ensaio. Aos 17 anos, gravou o seu primeiro trabalho caseiro com 12 músicas que baptizou de Ether. Guitarra e voz. Numa conversa de café, algumas das suas músicas foram parar a um leitor de CD. Emmy corou com a imprevista exposição das suas criações e pouco depois tocava nesse bar ao vivo. Sem rede. Não havia volta a dar. Colocou as canções no My Space e elas não passaram despercebidas aos entendidos da matéria. Entrou na colectânea Novos Talentos Fnac 2010 com o tema Seafire and its Waltz. Pouco depois, Birds Among the Lines, da Optimus, via a luz do dia em apenas uma semana de produção. Os convites não pararam de lhe bater à porta. Tocou no Coliseu de Lisboa, o seu nome apareceu em cartazes de vários festivais de Verão. Depois desapareceu do mapa. Hibernou musicalmente durante dois anos. Precisava de tempo para pensar. "Quis fazer um reset à minha carreira."

Reset feito, voltou. Ressurgiu em Novembro do ano passado com Origins, trabalho gravado num quintal de uma casa de Ermesinde e filmagens feitas na natureza de Vila Real. Reapareceu sem manager, apenas com uma agente. Prefere assim, escolher o que quer fazer sem cedências, sem fretes na agenda. Trata da sua imagem gráfica, tira fotos, produz os seus próprios filmes, faz contactos, responde aos emails. Percorreu o país em concertos com João André no baixo e Eurico Amorim nas teclas. Vestiu-se de Pierrot com sóis e luas no vestido. O candelabro ligado a um guarda-chuva chinês virado ao contrário que tinha em cima da cama foi replicado em tamanho gigante para decorar os espectáculos ao vivo. E, quando lhe apetece, fala de Vila Real, entre uma e outra música, das saudades que apertam e de quando prevê lá voltar. Estudou Artes no liceu em Vila Real. Secundário concluído, partiu para o Porto para estudar Cinema. "Dou-me bem com todas as áreas artísticas e o cinema tem todas as áreas embutidas, é a mãe de todas as artes", afirma. Um mundo onde se sentia à vontade, onde podia compor bandas sonoras, cantar, interpretar, filmar, criar. Pôr todos os conhecimentos à prova. Desistiu do curso antes de terminar o primeiro ano, a carteira não aguentava. Partiu para Aveiro, onde tinha amigos e ficou lá a morar. Tentou trabalhar em pastelarias, numa loja de fotografia, aprendeu a costurar, comprou uma máquina, dedicou-se ao guarda-roupa vintage. Desenrascou-se com o que tinha. Matriculou-se no curso de Artes Plásticas e Multimédia em Viseu, mas as gravações de um EP em Lisboa deixavam-lhe pouco tempo para estudar. Saiu antes de terminar o primeiro ano. "Prefiro a escola da vida. Sempre fui muito segura do que sou e do que quero fazer." Em tudo o que faz.

O seu universo musical é místico, simbólico. "Acredito nas forças cósmicas, que existe um destino mas também um livre arbítrio", revela. Acredita que as coisas que têm de acontecer, acontecem de facto. E move-se num universo do dream pop. Voz suave, melodias que percorrem a guitarra, letras que falam de amor, de emoções, de relações. "As estruturas das canções entram facilmente no ouvido." O processo criativo parece fácil, mas não é. "Toco uns acordes na guitarra e canto o que me vem à cabeça." Depois afina-se aqui e ali até ao resultado final. Dream pop soa-lhe bem e faz jus ao lado sonhador que impregna na música que compõe em inglês.

Voltar a Vila Real é como regressar ao ninho. "Sinto-me protegida." E os dias passam depressa: visitar a família, sair com os amigos, passear no parque, percorrer a cidade. Os bilhetes andam de mala em mala. Mesmo que para ali chegar tenha que dar muitas voltas, apanhar comboios e autocarros. O regresso às origens não tem data marcada. "Um dia quero montar um estúdio e gravar em casa." Seja lá onde essa casa for.

Vila Real não está apenas na música que cria. As roupas também contam a sua história de menina do campo. Emmy Curl veste as roupas que desenha e costura com o nome de Emília Caracol. Tem um atelier no centro de Aveiro, com vista para a ria. Aprendeu a costurar sozinha, para desenrascar-se na vida, quando a vida lhe disse que assim tinha de ser. Recua várias décadas e a cidade natal estampa-se nesta forma de se expressar. Há rendas e flores nas suas roupas de "estilo campestre". Há uma camisola de seda bege com chumaços e três botões verdes com brilhantes e um casaco vintage amarelo mostarda estilo Chanel feito à mão no seu portefólio de moda. Emmy Curl não está quieta, mas Vila Real dá-lhe um sossego difícil de explicar.