Nove apostas no Optimus Primavera Sound

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Guadalupe Plata

Consagrados à parte, eis como se anuncia o futuro nesta segunda edição do festival no Porto.

Guadalupe Plata (5.ª, 30, 18h, Palco Super Bock)


São andaluzes e, se pensarmos que a Andaluzia foi cenário em décadas passadas de westerns com tanto sangue quanto paisagens deslumbrantes, talvez tudo isto faça sentido. Os Guadalupe Plata são um trio e o álbum de estreia homónimo é feito de blues infernal e intensidade punk vertidos em canções com títulos como Funeral de John Fahey, Jesus está llorando ou Santo entierro. Uma verdadeira surpresa: andaluzes a sonhar com um Mississípi em chamas. Magnífica ficção. A descobrir sem perder tempo.


Local Natives (6.ª, 31, 20h, Palco Optimus)


Um degrau acima do anonimato, esta gente californiana segue na frente do pelotão descendente do panteão de deuses venerados pelo público do festival: Arcade Fire, Vampire Weekend, Fleet Foxes ou The National. Com a edição do segundo álbum, Hummingbird, já em 2013, a mescla de folk e pop saltitante dos Local Natives está naquele ponto em que a canção certa pode disparar o grupo para a fundação da sua própria igreja. E o Optiomus Primavera Sound, neste caso, pode ser o milagre esperado.

SVPER (6.ª, 31, 21h, Palco Pitchfork)
O duo do australiano Sergio Pérez e da argentina Luciana della Villa já se chamou Pegasvs, mas agora é SVPER. A sua presença no Primavera deve-se à forma como tomaram de assalto a cena musical de Barcelona, munidos de uma pop a correr atrás de uma electrónica repetitiva, enquanto a voz de Luciana fura o mar de obsessão com uma candura desmaiada. O segredo, altamente eficaz, está em conduzir-nos quase até ao adormecimento até percebermos que fomos enredados num transe sem saídas de emergência.

Melody's Echo Chamber (6.ª, 31, 22h, Palco Pitchfork)


Melody Prochet traz da sua nacionalidade francesa a típica voz soprada, doce, aérea, que casa na perfeição com uma manta instrumental ajudada a finalizar por Kevin Parker, homem dos mui recomendáveis Tame Impala. Gravado entre Perth, na Austrália, e a casa dos seus avós em Cavalière, França, o disco de estreia de Prochet é coisa para maravilhar gente que aprecie Spiritualized, Coralie Clément e, imagine-se, Tame Impala. G.F.

Metz (6.ª, 31, 23h55, Palco Pitchfork)


Ciclicamente, aparece-nos algo assim: uma voz que se solta entre o zangado e o desesperado, o ritmo num frenesim (bateria sem descanso, baixo distorcido como se exige) e as guitarras incapazes de qualquer discrição (os riffs e os solos como explosão de adrenalina só desaparecem para que se erga o feedback). Os Metz, canadianos que podiam ser da Seattle pré-massificação grunge e que gostariam certamente de partilhar palco com os Shellac de Steve Albini, banda "residente" do Primavera Sound, editaram em 2012 um dos grandes álbuns rock'n'roll do nosso tempo. Chama-se Metz, sem mais, e o palco é o local onde esta bem-vinda selvajaria eléctrica melhor se exprime. 

L'Hereu Escampa (sábado, 1, 21h, Palco Pitchfork)


São um duo guitarra-bateria, sacam melodias bem afinadas sobre rock visceral, sem filtro, e, como tal, ao ouvi-los lembramo-nos dos No Age de Nouns (mas não é bem isso). São de Barcelona, têm duas edições no currículo, um mini-álbum (2011) e Llamp de Déu, e, ao ouvi-los, sentimos que não têm tempo a perder. Rock'n'roll directo, como seria de esperar de quem começou pelo hardcore, mas repleto de subtilezas: uma viagem sónico-minimal que nos conduz à urgência e ambição dos ...And You Will Know Us By The Trail And Dead quando ainda não lhes tido sido inoculado o vírus da grandiloquência desnecessária. Podem ser uma das boas surpresas no Parque da Cidade.

Daughn Gibson (1 de Junho, sábado, 22h20, Palco Pitchfork)


A biografia, só por si, chama a atenção. Camionista, ex-baterista em bandas de metal, percorre os Estados Unidos, recolhe histórias, guarda paisagens, recorda as faces e expressões de quem vai encontrando pelo caminho. Quando larga o volante e se fecha em casa, a música que nasce é uma surpresa: samples de gospel, pianos fúnebres, fantasmas de Johnny Cash e, principalmente, Scott Walker, falando ao ouvido do dono daquela voz de crooner assombrado. O título do álbum de estreia, All Hell, é certeiro. É um inferno que fazemos bem em visitar, este de Daughn Gibson, familiar "country-trónico" do rockabilly lynchiano de Dirty Beaches.

White Fence (sábado, 1, 23h, Palco ATP)


São Francisco é hoje um viveiro de rock'n'roll impregnado da memória psicadélica da cidade, mas demasiado irrequieto para se quedar em reverência. Os White Fence de Tim Presley, pares de The Oh Sees ou de Ty Segall (com quem gravaram no ano passado o óptimo Hair), representam uma outra vertente dessa vaga entusiasmante. Ouvem-se ecos das guitarras cristalinas dos Byrds, o fraseado narcótico de Syd Barrett ou a memória dos Moby Grape como porta aberta para um universo de sonhos febris. Cyclops Reap, o último álbum, é uma pérola de psicadelismo compactado num gravador de quatro pistas.

Savages (sábado, 1, 23h50, Palco Pitchfork)

 

Não haverá outro concerto agendado para o Optimus Primavera Sound portuense tão apontado para o presente. Com o álbum de estreia, Silence Yourself, acabado de lançar, a selvajaria pós-punk do quarteto londrino Savages chega-nos com um intervalo mínimo entre o trovão e o relâmpago. Nesta música roubada às vísceras, animalesca, como se Siouxsie Sioux tivesse sido vocalista dos Birthday Party, cantam-se letras inspiradas por poesia da Segunda Guerra Mundial e documentários sobre estrelas porno. Sempre com uma crueza arrepiante.