Miguel sem heróis

Bruno Simões Castanheira
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Bruno Simões Castanheira

O último livro de Miguel Sousa Tavares, Madrugada Suja, é uma história romanceada dos últimos 30 anos da vida pública portuguesa. E um livro sem heróis, ao contrário de Equador. Sobre os acasos da vida e a corrupção política, do Alentejo da Reforma Agrária até hoje.

Depois de Equador (2001), de Rio das Flores (2007) e de No Teu Deserto (2009), Miguel Sousa Tavares tem um novo romance nas livrarias: Madrugada Suja. É publicado pelo Clube do Autor, editora de que é sócio, e não pela Oficina do Livro, do grupo Leya, onde estão todos os outros. Quis voltar "a experimentar publicar numa editora com pequena dimensão no mercado".

Nos últimos anos, fez duas tentativas para escrever outros romances. Falharam. Cinco minutos depois de ter acabado de escrever este, eram quatro horas da manhã, recebeu uma mensagem de alguém que estava fora de Portugal. Respondeu-lhe: "Dá-me os parabéns porque acabei um livro agora." Quiseram saber qual era o título: "Madrugada Suja", respondeu. "Todas as madrugadas são sujas. Só as manhãs são limpas", veio do outro lado em forma de conclusão. É a epígrafe do romance que começa com uma noite de álcool na Queima das Fitas, passa por uma aldeia do interior alentejano que vai ficando deserta, só com um avô, Tomaz da Burra, e um neto, Filipe, o protagonista do livro, mais tarde arquitecto paisagista num pequeno município do litoral. É um livro onde emerge a experiência de Miguel Sousa Tavares como jornalista de investigação.

O que lhe aconteceu desta vez, e isso nunca tinha acontecido a Miguel Sousa Tavares, foi estar a escrever um livro e querer ir já para o próximo. Que, acredita, será completamente diferente dos que falhou. E poderá até ser publicado na Oficina do Livro, pois acaba de renovar com a Leya o contrato de Equador e para um novo livro.

Qual foi o ponto de partida para Madrugada Suja?

Foi a descoberta de que havia no Alentejo uma aldeia que só tem um habitante. Pensei que a partir daí podia - misturando ficção - fazer um relato de como é que Portugal chegou ao que chegou. Como é que se acabou com aldeias de um só homem no interior? Vi que envolvia muitas coisas, do ponto de vista sociológico, económico, demográfico, político, e acabei a fazer um romance reunindo tudo isso. É de certa forma uma história romanceada dos últimos 30 anos da vida pública portuguesa.

A aldeia do livro, Medronhais da Serra, existe?

Não. Espero que não exista [risos]. A partir do momento em que você tem um esqueleto para a história, coloca lá as peças como se fosse um tabuleiro de xadrez e começa o jogo. Imaginei o que seria um homem, com 80 e tal anos, sozinho numa aldeia a falar com os animais porque nem televisão tinha.

Como é que teve essa ideia da revolução do 25 de Abril de 1974 vista a partir de uma aldeia no Alentejo?

A inspiração é uma reportagem feita pela RTP sobre as campanhas de dinamização do Movimento das Forças Armadas. Há uma reportagem absolutamente fantástica, que espero que a RTP ainda tenha em arquivo, quando mandam os comandos fazer dinamização cultural para uma aldeia de Trás-os-Montes. Os comandos, imagine! Vêem-se os comandos a entrarem de chaimites, as portas fechadas e toda a gente com medo deles. A cena é inspirada nisso. São reminiscências. Comecei a fazer jornalismo logo a seguir ao 25 de Abril. Achava tudo aquilo que se passava tão extraordinário que comecei um diário de acontecimentos políticos. Fiz um ano e meio de diário. Depois perdi-o. Foi uma pena. Mas guardei muitos pormenores na cabeça e usei-os na parte do romance em que há uma revisitação do 25 de Abril.

Quer dar um exemplo?

Por circunstâncias jornalísticas assisti à primeira ocupação de uma herdade no Alentejo. Parecia um filme de Eisenstein, OCouraçado Potemkine a entrar pelo Alentejo. Isso também está nas discussões que se passam na Unidade Colectiva de Produção (UCP). Por exemplo, há um episódio com uma alemã do Leste que vem para a UCP que é inspirado no Torre Bela [documentário de Thomas Harlan] e remete para uma ideia que havia na Europa de que isto era uma revolução romântica.

Na UCP há uma casa abandonada, a que chama casa-fantasma, em que os trabalhadores não entravam. Corresponde à realidade?

Curiosamente os decretos de nacionalização da Reforma Agrária nacionalizaram a terra mas não as casas. Em teoria, os donos das casas podiam lá viver. Claro que se exilaram. As casas ficaram fechadas. Conheci pessoas que guardavam a chave das casas dos senhores. Como mais tarde encontrei, por exemplo, em São Tomé e Príncipe, pessoas que tinham guardado a chave das casas dos colonos que se tinham vindo embora. Havia um ex-trabalhador de uma roça que guardava a chave de uma casa completamente em ruínas. Mostrou-ma dizendo que era o guardião para um dia o patrão voltar.

Usou alguma fonte ou é tudo da sua memória?

Tudo é ficcionado tirando uma coisa. Conto uma discussão onde exigem aumento de ordenado ao dirigente e ele diz: não há dinheiro. Mas como é que não há se isto é nosso? Aconteceu mesmo na UCP, investiguei. Houve trabalhadores que se foram queixar ao sindicato de que as terras eram colectivas mas continuavam a ser explorados. Tive algum cuidado a tentar que os diálogos fossem o mais próximo possível.

Nessa parte do romance passa a ideia de que se queria fazer do Alentejo uma coisa à parte.

O Alentejo era uma coisa à parte. Mesmo depois, a seguir ao 25 de Novembro [de 1975], quando a situação política dá uma grande volta, houve muita gente a imaginar que o Alentejo pudesse ficar como uma ilha, uma espécie de Cuba dentro de Portugal. De facto, a história política do Alentejo é diferente, a própria divisão da terra é diferente. Enfim, acho que posso dizer que sou um grande conhecedor do Alentejo e portanto socorri-me daquilo a que - mais do que memórias, mais do que informações - se poderá chamar intuições.

A Reforma Agrária acaba por ser só um momento do romance.

Depois desaparece. Queria dar algum background familiar para situar a personagem que sai da aldeia, o neto. Mas o que me interessava era chegar aos tempos de hoje, aproximar-me mais dos anos 1980 e 1990.

A corrupção é o grande tema deste livro.

Não sei qual é o grande tema do livro [risos], mas aceito esse.

Então qual é o grande tema do livro para si?

São os acasos da vida. As coisas que acontecem porque parece que estavam escritas para acontecer. E como é que as personagens se comportam perante os acasos da vida. Encontros imprevistos, situações de limite que exigem uma decisão. Não há neste livro nenhuma personagem nem nenhuma cena grandiosa. Se compararmos com o Equador, por exemplo, não há aqui um herói como havia o Luís Bernardo. O que há é uma série de coisas na vida das pessoas onde elas são confrontadas com a necessidade de fazer uma escolha. Se calhar o grande tema são os acasos e outro dos temas é a corrupção na política.

Filipe, neto do único habitante da aldeia do Alentejo, trabalha numa câmara do litoral e vê-se confrontado com uma situação de corrupção. Baseou-se em algum caso real?

Num caso concreto não. Em dezenas de casos que soube, que testemunhei, que deduzi, que percebi, sim. Uma vez estive com um presidente de câmara do litoral, na altura em que estava a investigar uma urbanização completamente ilegal que a câmara queria aprovar, e nunca tive tanta certeza de que estava em frente de uma pessoa corrupta. Parecia que ele gritava: "Sou corrupto". O que me fez mais impressão nem foi perceber que havia ali uma história de corrupção, foi estar frente-a-frente com uma pessoa que eu não tinha a menor dúvida de que era um corrupto.

Às vezes - repare, como nesse caso do livro - nem se pode dizer que seja uma corrupção da parte do autarca, não fica claro nem é subentendido que ele tenha sido corrompido. O que ele faz é achar que é bom para a sua terra que haja urbanizações e campos de golfe. Com a velha desculpa: isto é investimento, isto é dinheiro, isto são impostos para a terra. É à conta desse raciocínio que Portugal tem vindo a ser liquidado sistematicamente. Portanto, quis romancear mas não tanto.

Como é que isto é visto por dentro? Como é que se passa o dia-a-dia dentro de uma câmara? O que vai na cabeça do presidente? O que vai na cabeça do arquitecto a quem o promotor propõe 25 mil euros para ele adoecer e não dar despacho negativo? Depois, os meandros. Como é que a lei e os advogados conseguem dar a volta àquilo? Como é que as empresas de comunicação e imagem conseguem vender à imprensa um projecto que é completamente ilegal e selvagem como um factor de progresso? Está tudo encadeado.

O estratagema usado no romance é possibilitado por uma lei.

A lei de deferimento tácito. Escrevi muito contra isso, até no PÚBLICO. Tínhamos um princípio-base das decisões administrativas: se o órgão administrativo não deferia uma pretensão no espaço de 90 dias, ela considerava-se indeferida. Depois à conta de que isto era prejudicar os particulares - para mim era preguiça da administração pública -, inverteu-se. O silêncio da administração passa a valer por deferimento tácito. Isto, como explico no livro, é uma oportunidade extraordinária para poder ser corrompido sem deixar impressões digitais, porque basta não fazer nada e deixar passar o prazo.

Estamos num ano de eleições autárquicas. Isso teve influência na publicação deste romance?

Não tem nada a ver. Estive dois anos a escrever o livro e nem me lembrei de que havia autárquicas. Agora é um velho cavalo de batalha meu, acho que o poder local é obviamente uma necessidade democrática e na maior parte dos casos quero acreditar que foi um benefício para as populações, noutros casos foi aquilo a que chamei "o poder fatal". Temos tendência, na opinião pública, a achar que a grande corrupção se passa a nível de primeiro-ministro e não é verdade. A grande corrupção começa por baixo e à vista de toda a gente.

É uma das contradições que temos. Nos pequenos concelhos do litoral, as pessoas sabem perfeitamente que determinado prédio apareceu porque houve corrupção. A seguir votam na mesma vereação. Encolhem os ombros, acham que faz parte do jogo. A ideia de que a democracia, a corrupção e os males só devem ser atacados quando atingem o topo é muito portuguesa e está errada. Se o presidente da minha freguesia for corrupto eu tenho de me mexer, tenho de fazer alguma coisa.

A tal proximidade, que é a vantagem do poder local, também acaba por ser prejudicial. É tão próximo, é tão vizinho, é tão amigo, a gente conhece-o, conhece a mulher, conhece os filhos, o pai dele era amigo do nosso pai...

É filho de Francisco Sousa Tavares. Há alguma diferença entre os políticos da geração do seu pai e os políticos hoje?

Total. Há uma altura do livro em que o personagem a que podemos chamar principal, o Filipe, tropeça no caso de corrupção de um político - não vou contar a história aos leitores - e faz uma pergunta ao avô. O avô conhecia esse político, parecia-lhe uma pessoa boa e dizia que ia votar nele. O neto sem se referir ao político pergunta-lhe: "Imagine que uma pessoa que toda a gente tem por boa pessoa, séria e honesta, afinal se descobre que não o é e que pode chegar a uma situação de poder sobre os outros. Qual é o dever? É denunciá-lo?" E o avô diz que sim, que se deve denunciá-lo. Para mim, isso significa essa clivagem entre a geração que começou a fazer política a seguir ao 25 de Abril, nomeadamente os que estavam na Assembleia Constituinte - a nata do país, basta olhar para os nomes e comparar com o que temos hoje -, movidos por ideais. Tinham esperado muito tempo para que esses ideais se pudessem concretizar. Mesmo a Constituição que temos - que acho completamente panfletária e absurda e que não seria escrita hoje em dia - reflecte de certa forma esses ideais de um mundo melhor e essa forma honesta de estar na vida.

Na aldeia, "onde a luz eléctrica chegara tarde demais para os homens, madrugada dentro" a personagem lia o Guerra e Paz.

É uma homenagem à literatura. Parece que não faz sentido que estivesse ali a pensar no Pedro Bezukhov, no príncipe André, nas tropas de Napoleão, no meio de uma aldeia alentejana deserta... Eu acho que as personagens dos grandes livros viajam connosco para sempre. E é por isso que eu não posso concordar menos com o que disse uma vez o António Lobo Antunes, que não lhe interessam nem as personagens nem as histórias. Acho exactamente o contrário, as personagens de Guerra e Paz são tão imortais que o livro nunca morrerá. Lobo Antunes dizia que só lhe interessam as palavras. As palavras só são importantes quando estão ao serviço da história.

Madrugada Suja deixa uma mensagem de esperança.

O livro tem uma grande mensagem de esperança mas ela não é evidente. É muito subliminar. Nenhum país está condenado ao mal. Embora às vezes seja difícil arranjar uma definição colectiva do que é o bem e do que é a justiça. Podemos ganhar a luta ou podemos ficar de braços cruzados à espera que o bem faça o seu trabalho sozinho.