Maioria PS na Câmara de Braga aprova estátua do cónego Melo

Vereadores do PSD e do CDS abstiveram-se na votação sobre o monumento promovido por um grupo de cidadãos.

O cónego Eduardo Melo morreu em 2002 com 80 anos
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O cónego Eduardo Melo morreu em 2002 com 80 anos Hugo Delgado/Arquivo

Braga terá em breve uma estátua do cónego Eduardo Melo numa rotunda da cidade.

A autorização para a construção da estrutura de homenagem ao homem que foi vigário-geral da arquidiocese durante mais de três décadas foi aprovada esta quinta-feira em reunião do executivo municipal, com os votos favoráveis dos vereadores do PS. Já os eleitos do PSD e do CDS abstiveram-se no momento da votação.

“Esta é uma homenagem ao cidadão cónego Melo, que era um bracarense dos sete costados”, justifica o presidente da câmara, Mesquita Machado, um dos seis socialistas que aprovou a proposta. “Testemunhei isso em várias situações. Tudo o resto deve ser abstraído”, acrescentou o autarca. Eduardo Melo foi conotado com movimentos de extrema-direita e ficou conhecido pela sua oposição à esquerda no pós-25 de Abril. Mas, para o autarca do PS, “não tem qualquer tipo de significado a ideologia da pessoa”.

Os vereadores do PSD e do CDS abstiveram-se “por uma questão de principio”, justifica o líder da coligação, Ricardo Rio. “É uma homenagem que não promoveríamos, mas à qual não nos opomos”, acrescenta , parafraseando uma frase proferida pelo arcebispo de Braga, Jorge Ortiga, quando a homenagem a Eduardo Melo foi discutida, pela primeira vez, em 2002.

A estátua do cónego Melo vai ser colocada na zona alta de Braga, no centro de uma rotunda no Largo de Monte D’Arcos, junto ao cemitério municipal. A escultura foi desenhada pelo arquitecto Fernando Jorge e será colocada no topo de um pedestal de pedra com o brasão da cidade. A operação “não terá custos para a autarquia”, sublinhou Mesquita Machado. A câmara autorizou a construção da obra, mas esta será inteiramente financiada pela comissão de bracarenses que a propôs.

À reunião do executivo de ontem assistiram quase 40 pessoas que pretendiam homenagear o cónego Melo e que receberam a decisão da câmara com um aplauso. Esta não foi a primeira vez que os órgãos autárquicos bracarenses debatem a proposta, que foi chumbada em assembleia municipal, em 2002, seis anos antes da morte do prelado. A controvérsia sobre a figura do cónego Melo já tinha levado os partidos de esquerda da Assembleia Municipal de Braga a votarem contra a proposta de construção do monumento evocativo. De resto, a estátua do cónego está construída desde essa altura.

O antigo vigário-geral da diocese de Braga morreu em Fátima, em 2008, com 80 anos, depois de um percurso que, na cúpula da Igreja Católica, que teve o seu momento mais marcante no pós-25 de Abril, quando liderou a oposição da igreja ao PCP. A sua influência estendeu-se ao Norte do país, tendo chegado a associar-se a movimentos armados de direita ligados ao general António de Spínola. Anos depois foi acusado de envolvimento na morte do padre Max, um sacerdote próximo da extrema-esquerda, morto em 1976, em Vila Real. O cónego Melo não chegou a ser pronunciado nesse caso, que terminou com a absolvição de todos os envolvidos.

Por este motivo, o voto de pesar aprovado na Assembleia da República, depois da morte deste religioso, em 2008, foi polémico. No minuto de silêncio feito em memória de Eduardo Melo, os deputados do BE, PCP, alguns socialistas como Manuel Alegre e João Soares, e parlamentares do PSD, como Emídio Guerreiro e o bracarense Miguel Macedo, abandonaram o hemiciclo em protesto.