Torne-se perito

Obtido primeiro mapa dos fungos que vivem na pele das pessoas saudáveis

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Oitenta géneros de fungos diferentes pululam na planta dos nossos calcanhares PAULO PIMENTA

De todas as zonas da nossa anatomia cutânea onde os fungos gostam de viver, a mais concorrida fica nos pés, conclui uma equipa de cientistas que acaba de estudar o ADN desses nossos hóspedes invisíveis

Andar descalço no balneário do ginásio é um convite a apanhar um fungo do género pé-de-atleta ou uma infecção fúngica nas unhas dos pés. Hoje, resultados publicados online pela revista Nature permitem explicar cientificamente por que é que isso acontece.

A pele é a barreira antimicrobiana do nosso corpo e não admira que muitos fungos e bactérias se alojem nos seus recantos mais apetecíveis - a maior parte das vezes sem complicações -, formando um complexo ecossistema ou "microbioma". O ADN das bactérias que integram o microbioma cutâneo humano foi o primeiro a ser analisado - e agora foi a vez dos fungos. Os resultados poderão ter implicações importantes em termos terapêuticos, uma vez que as infecções fúngicas afectam dezenas de milhões de pessoas no mundo (29 milhões só nos EUA!) e que mesmo infecções tão comuns como as das unhas dos pés são muitas vezes difíceis de diagnosticar e de tratar.

Julie Segre e colegas, dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) norte-americanos, identificaram, através de uma análise genética, os tipos de fungos que as pessoas saudáveis têm à flor da pele, obtendo assim uma primeira base de comparação para futuros estudos. Para isso, recolheram, junto de dez voluntários adultos, amostras biológicas em 14 locais do corpo particularmente apreciados pelos fungos - e onde costumam surgir os problemas cutâneos: a parte superior das costas, o canal auditivo externo, o vinco atrás das orelhas, a nuca, a parte da testa entre as sobrancelhas, as virilhas, a parte superior do torso, o interior das narinas, o interior do cotovelo, o antebraço, a parte da palma da mão perto do dedo mínimo, a planta do calcanhar, as unhas dos pés e o espaço entre os dedos dos pés.

A análise do ADN das amostras revelou a presença de mais de 80 géneros de fungos. Mas a sua distribuição não era uniforme: enquanto em todos os locais, excepto os três dos pés, existia um fungo esmagadoramente dominante - um fungo do género Malassezia, que habita também a pele dos animais e pode provocar, nos humanos, despigmentação na região do torso e outras -, as unhas e os dedos dos pés, bem como o calcanhar, revelaram ser autênticos centros de diversidade fúngica.

O local mais concorrido é, de facto, a planta do calcanhar, onde foram recenseados 80 géneros de fungos. Seguem-se as unhas dos pés, com 60 géneros, e o espaço entre os dedos dos pés, com 40. Os locais que apresentam uma diversidade moderada são o interior do braço ao nível da articulação do cotovelo, o antebraço e a palma da mão, com 18 a 32 géneros de fungos. Por último, salienta um comunicado dos NIH, os locais menos cobiçados são a cabeça, as costas, a nuca, o vinco atrás das orelhas e a pele entre as sobrancelhas, cada um deles só com dez géneros de fungos.

"O nosso método de identificação genética permitiu-nos distinguir os tipos de fungos e concluir que a sua diversidade depende fortemente do local do corpo considerado", diz Heidi Kong, dermatologista e co-autora principal do trabalho, citada no comunicado. O mesmo já não se verifica no ecossistema bacteriano, onde foi demonstrado que o que condiciona a diversidade é antes o facto de a pele ser húmida, seca ou oleosa.

Os cientistas compararam, aliás, o mapa da diversidade dos fungos com o das bactérias nos mesmos voluntários. E constataram que nos braços, por exemplo, a diversidade bacteriana era bastante maior do que a fúngica. Ao nível dos pés, verificou-se exactamente o oposto e, nos locais mais centrais do corpo, nem bactérias nem fungos eram muito diversos.

O que permite perceber por que é tão comum apanhar fungos no duche do balneário é, dizem os cientistas, que as comunidades de fungos dos pés parecem ser bastante instáveis. Ora, essa instabilidade poderá fornecer oportunidades, aos fungos mais perigosos, de proliferarem e causarem doenças. "A mensagem principal", diz Julie Segre, a outra co-autora principal e perita em técnicas de sequenciação de ADN microbiano, "é que os nossos pés transbordam de diversidade fúngica e que convém, portanto, usar chinelos no balneário para evitar misturar os nossos fungos com os de outras pessoas."

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