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Empreendedores há muitos, humanistas é que nem por isso

O que me espanta é que haja quem aplauda o que foi dito pelo empreendedor de 16 anos. Não pode arrogar-se o título de "empreendedor" aquele que explora o seu semelhante num sistema que pouco difere do trabalho forçado e da escravatura

Há muito que deixei de seguir o "Prós e Contras". Fi-lo desde que o programa se tornou uma arena de gladiadores, em vez da plataforma de debate pretendida. Segunda-feira, por mero acaso, andava a fazer "zapping" quando, ao passar pelo canal, a apresentadora se referia a um jovem empreendedor que aos 15 anos (agora tem 16) tinha criado o seu próprio negócio de desenho e comercialização de roupa tendo como "target" a sua faixa etária. Ouvi-o, atentamente, apresentar o projecto e explicar como o concebeu. E gostei do que ouvi. Até ao momento em que uma investigadora das questões trabalhistas lhe colocou uma pergunta sobre quem produzia as peças que ele desenhava, questionando se ele sabia que a maioria dos trabalhadores da indústria têxtil portuguesa ganha apenas o salário mínimo. E a resposta do jovem empreendedor borrou completamente a pintura que ele tanto se esforçara por bem fazer.

Não me espanta nada que um garoto de 16 anos diga que as pessoas que trabalham nas fábricas têxteis que produzem as peças que ele desenha e comercializa ganham o ordenado mínimo e, por isso, estão melhor do que estariam se estivessem desempregadas. Não me espanta, porque um garoto de 16 anos ainda está na fase de se achar "a última batata frita do pacote" e de dizer parvoeiras que significam que ele se está nas tintas para o valor do trabalho alheio e que não tem a menor noção do tremendo disparate que é achar que, só porque estamos em crise, é melhor o "muito mau" do que o "péssimo", mesmo que isso ponha em causa princípios fundamentais e direitos humanos.

E também não me espanta porque ainda há dias foi noticiado como positivo pelos nossos media o facto de um restaurante espanhol pagar o trabalho dos seus empregados com comida, achando o dono do negócio que com isso desempenhava um importante papel de ajuda àquelas pessoas num momento de crise. Aliás, os próprios empregados achavam a ideia óptima (bem melhor do que passar fome), tal como os clientes, que não viam problema algum no facto de alguém estar a enriquecer à custa de trabalho prestado em troca da mais elementar necessidade de sobrevivência do ser humano, a alimentação, aproveitando-se da conjuntura económica e social de um país em que os números do desemprego ultrapassam os 30% e os do desespero ultrapassam muito mais.

O que me espanta, confesso, é que haja quem aplauda o que foi dito pelo empreendedor de 16 anos, tal como me espantou que houvesse quem aplaudisse a medida do empresário espanhol. Espanta-me porque é aberrante que as pessoas trabalhem por comida, tal como é aberrante que as pessoas trabalhem por um valor que, segundo a OIT, não lhes permite sobreviver dignamente neste país e a que continuam a chamar "salário mínimo".

É aberrante observar que há quem não compreenda isto — que não pode arrogar-se o título de "empreendedor" ou "empresário" aquele que explora o seu semelhante num sistema que pouco difere do trabalho forçado e da escravatura.

É por perigosíssimas concepções como esta que não pode haver dúvida de que o humanismo e a sensibilidade social fazem toda a diferença na educação das pessoas. Enquanto se der mais valor ao capital financeiro do que ao capital humano, enquanto se der maior importância ao dinheiro do que ao Homem, enquanto se puserem as pessoas ao serviço do vil metal e não este ao serviço daquelas, não haverá outra coisa senão exploradores e explorados, ainda que uns e outros achem que não vem mal algum ao mundo por isso.

Já não se trata, como parecia há uns tempos tratar-se, de ausência de valores na sociedade enquanto tal. Do que se trata é de uma autêntica inversão de valores, criando sociedades em que o Homem deixou de ser o fim em si mesmo para passar a ser um meio como outro qualquer de amealhar mais um cêntimo, mais um ponto de lucro, mais uma décima no domínio do mercado. Ainda que a troco de um salário manifestamente escasso para viver com o mínimo de dignidade. Ainda que a troco de um prato de lentilhas, se preciso for.