O treinador tetracampeão do pentacampeonato do FC Porto

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Ljubomir Obradovic é muito exigente com a preparação física: "Sem força nos pulmões e nas pernas, a cabeça não funciona" Nikola Miljkovic/Ekipa

Jogou no V. Setúbal, mas é como treinador que o sérvio Ljubomir Obradovic colecciona títulos.

Não começou bem para o FC Porto a defesa do título de andebol conquistado em 2008-09. Ao fim de três jornadas, a equipa somava duas derrotas, uma fora com o Sporting da Horta e outra, surpreendente, com o recém-promovido Xico Andebol em casa. Mas a ligação entre o clube e Ljubomir Obradovic, que chegou ao Dragão em 2009 como sucessor de Carlos Resende, foi e continua a ser marcada pelo sucesso. O treinador sérvio cumpre a quarta temporada na equipa e em todas elas se sagrou campeão.

"A primeira coisa que perguntei ao professor José Magalhães quando veio falar comigo para ser treinador do FC Porto foi se, ao fim de dois meses, iria estar ao lado dos jogadores", referiu ao PÚBLICO o técnico durante o Media Day portista, no pavilhão Dragão Caixa, no Porto. "Ele perguntou porquê e respondi-lhe que iria dar outro tipo de treinos, mais duros, que era necessário trabalhar mais e mudar a mentalidade dos atletas portugueses. Perdemos com o Horta, perdemos aqui com o Xico, mas mais tarde ganhámos os jogadores", explicou.

O treinador, de 58 anos, deve estar a fazer alguma coisa bem, porque a equipa não mais parou de ganhar no campeonato. Ao título vencido sob as ordens de Carlos Resende juntou mais quatro, o que fez do FC Porto o segundo clube a conseguir sagrar-se pentacampeão de forma consecutiva - o primeiro foi o Sporting, de 1968-69 a 1972-73. A tal derrota com o Xico foi mesmo a última sofrida pelos "azuis e brancos" no seu pavilhão, em todas as competições. Desde então, passaram 84 jogos (79 vitórias e cinco empates) e quase três anos e oito meses sem conhecer a derrota em casa.

"O primeiro ano foi um choque, porque não estávamos habituados a este tipo de treino. E ao longo dos anos esses treinos são cada vez mais úteis", admitiu Ricardo Moreira, melhor marcador portista (dez golos) no triunfo sobre o Benfica, que garantiu o último título. "É um treinador muito duro, muito exigente, que tira o máximo dos atletas. Fisicamente, o FC Porto faz a diferença", acrescentou o ponta-direita. De forma regular e não só na pré-época, Obradovic também realiza sessões de trabalho fora do âmbito do treino clássico do andebol - na praia, em pistas de atletismo, jogos de futebol -, importantes, segundo Ricardo Moreira, para afastar a rotina do pavilhão.

A preparação física sustenta o estilo rápido e dinâmico de jogo dos "dragões", talvez a sua grande qualidade e um dos argumentos que têm desequilibrado a balança a seu favor a nível interno. "Quando as regras mudam, o treinador também tem que mudar. Antes, depois de um golo sofrido, não se podia começar a jogar quando a equipa adversária não estivesse toda no seu campo, mas agora há oportunidades para mudar isso. E é mais fácil aguentar o ritmo se se treinar, treinar, treinar. Sem força nos pulmões e nas pernas, a cabeça não funciona", disse Obradovic. "O nosso estilo, mais corrido, devemo-lo ao Obradovic", considerou Ricardo Moreira, que sublinhou que o sérvio os faz sentir "os melhores do mundo". A estratégia é distinta da usada por uma boa parte das outras equipas nacionais. "O Aleksander Donner, um treinador da escola russa, influenciou muitos técnicos em Portugal e a maioria adoptou um estilo de jogo pausado", concluiu o jogador.

Apesar de ter somado 48 jogos pela selecção principal da Jugoslávia, Ljubomir Obradovic, antigo lateral-esquerdo e central, nunca foi campeão nacional enquanto jogador. Foi vice-campeão ao serviço do Proleter Zrenjanin numa altura em que o Metaloplastika dominava não só o campeonato jugoslavo mas também o continente, sagrando-se bicampeão europeu em 1984-85 e 1985-86, durante um ciclo em que atingiu seis meias-finais seguidas da Taça dos Campeões Europeus. No final da carreira, surgiu a primeira ligação a Portugal, pois jogou no Vitória de Setúbal.

Regressaria ao país para treinar o Comércio e Indústria (II Divisão). "Fizemos vários jogos particulares com o Belenenses. O primeiro perdemos por 25 golos, depois por 15, depois por dez, em Março perdemos por cinco e depois conseguimos ganhar". Serviu para impressionar os responsáveis do clube lisboeta, que o contrataram para a temporada seguinte. Como treinador, Obradovic já se sagrou campeão nacional em três países diferentes e o primeiro deles foi mesmo Portugal. Na única época em que esteve no Belenenses, 1993-94, o clube quebrou a hegemonia do ABC, que entre 1991 e 1998 só falhou esse título e nessa temporada até foi finalista da Liga dos Campeões. Mas no campeonato a luta até à última jornada foi com um vizinho de Lisboa. "Foi novamente contra o Benfica. Disseram que o Restelo nunca esteve tão cheio como nesse dia". O empate a 21 serviu os interesses dos "azuis", que conquistaram assim o último dos seus cinco campeonatos na modalidade.

Ganhou depois um campeonato (1995-96) e duas Taças ao serviço do Estrela Vermelha e outra Taça no rival Partizan Belgrado. Em 1998-99 treinou o Madeira SAD, que conquistou a Taça de Portugal, embora Obradovic tenha regressado ao seu país natal antes do termo da época devido aos bombardeamentos da NATO. Um dos seus grandes êxitos aconteceu em 2000, ano em que orientou a selecção jugoslava, que se sagrou campeã europeia de sub-20. Desta vez na Macedónia, no Vardar Skopje, voltou a vencer um campeonato e uma Taça (2000-01). A penúltima passagem por Portugal não correu bem, pois não completou a época de 2007-08 no ISAVE. Passou mais tarde pelo Lovcen Cetinje, onde acrescentou uma Taça do Montenegro ao seu currículo, que depois, no Porto, não parou de ser enriquecido.