Identificado fungo responsável pela Grande Fome na Irlanda no século XIX

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Folhas infectadas pelo míldio da batata há mais de um século (em baixo) foram usadas para obter o ADN de uma devastadora praga histórica MANUEL ROBERTO

Pela primeira vez, foi sequenciado o genoma de uma praga histórica das plantas a partir de folhas, conservadas em herbários durante mais de 100 anos, do hospedeiro dessa praga

Uma equipa de cientistas da Alemanha, dos EUA e do Reino Unido anunciou ontem ter identificado, ao nível genético, exactamente qual foi a estirpe do fungo Phytophthora infestans - ou míldio da batata - que aniquilou as culturas de batata na Irlanda em 1845, matando um milhão de pessoas à fome nos seis anos que se seguiram e forçando um outro milhão a emigrar. Os resultados são publicados na recém-criada revista de acesso livre eLife.

"Descobrimos finalmente a identidade da estirpe que causou aquela catástrofe", diz Hernán Burbano, um dos autores do estudo, do Instituto Max Planck, na Alemanha, citado num comunicado da Sociedade Max Planck, instituição que edita a nova revista em colaboração com o Instituto Médico Howard Hughes norte-americano e o Wellcome Trust britânico.

Poucas doenças das plantas tiveram um impacto sobre as populações humanas comparável ao do míldio da batata, escrevem os cientistas, lembrando que a batata foi importada da América Latina pelos espanhóis no século XVI. Três séculos mais tarde, o Phytophthora infestans chegava ao Velho Continente, espalhando-se rapidamente da Bélgica para o resto da Europa continental e para os actuais Reino Unido e Irlanda. E a população irlandesa, que dependia fortemente da batata para a sua subsistência, não resistiu. "Ainda hoje", lê-se no artigo, "a população irlandesa é inferior a 75% do que era no início da década de 1840." Mais: hoje em dia, esta praga - que literalmente rói e faz apodrecer os tubérculos de batata - continua a ser, a nível mundial, a mais devastadora para esta espécie agrícola, ocasionando perdas anuais "que seriam suficientes para alimentar entre 80 milhões e muitas centenas de milhões de pessoas", frisam os cientistas.

Durante muito tempo, pensou-se que a Grande Fome tinha sido causada pela estirpe actualmente dominante de Phytophthora infestans a nível mundial, chamada US-1, que surgira nos Estados Unidos pouco tempo antes da catástrofe irlandesa. Mas, há uns dez anos, as primeiras análises genéticas do míldio presente em folhas antigas, conservadas em herbários, de plantas de batata infectadas, vieram mostrar que o fungo devastador do século XIX não pertencia à estirpe moderna. Porém, na altura, os cientistas que realizaram essas análises apenas conseguiram obter informações muito limitadas - e insuficientes para identificar o fungo com precisão. Mas agora, com o avanço das técnicas de sequenciação do ADN, foi possível, a partir de folhas secas com 120 a 170 anos, reconstituir o genoma do fungo responsável pela Grande Fome e caracterizar totalmente o microrganismo.

"Os herbários representam uma fonte muito rica, e ainda por explorar, com a qual poderemos aprender imenso acerca de distribuição histórica das plantas e das suas pragas - e também acerca da história das populações que as cultivavam", diz o co-autor Kentaro Yoshida, do Laboratório Sainsbury, no Reino Unido, citado pelo mesmo comunicado.

Os investigadores sequenciaram a totalidade dos genomas de 11 amostras de Phytophthora infestans extraídas de folhas de batata colhidas ao longo de mais de 50 anos, provenientes da Europa e dos EUA e conservadas na Colecção Botânica Estadual de Munique e no jardim botânico de Kew, em Londres. E quando compararam esse ADN com o de estirpes modernas do míldio, incluindo a US-1, concluíram que a estirpe em causa na Irlanda, embora parecida com a US-1, era diferente de todas as outras. Baptizada HERB-1, terá emergido no início do século XIX e ter-se-á espalhado pelo mundo ao longo dos 100 anos que se seguiram.

Os cientistas sugerem ainda, com base na comparação das datas de recolha dos espécimens dos herbários e das datas de colheita das estirpes modernas de míldio, que no século XVI os primeiros contactos entre populações europeias e americanas e as perturbações sociais que eles geraram terão estimulado a diversificação, migração e expansão do míldio para fora do seu ponto de origem - que se pensa ter sido o Vale de Toluca, no México -, contribuindo para acelerar a sua evolução. E que foi já no século XX - e só após a introdução de novas variedades de batata - que a estirpe HERB-1 terá sido substituída pela actual US-1.

"Talvez a estirpe [HERB-1] tenha ficado extinta quando as primeiras variedades resistentes foram criadas, no início do século XX", especula Yoshida. "O que é certo", salienta, "é que estes resultados vão ajudar-nos imenso a perceber a dinâmica dos agentes patogénicos emergentes" e que "abrem a via à descoberta de muitos outros tesouros do conhecimento escondidos nos herbários".