A vida a sério

Regresso aos subúrbios porque é lá que se descobre a vida. A vida a sério. Aquela que não está nos telejornais nem nas páginas bonitas das revistas

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Dominisspics/Flickr

Sou um gajo dos subúrbios. Sempre fui. Nasci e cresci numa zona bairrista de Mem Martins, encostadinha a Sintra, e é sempre lá onde acabo por ir parar. Para ver rostos do antigamente, agora um pouco mais envelhecidos e espantados por verem que o puto que conheciam já está feito um rapagão de barba rija.

Regresso aos subúrbios porque é lá que se descobre a vida. A vida a sério. Aquela que não está nos telejornais nem nas páginas bonitas das revistas. Porque a vida não é a mastectomia da Angelina nem a afronta do Mexia ao Pinto da Costa. Também é, mas não é só. As parangonas mediáticas não chegam a ser metade da vida a sério, nem sequer a terça parte.

A vida real é a de todos os dias. É a das vizinhas que se põem à esquina, à espera que a chuva pare, a conferenciar sobre a outra que — “diz que sim!”, revelam convictas — sofre dos abusos do filho. A vida real é a da conversa de café sobre o tempo que vai fazer amanhã e a miséria que é este Maio, que insiste em desfazer o céu em água e atirá-lo para cima da pobre gente que por cá anda. A vida real é saber se, para o jantar com a tia da Holanda, devemos pôr ou não rúcula e tomate-cereja na salada, só para parecer mais chique, como “lá fora no estrangeiro”.

Os portugueses parecem saber que a vida real está fora da televisão. Talvez por isso relativizem tudo o que por lá passa e olhem para ela como um passatempo, um entretenimento. Talvez por isso sejam o único povo do mundo que vê telejornais de hora e meia. É circo. A malta vê, reage (aplaude ou urra de desaprovação), mas no final está tudo como dantes. Acorda-se mais ou menos como ontem e vai-se vivendo até ao amanhã.

Acredito que esta assunção se deve ao conhecimento histórico subconsciente de cada um. Na escola, todos ouvimos falar dos episódios que marcaram os quase 900 anos de identidade nacional. De uma maneira ou de outra, por cá ficam. E, semeada a plantinha, fica a crescer a convicção de que, por muito mau que seja o mal, tudo acaba por se resolver. Demos no toutiço aos árabes, fizemos grandes viagens ao outro lado do planeta, expulsámos os maltrapilhos espanhóis que nos invadiram, sobrevivemos a um terramoto, vimos dois irmãos candidatos a trono à bulha e ainda levámos com a mão pesada de um ditador(zinho, se o compararmos com outros). Sabemos — conscientemente ou não — que tudo acaba por se resolver. E está giro, este pensamento, porque a vida são três dias e um passamo-lo a dormir.

Felizmente, não há maior portuguesice que esta. As coisas podem não estar bem, mas a malta cá se arranja. Não se comem três febras do lombo, mas sempre se descobre um coirato para meter no pão e uma mini para empurrar. Enquanto mastigamos, dizemos mal do circo armado por estes e aqueles. Ainda assim, mesmo optimistas, não deixamos de ter razão.

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