No quarto aniversário do Mude, há finalmente um plano para a reabilitação da sua sede

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Peças de Filipe Faísca numa exposição sobre moda portuguesa RUI GAUDÊNCIO

Em aberto está a possibilidade de as entradas no Museu do Design e da Moda passarem a ser pagas depois das obras

Quatro anos e um milhão de visitantes depois, o Museu do Design e da Moda apresenta hoje aquilo que desde o seu nascimento estava prometido: um projecto de reabilitação do edifício que habita, que ocupa um quarteirão da Baixa pombalina lisboeta e que já foi sede do antigo Banco Nacional Ultramarino. Ainda sem a necessária aprovação em reunião camarária, o projecto é coordenado pelo arquitecto municipal Luís Saraiva.

Em 2009, o presidente da câmara António Costa acreditava que o projecto de requalificação do edifício desenhado por Tertuliano Marques e Cristino da Silva (a partir de 1951) estivesse pronto em poucos anos para que o museu ocupasse todo o edifício. No quarto aniversário do museu municipal, cujas despesas de funcionamento estão a cargo da autarquia e cujo orçamento para a programação vem do Turismo de Portugal, ainda não se fixam datas para que o Mude conquiste todo o quarteirão, um edifício de 15 mil m2. "Esperamos que no final dos próximos quatro anos o Mude esteja completo", diz Bárbara Coutinho, directora do museu, que estima que as obras demorem entre um ano e meio e dois anos a realizar.

O projecto para o Mude deveria ter sido apresentado no final de 2012, mas depois de uma derrapagem nos prazos hoje será mostrado o plano que envolve uma loja que se quer "uma Fnac do design", como categoriza a directora do museu, a ocupar todo o piso térreo - mantendo o icónico balcão do BNU - e com novas portas abertas para a Rua da Prata, Rua de São Julião e Rua do Comércio. No primeiro andar funcionarão as áreas administrativas do museu, bem como o novo centro de documentação e um espaço para exposições temporárias; no segundo, funcionará o auditório desenhado por Daciano Costa e António Garcia, uma pequena cafetaria, a área educativa, espaços para residências de designers e outros para aluguer, na óptica da rentabilização do edifício.

Logo acima, dois pisos para a colecção permanente com uma nova abertura - à imagem do projecto original do BNU, que incluía um vão de cima a baixo do edifício - que os ligará ganhando um duplo pé-direito para permitir "expor peças do espólio que hoje não cabem", explica Bárbara Coutinho. No quarto piso, as reservas, que saem do actual depósito nos Olivais para vir viver para o Mude, parte delas (a colecção de moda) no piso -1 junto aos cofres, outra parte revestida a vidro no quarto andar para estarem "em parte visíveis e com programação de visita" às peças que não estiverem em exposição. Também no 5.º andar, mais reservas e as cozinhas do futuro restaurante, que irá ocupar a cobertura do edifício, um sexto andar com vista para o Castelo de S. Jorge e para o arco da Rua Augusta.

Depois de, em 2009, o projecto de adaptação do espaço para receber o museu ter sido feito pelos arquitectos Ricardo Carvalho e Joana Vilhena e de a proposta de zonamento (redefinição das zonas) do edifício ter sido assinada em 2008 por Alberto Caetano e Manuel Reis, o projecto passa agora para as mãos de técnicos da câmara. A directora do museu justifica a decisão, em curso desde 2010, com questões "financeiras" que alicerça no seu entendimento da museografia hoje.

O Mude, diz Bárbara Coutinho, que tem trabalhado com a vereação da Cultura e do Urbanismo neste projecto, "irá ser muito do que é hoje, continuando a ser um espaço onde a herança dos tempos está visível", usando soluções que já faziam parte dos projectos de Tertuliano Marques e Cristino da Silva e dotando-o de um reforço "com quatro grandes cintos metálicos" inspirado na gaiola pombalina como protecção anti-sísmica.

Questionada pelo PÚBLICO sobre se, nesse esforço de rentabilização e sustentabilidade financeira do museu, está a ser ponderada a cobrança de entrada num museu até aqui gratuito, a directora explica que esse passo não foi dado por faltarem até agora infra-estruturas de maior qualidade para o público, mas que depois de terminadas as obras essa questão pode ser levantada.

Nestes quatro anos, o Mude também viu o seu espólio, composto sobretudo pela colecção Francisco Capelo (comprada pela autarquia por 6,6 milhões de euros em 2002 e que ainda não está completamente paga) crescer. Cerca de 600 novas peças, apenas uma pequena parte de aquisições próprias e na sua maioria fruto de depósitos - aos quais se juntará o espólio documental do Centro Português de Design, protocolo a assinar nos próximos dias, e o do designer Eduardo Afonso Dias, que gerará uma exposição em 2014. Nestes quatro anos, da colecção Francisco Capelo foram mostrados 63% das peças de design de produto e 37% do espólio de moda.

A festa de anos do Mude de hoje passará exactamente pela programação para 2013 e 2014, tendo caído por terra para este ano uma exposição sobre moda brasileira no âmbito do Ano do Brasil em Portugal "porque o Governo brasileiro não disponibilizou a verba necessária", diz Bárbara Coutinho, e estando atrasada a mostra no Brasil dedicada à última década de design português. A exposição monográfica sobre Daciano Costa prevista para este ano foi adiada para 2014, ano em que o Mude se focará ainda sobre o trabalho de Francisco Providência, mas também no artista e writer de graffiti André Saraiva (Março).

Este ano ainda haverá um livro sobre o projecto do Mude editado pela Scala (Outono), uma colaboração com a Fabrica de Luciano Benneton (Setembro) coordenada pelo designer Sam Baron, a exposição-instalação dedicada ao mais internacional dos designers de moda portugueses Felipe Oliveira Baptista (Outubro), bem como a mostra Miguel Arruda-Escultura, Design, Arquitectura, já a inaugurar dia 30.