Sócrates: “Degradação das instituições atingiu o topo da hierarquia”

Presidente da República continua a ser alvo preferencial do antigo primeiro-ministro. Agenda do Conselho de Estado, diz, "não tem nexo".

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Estão em causa elementos, como escutas telefónicas, que integram o processo Operação Marquês Foto: Manuel Roberto

José Sócrates entende que os conselheiros de Estado deveriam debater a actual situação do país e não um futuro incerto. Sobretudo porque “este Governo já está a viver tempo emprestado, já está a viver à máquina de respiração assistida. E essa máquina tem um nome: Belém”. Para o antigo líder socialista, é o Presidente quem não deixa cair o Executivo.

Passos Coelho e Paulo Portas já não se entendem, acredita Sócrates. “Temos um Governo que vive um clima de guerra fria no seu interior”, afirmou. “Querem saber quem é que rompe primeiro, porque ninguém quer sofrer as consequências”. O comentador disse mesmo que Portas se tem “comportado como um verdadeiro ilusionista”.

O líder centrista é acusado de querer que os portugueses “olhem para a árvore e não para a floresta”. Isto porque Portas traçou a sua “linha vermelha” na “TSU dos pensionistas”, mas não se manifestou contra uma medida “socialmente mais injusta, com mais consequências para a economia e juridicamente mais arriscada” do que a taxa a aplicar sobre as pensões: “Pela primeira vez, o Governo propõe-se a cortar reformas já atribuídas”.

É por isto que Sócrates entende que a agenda para a reunião desta segunda-feira em Belém “não tem nexo”. “O Conselho de Estado não deve discutir o além”, afirmou. Para José Sócrates, o estado da coligação é o assunto premente e não eventuais cenários.

Sócrates criticou o conteúdo e a forma. O antigo primeiro-ministro considera que o facto de a convocação do órgão consultivo do Presidente da República ser anunciada na televisão por um dos conselheiros (Marques Mendes, na SIC), e não pelo próprio Cavaco, é um sinal de que “a degradação e o espectáculo político da degradação das instituições já atingiram o topo da hierarquia”. "Estou indignado com esta espécie de novela mexicana à volta da convocatória.”

De resto, Sócrates também criticou Cavaco por este ter associado Nossa Senhora de Fátima ao sucesso da sétima avaliação da troika. “Isto é connosco. Não é com ninguém do além”, sublinhou. “Invocar a transcendência não é bonito numa república como a nossa.”