Polimedicação, a "doença do saco"

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1. A dona Guilhermina entrou no meu consultório levando um saco em cada mão. O da mão direita estava cheio de medicamentos.

Quando lhe perguntei qual era o seu problema, despejou o saco: "É isto, sr. doutor. O senhor, por aí, já vê as minhas doenças!"

Após examinar a doente verifiquei que não só tomava medicamentos desnecessários como alguns, embora com nomes diferentes, constituíam o mesmo princípio ativo.

Ora o consumo exagerado de medicamentos prejudica gravemente a saúde, e a sua excreção, por parte de humanos e animais, polui o ambiente, provocando, ao mesmo tempo, uma escalada de custos na saúde pública.

A toma, por cada doente, de cinco ou mais medicamentos em simultâneo pode constituir um problema.

A "doença do saco" - como lhe chamei em palestra recente na Ordem dos Farmacêuticos - tem, obviamente, maior incidência junto da população sénior. Portugal fica à frente dos Estados Unidos na toma de medicamentos nos seniores (estudo da Faculdade de Farmácia de Lisboa, 2007), sendo de sete per capita, contra seis e meio, respetivamente.

Nos Estados Unidos, onde este problema tem sido estudado, observa-se que a "doença do saco" é responsável por 28% dos internamentos hospitalares (segundo dados recolhidos por Michel Stern). Nestes estudos vê-se que os custos associados ao tratamento das complicações ascendem a 136 milhões de dólares, cerca de 104 milhões de euros, por ano.

Na nossa vida clínica vamos encontrando várias explicações para esta "doença", que resultam da observação diária. Desde logo a consulta com vários especialistas, aos quais os doentes omitem o que estão a tomar, a automedicação inconsciente, os conselhos de amigos ou vizinhos, entre outras.

A estes medicamentos ditos "de farmácia" juntam-se, em alguns casos, os produtos naturais, alguns dos quais têm os mesmos princípios ativos. Em alguns casos estas associações são mesmo tóxicas.

2. Os efeitos para o ambiente são bastante graves. Estima-se que cerca de 3000 medicamentos serão excretados pelo organismo, apenas parcialmente metabolizados. Têm sido apelidados de contaminantes emergentes e foram detetados em rios e baías em vários países. Em Portugal os estudos têm sido feitos nas universidades do Algarve, Coimbra e Porto.

Nos Estados Unidos encontram-se na água hormonas, antibióticos, sedativos e anti-inflamatórios, por exemplo. Este tipo de hormonas pode levar ao aparecimento, por exemplo, de peixes com dois sexos. E, embora em doses diminutas, estas substâncias ficam muitas vezes concentradas no fígado dos peixes, que são de consumo humano (trabalho da Universidade de Gotemburgo).

Como não são depurados nas ETAR, estas substâncias passam também diretamente para a água de consumo.

3. Como atacar um problema que, para além de afetar a saúde pública e acarretar riscos para o ambiente, representa uma parcela considerável dos gastos em saúde feitos pelo Estado e pelos cidadãos?

A jusante, continuando a investigação para depurar estes produtos no tratamento das águas. De momento o único método eficaz parece ser o usado pela estação orbital e fica caríssimo.

A montante, podem tomar-se medidas imediatas: desde a formação de técnicos com conhecimentos específicos nesta matéria (possivelmente farmacêuticos) para atuarem junto de organismos de terceira idade (residências), nos centros de saúde ou clínicas, ajudando a disciplinar e fazendo o aconselhamento fármaco-terapêutico, bem como a criação de um portal europeu, como consta do documento português de saúde Fair Cost Health Care, entregue à Comissão Europeia.

Segundo um estudo da consultora Price Waterhouse Coopers (2009), na Islândia a poupança originada por esta verificação chega a 450 milhões de euros por ano e diminuíram os custos com os internamentos, muitas vezes causa de morte por complicações. Vale a pena refletir, inovar e tomar iniciativas, pois o problema é de todos nós, cidadãos, e passa para os nossos filhos e netos.

Cirurgião cardiovascular, CEO da Iberia Advanced Healthcare, presidente da Altec - Associação de Laserterapia e Tecnologias Afins