Bombista suspeito de Boston Tamerlan Tsarnaev foi sepultado num cemitério da Virgínia

A comunidade de Doswell insurgiu-se contra o secretismo que envolveu a escolha do lugar para enterrar o corpo que ninguém queria receber.

O cemitério islâmico de Doswell fica nos bosques das colinas de Caroline County na Virgínia
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O cemitério islâmico de Doswell fica nos bosques das colinas de Caroline County na Virgínia Yuri Gripas/Reuters
Entre as menos de 50 campas do cemitério está agora a de Tamerlan Tsarnaev, tapada por um oleado
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Entre as menos de 50 campas do cemitério está agora a de Tamerlan Tsarnaev, tapada por um oleado Yuri Gripas/Reuters

Sabia-se há uns dias que Tamerlan Tsarnaev, o suspeito dos atentados da maratona de Boston de 15 de Abril que foi morto no tiroteio com a polícia quatro dias depois, tinha sido sepultado num local secreto nos Estados Unidos. Agora sabe-se que esse local é o cemitério islâmico de Doswell na Virgínia – um lugar recolhido nos bosques das colinas do Caroline County, a cerca de 40 quilómetros de Richmond, e pequeno, não reunindo mais de 50 campas.

Perante a recusa de vários cemitérios de Massachussetts e doutros estados, a polícia de Worcester, cidade da agência funerária onde o corpo esteve conservado nas últimas semanas, lançou uma campanha a pedir ajuda para encontrar um cemitério. A morte de Tamerlan foi declarada num hospital de Boston, onde podia ter sido enterrado, de acordo com a lei estadual. Mas as autoridades da cidade recusaram, bem como as de Cambridge onde Tsarnaev vivia.

A primeira pessoa a responder aos apelos da polícia para ajudar a encontrar uma cidade e um cemitério que aceitassem o corpo foi Martha Mullen de Richmond na Virgínia. Ao Washington Post, disse que não podia ficar indiferente. “O meu primeiro pensamento foi: Jesus diz para amarmos os nossos inimigos e não os odiarmos depois de morrerem”, explicou àquele jornal.

Martha Mullen tem 48 anos e trabalha na área da saúde mental. Num segundo pensamento, interrogou-se por que razão Tamerlan Tsarnaev não havia de poder ser enterrado se pessoas como Adam Lanza – autor do massacre na escola primária de Sandy Hook, em Newtown, em Dezembro, que matou 26 pessoas entre as quais 20 crianças – ou o atirador do massacre de Virgínia Tech em 2007 que matou mais de 30 pessoas – o foram.  

“Por alguma razão, este tipo é diferente”, disse ao jornal. “E a única diferença que vejo é que as pessoas o vêem como terrorista, como checheno ou como muçulmano.” Concluiu que alguém devia ajudar e que essa pessoa podia ser ela. Manteve contactos com responsáveis da polícia de Worcester e com os líderes das comunidades judaica, muçulmana, hindu e com o seu pastor metodista, em Richmond, e a realização do enterro foi consentida.

Comunidade perplexa
O corpo foi levado de Worcester para o cemitério de Doswell na quarta-feira à noite. Doi dias depois, as primeiras reacções começaram a surgir entre a comunidade: se não foi enterrado em Boston ou em Cambridge, no estado do Massachussets, por que haveria Tamerlan Tsarnaev de o ser na Virgínia?, interrogaram-se. O Centro Islâmico da Virgínia também contesta e diz não ter sido consultado, ao contrário do que terá sido a Sociedade Islâmica de Richmond.

O imã Ammar Amonett explicou à Associated Press que a comunidade está enfurecida por tudo ter sido feito em segredo. “Os familiares das pessoas ali sepultadas vão ter agora de visitar aquele sítio”, afirmou, partilhando o receio de outras pessoas ouvidas pela agência de que o cemitério possa agora ser vandalizado ou, pelo contrário, tornar-se um santuário para os simpatizantes de Tamerlan Tsarnaev. Depois da morte de Tamerlan e de uma gigantesca operação policial, o seu irmão Dzhokhar, 19 anos, foi detido e confessou a autoria dos atentados com Tamerlan.

Um tio de ambos Ruslan Tsarni condenou a acção dos sobrinhos, dizendo que esta envergonhava a família e toda a comunidade chechena mas assumiu a responsabilidade pelo corpo, que estava numa funerária em Worcester, no Massachussetts, depois de a viúva Katherine Russell ter recusado fazê-lo dizendo que cabia à família chechena essa responsabilidade.

As autoridades e a funerária depararam-se então com a persistente recusa de vários cemitérios e autoridades de vários estados de sepultar o corpo. “Ninguém no país inteiro queria este tipo. Absolutamente ninguém,” disse à Associated Press Peter Stefan da funerária que conta que se desdobrou em dezenas de contactos para cidades em vários estados e o que ouviu foi sempre um “não”. Sempre, até aparecer Martha Mullen.