Provável saída de Martin André da direcção artística agita São Carlos

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Martin André é director artístico do São Carlos desde 2010 Miguel Manso

Maestro britânico termina contrato a 31 de Julho e não deverá continuar. SEC não confirma a saída nem comenta possíveis substitutos. E a próxima temporada?

Martin André, o maestro britânico que desenha a programação do Teatro Nacional de São Carlos deste 2010, termina o seu mandato a 31 de Julho. Nos bastidores diz-se que o director artístico não quer continuar em funções e avançam-se hipóteses para a sua substituição. Para já, a Secretaria de Estado não confirma a sua saída e, por isso, o gabinete de Jorge Barreto Xavier também não comenta os nomes que estarão em cima da mesa para ocupar a cadeira que Martin André deixará livre. Mas, ao que o PÚBLICO apurou, os maestros Rui Massena e Cesário Costa são duas das hipóteses.

"A saída ou renovação do contrato do director artístico é um assunto que está nas mãos do secretário de Estado da Cultura, não passa pela administração", disse ao PÚBLICO João Villa-Lobos, presidente do conselho de administração do Opart - Organismo de Produção Artística, entidade que gere o São Carlos (com a Orquestra Sinfónica Portuguesa e o coro) e a Companhia Nacional de Bailado (CNB). "Nós não temos qualquer envolvimento na escolha dos responsáveis artísticos, nem no São Carlos, nem na CNB."

Contactado ontem a meio da tarde, o secretário de Estado não quis avançar pormenores sobre a situação no São Carlos. O maestro britânico também não esteve disponível para comentar a sua provável saída. No entanto, outras fontes ligadas ao São Carlos garantiram ao PÚBLICO que Martin André não renovará contrato.

Os representantes do coro optaram por não prestar declarações, mas Emídio Coutinho, da comissão da Orquestra, assegurou que os músicos não têm qualquer informação oficial de que o director artístico vá sair. Martin André disse-lhes apenas que "nestas circunstâncias não gostaria de continuar", mesmo que fossem outras as intenções da Secretaria de Estado.

Perante a eventual saída do maestro, a 24 de Abril a comissão da orquestra escreveu a Barreto Xavier pedindo-lhe que o próximo director fosse escolhido por concurso público internacional. Para os músicos, deverá ter perfil e experiência internacionais, conhecer o meio lírico e dispor de uma carteira de contactos de maestros e solistas. "Não podemos trabalhar em cima do joelho", diz o representante, salientando que Martin André procurou adaptar-se a um orçamento que correspondia a menos de um terço do previsto "e tentou sempre colocar a orquestra e o coro acima de qualquer valência pessoal".

E a partir de Setembro?

A temporada lírica concebida pelo ainda director artístico termina hoje, com a última récita de Rigoletto, e nada se sabe sobre o que o São Carlos irá apresentar até ao final do ano, ao contrário da CNB, que está programada até Dezembro. Se excluirmos o Festival ao Largo, que por hábito conta com a participação dos corpos artísticos do Opart e cuja realização foi confirmada ontem por Barreto Xavier, o teatro costuma fazer uma pausa na sua programação entre Julho e Setembro. "Não posso dizer nada sobre o que vai passar-se a seguir porque isso está nas mãos da Secretaria de Estado", acrescentou Villa-Lobos.

Neste momento, esclareceu o administrador, o Opart está a trabalhar com a Cultura e as Finanças para resolver o problema do pagamento do subsídio de férias, cujo corte foi anulado pelo Tribunal Constitucional. "O pagamento desse subsídio não estava previsto no nosso orçamento e agora temos de encontrar uma solução." Villa-Lobos diz que neste momento há ainda um clima de indefinição em relação ao próximo ano porque não se conhece o orçamento rectificativo, que deverá ser divulgado até ao final deste mês. O Opart tem trabalhado com base na verba atribuída pelo Orçamento de Estado de 2012, aprovado em Dezembro - 15 milhões de euros (São Carlos e CNB) - e Villa-Lobos não concebe que este montante venha a descer com o rectificativo. "Não considero esse cenário porque não seria possível acomodar mais cortes no financiamento com esta estrutura." Apenas uma ínfima parte destes 15 milhões são para programação: quase um milhão de euros no São Carlos e metade na CNB (ao qual se juntam os 300 mil euros de mecenato da EDP). Para Villa-Lobos, os cortes são inconcebíveis, assim como o teatro vir a fechar a partir de Setembro, possibilidade avançada ao PÚBLICO por várias fontes, que preferiram o anonimato. "O teatro não vai fechar - isso é certo. Mas não sabemos se a sua actividade vai ser afectada." É preciso esperar pelo rectificativo.

Cortes permanentes

Martin André assumiu a direcção artística em 2010 e, desde aí, enfrentou grandes dificuldades financeiras. As suas temporadas, que levantaram muitas reservas aos críticos e ao público mais atento, foram sempre sujeitas a orçamentos tardios e a surpresas desagradáveis.

No ano passado, o corte no orçamento de programação em relação à temporada de 2011 foi de 72%, agravado pelo facto de a redução no financiamento só ter sido dada a conhecer pelo Governo no início de 2012, quando Martin André estava já a trabalhar na temporada. Esta situação levou ao cancelamento de três das sete óperas previstas. Em 2013, o corte de 72% manteve-se, o que obrigou a trilogia Verdi que hoje termina, sempre com lotação esgotada (Il Trovatore, La Traviata e Rigoletto), a partilhar custos para além do que seria desejável (tiveram, por exemplo, o mesmo cenário).

Uma leitura rápida pelo que foi saindo nos jornais desde 2010 mostra-nos que Martin André, o director que chegou a comparar o acto de programar uma temporada no São Carlos ao trabalho num restaurante em que o frigorífico está vazio, lidou com orçamentos que apenas lhe permitiam assegurar os "serviços mínimos". Quem aceitará ocupar, agora, o seu lugar? Quem programará até que seja encontrado um substituto?

Na entrevista ao PÚBLICO em Fevereiro, Barreto Xavier dizia que a programação de 2014 já estava a ser trabalhada, mas agora, e por email, garantiu apenas que o teatro não fechará em Setembro, sem adiantar uma data para a apresentação da temporada.

O maestro Rui Massena reconheceu saber que o seu nome foi falado para o cargo, mas optou por não comentar: "Não recebi ainda qualquer contacto nesse sentido. Ninguém me sondou." Cesário Costa, o actual director artístico da Orquestra Metropolitana de Lisboa, esteve incontactável até ao fecho desta edição.