E se os velhos partissem montras?

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Tenho dificuldade em aceitar que a vida das pessoas seja destruída para cumprir uma crença cega

Indigno. Esta é a única palavra que é possível pronunciar, depois de ouvir o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, a anunciar algumas das medidas com que pretende cortar quatro mil milhões de euros às despesas do Estado português. E a palavra é indigno porque o que está em causa na governação deve ser a preocupação de zelar pelo bem-estar e pela dignidade das pessoas e a forma como o primeiro-ministro se propõe fazer cortes é atentatória do bem-estar e da dignidade das pessoas, reduzindo o valor do seu trabalho.

A indignidade estigmatizadora de pessoas atinge um patamar de vómito quando se pondera a criação de um imposto especial sobre quem já viveu mais anos e que já cumpre há mais tempo as suas obrigações para com a sociedade, desempenhou funções profissionais e agora vive o período da sua vida em que é suposto auferir as pensões que acumulou ao longo da sua vida profissional. Só que na mesma linha do seu companheiro de partido, o deputado Carlos Peixoto, o primeiro-ministro investe contra a "peste grisalha", fala dos reformados como de velhos que pesam na sociedade. Como se achasse que as pessoas mais velhas têm de ser punidas por estar vivas, por ainda não terem morrido e usufríirem de dinheiro que acumularam.

Tenho dificuldade em aceitar que a vida das pessoas seja destruída para cumprir objectivos baseados em crença cegas e acríticas na ideologia, ainda por cima uma ideologia que se abraça de forma seguidista. E o tipo de medidas de austeridade mais uma vez anunciadas apenas apontam para que o Governo está a seguir um guião, internacionalmente acordado, que tem como finalidade sobretudo cumprir um programa ideológico.

Sob o falso pretexto de uma reforma do Estado de que se enche a boca mas que nunca foi de facto estudada por ninguém com responsabilidades governativas nos últimos vinte anos, o objectivo é desfazer a economia, porque se quer mudar o modelo económico. Ou seja, de uma organização social e económica que vive em função do bem-estar de todas pessoas, do interesse público e da redistribuição de riqueza, estão a passar para uma sociedade organizada numa lógica de lucro e de mercado, de concentração da riqueza, do agravamento da desigualdade e de favorecimento de interesses privados.

E isso é agora conseguido através da redução do valor do trabalho, através da diminuição da redistribuição da riqueza que essa baixa do valor do trabalho representa, já que o dinheiro que sai dos salários e da redistribuição garantida pelos serviços sociais passará para o lucro de interesses privados. E este pacote de medidas é uma forma de baixar o valor do trabalho.

Mais uma vez, a formula é a da estigmatização de pessoas, como a que está contida no anúncio de que se vai convidar 30 mil pessoas a abandonarem o funcionalismo público, supostamente porque onde estão não servem para nada, estão a mais, são dispensáveis. Isto, sem equacionar o impacto que esta redução terá na qualidade dos serviços públicos prestados, nomeadamente no ensino público e no Serviço Nacional de Saúde. Por outro lado, aumenta o horário de trabalho para 40 horas semanais, sem que fale em aumentar o salário na proporção correspondente da subida de carga horária.

Mas se o despedimento de pessoas e a redução de salário pelo aumento da carga horária é indigno, ainda mais indigno é desestruturar a Segurança Social, a qual permite que as pessoas tenham segurança quando se reformam, depois de descontarem ao longo de uma vida de trabalho e de acumularem o seu rendimento, que entregam ao Estado para que este gira em seu nome. Cortar pensões e reformas é roubar o que as pessoas acumularam. E transforma o Estado em ladrão e mostra que o Estado não é pessoa de bem, não é confiável. Obtém-se assim o efeito ideológico de assustar as pessoas e empurrá-las para o sistema privado de reformas.

Criar um imposto sobre pensões e reformas é não só um roubo à propriedade privada de quem trabalhou e descontou mas é também uma indignidade feita a quem está na fase mais desprotegida da sua vida adulta, pessoas que muitas vezes estão sós, com problemas de saúde e com limitações físicas, fragilizadas. É suposto que os reformados apenas se manifestem, verbalizando a angústia.

É certo que também votam. Um facto que parece preocupar Paulo Portas, numa divisão de papéis na coligação que é uma encenação política de recortes inéditos. Desde quando os líderes partidários de uma coligação de Governo discutem em público as medidas desse Governo?) Mas o objectivo de Passos não passa pelas eleições. É, sim, desfazer o modelo económico-social e sabe que isso só resulta se for rápido. Assim, carrega onde é fácil carregar, até porque é suposto que os velhos não partam montras.

Jornalista. Escreve ao sábado [email protected]