Catavino mudou-se para o Porto e quer que o mundo se apaixone por Portugal

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Ryan e Gabriella viveram oito anos em Espanha e instalaram-se agora no Porto para, a partir da cidade nortenha, divulgarem tudo o que vale a pena saber sobre os vinhos, a gastronomia, a paisagem e as gentes de Portugal

Os norte-americanos Ryan e Gabriella Opaz trocaram Espanha por Portugal e preparam-se para levar Portugal ao colo até aos Estados Unidos. Começam com os vinhos, mas querem divulgar tudo o que de bom se faz entre nós. Patrícia Carvalho (texto) e Nuno Alexandre Mendes (foto)

O anúncio tinha sido feito em Janeiro e, no início de Março, a mudança concretizou-se. O blogue Catavino, uma das maiores referências internacionais sobre vinho e gastronomia da Península Ibérica, abandonava Barcelona, em Espanha, e instalava-se no Porto, em Portugal. Ryan e Gabriella Opaz, o casal norte-americano mentor do projecto, está empenhado em dar a conhecer ao mundo esse segredo involuntário que é a riqueza cultural, gastronómica e vinícola do país. A partir do Porto, mas não só. Na verdade, no final do mês, vão andar pelo Midwest, nos Estados Unidos, com uma carrinha cheia de vinho nacional e muitos mapas na mão. O que é que Portugal tem? Ora provem e vejam.

As paixões não se discutem e a paixão de Ryan, 38 anos, por Portugal é mesmo assim. Viveu um ano no Brasil, em 1993, aprendeu a falar português e essa foi uma das razões que o levou a escolher o país para a viagem que celebrou o início da sua relação com Gabriella, em 2003. Vieram, viram, gostaram e regressaram aos Estados Unidos, onde tomaram uma decisão - abandonar o país, a casa, os empregos e instalarem-se na Península Ibérica. Onde? "Eu queria Portugal, mas ela queria Espanha e fomos para lá", diz o sorridente Ryan, sentado a uma das mesas do café Guarany, na Baixa do Porto.

Grávida de seis meses ("Ele vai ser um portuense, um tripeiro", ri-se ela), Gabriella, 37 anos, confirma que "lutou por Espanha". Motivo: este era o país de origem do seu pai, José António. Foi, por isso, em Espanha que, em 2005, nasceu o blogue Catavino. Uma referência para os amantes do vinho português e espanhol, mas longe de ser apenas um blogue sobre vinhos. "Ele é apenas a cola de tudo o resto", justifica Gabriella.

Os dois entendem o tema da mesma maneira - falar de vinho pelo vinho não lhes interessa. "O vinho sem contexto não é nada", defende Ryan. O número de prémios que um vinho teve não lhes interessa particularmente. Já a história por trás da família que produz o vinho encanta-os. A região em que ele se insere e a que está intimamente ligado é algo que se sentem obrigados a explorar e a divulgar. E a comida que o acompanha merece todo o destaque possível.

Provar Portugal

Viveram oito anos em Espanha (sem nunca perderem Portugal de vista) e agora trocaram de país. No blogue indicaram cinco razões para esta decisão - a possibilidade de terem, à mão de semear, o vinho do Porto, a simpatia das pessoas, a arquitectura, a língua e a comida. No Guarany, resumem tudo de forma mais simples. "Oportunidades. Há alguma coisa que falta aqui, há enormes oportunidades no turismo que não estão a ser aproveitadas. Vocês têm imensos parques naturais de que ninguém fala. Eu venho para cá há dez anos e só agora descobri o Parque da Cidade, que é um local absolutamente fabuloso. Como foi possível que o tivessem mantido em segredo? Fiquei chocado", diz Ryan.

A partir do Porto, o que o casal se propõe fazer é dar a conhecer todo esse Portugal por descobrir àqueles que seguem o blogue e que são "80% norte-americanos". Ryan garante que não querem ser uma agência de turismo, mas não descarta a hipótese de virem a oferecer alguns serviços e apoio que não existam por cá. Muito do que poderá ser descoberto no blogue, contudo, é a divulgação do que de bom existe e já está a ser feito.

Que, diga-se, continua a chegar de forma muito deficitária ao mercado norte-americano. "Se perguntarem a um americano sobre um prato típico de Portugal não sabem responder. Já Espanha tem a paella. Espanha beneficiou muito do mercado americano não pelo vinho, mas pelo turismo. Por causa do turismo foram a Espanha e ficaram a conhecer o vinho deles. Agora, é preciso que venham a Portugal e provem o que cá há", explica Ryan.

O primeiro passo para esse aliciamento do mercado norte-americano já está a ser dado através do blogue. O segundo vai chegar ao Midwest, a região centro-oeste dos Estados Unidos, sob a forma de uma carrinha carregada de vinhos do Douro. Ryan e Gabriella, acompanhados de representantes de quatro produtores nacionais (Poças, Quevedo, Quinta de Romariz e Julia Kemper) prometem levar vinho "e muitos mapas de Portugal" a lojas, restaurantes, junto de outros bloguers. O vinho há-de acompanhar um tradicional barbecue (churrasco) em Kansas e pode ser o ponto de partida para encontros imprevistos. "Temos uma grande interacção com os nossos leitores e planeamos fazer algo como informar que a Catavino está na cidade, convidando-os a juntarem-se a nós, em encontros espontâneos", explica Ryan.

Se correr bem, esta pode ser a primeira de muitas viagens para estas e outras marcas de vinhos nacionais. A outra aposta do casal é o livro em que Gabriella está a trabalhar intensamente, em colaboração com uma emigrante portuguesa e colaboradora do blogue, Sónia Nolasco. Uma obra muito voltada para a gastronomia regional, "cheia de receitas" e que deverá estar pronta lá para o final do ano.

Até lá, Ryan e Gabriella vão explorar muito do país (nunca foram ao Algarve nem aos Açores e Madeira), organizar a Conferência Europeia de Bloguers de Vinhos (em Outubro, em La Rioja, Espanha), ter um filho, deliciar-se com a alheira ("uma delícia dos céus", para Ryan), francesinhas e bifanas. E divulgar, divulgar, divulgar. Para que não restem dúvidas, Ryan explica porquê: "Tenho um amigo que viaja imenso, por todos os locais que se possa imaginar. Ele gosta de alugar uma casa por uns dois meses e ficar por ali, indo aos mercados, comprando os produtos locais e cozinhando. Há uns tempos ele estava num cruzeiro que parou em Lisboa por umas horas. Saiu, entrou num restaurante, comeu polvo ou algo assim e depois da viagem disse-me que tinha sido a melhor experiência que tinha tido na vida. "Como é que eu nunca tinha ouvido falar nisto?", perguntou-me. Algo falta, quando pessoas como ele não sabem que Portugal existe".