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Maria RIta
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Maria Rita esculpiu um livro de Valter Hugo Mãe

"O filho de mil homens", de Valter Hugo Mãe, foi transformado numa exposição. São livros, rendas e portas de madeira. "Continua a ser uma história de amor, pesada", contou a artista ao P3

As ausências e os silêncios. Os precipícios e os poços fundos. Não vemos "O filho de mil homens", mas sentimos o livro de Valter Hugo Mãe a voar na tesoura de Maria Rita. "Continua a ser uma história de amor, pesada. Mas é uma história diferente", contou ao P3 a artista plástica que no dia 11 apresenta a exposição "O filho de mil homens", na Galeria Trema, em Lisboa (até 8 de Junho).

À volta de Maria Rita há caixas e caixas de tudo. De rendas e de bordados, de portas velhas e de chaves que não casam com a fechadura. "É o meu trabalho", diz a artista (formou-se no Ar.Co em 1995, curso de Cerâmica) perante um cenário, que a própria descreve como uma "casa de velharias, uma casa assombrada". Os limites são quase sempre traçados por pilhas de "livros que não têm nada a ver com o livro" — com "O filho de mil homens", o seu último objecto de trabalho.

São esculturas de papel. "É a minha interpretação, são várias histórias que se cruzam", explica Maria Rita. Não retalhou "O filho de mil homens", de Valter Hugo Mãe, mas o escritor até desejou o contrário. "Quando conheci o trabalho da Maria Rita Pires, acerca daquela Alice num país de maravilhas, invejei aquilo tudo. Fiquei roído como muito má gente, a querer ver os meus livros mudados para esculturas iguais, cheias de papelinhos delicados que parecem também palavras recortadas, pequenas palavras que, sem falarem, mostram uma figura ou um objecto", admite Valter Hugo Mãe, impressionado "com o paciente das suas peças e muito com a vulnerabilidade que inspiram".

Maria Rita usa tábuas e rendas. E a tesoura para esculpir livros anónimos e um dicionário com a definição da palavra "desflorar". "O meu próximo trabalho vai ser sobre o teu livro", comunicou a artista ao escritor. Ele sorriu.

"Milagrinhos de papel"

Na opinião do escritor, "O Filho de Mil Homens" é "a reclamação da vulnerabilidade como um direito de beleza de carácter". E a artista, segundo ele, "não podia ser mais indicada para lhe deitar mão". "O que para mim significa o seu trabalho é a desarmante beleza que, feita do espectral comportamento do papel, simboliza também o interior. Como se radiografasse as almas de cada coisa e as expusesse, mais ou menos voadoras, tão leves quanto sensíveis ao vento, para que contemplemos o coral de que se compõem".

"O modo como o papel floriu, como se fez pássaro e borboleta, a roupa interior que seca na árvore, tudo me maravilha. Como se o mundo do livro se traduzisse num atrito ínfimo da luz, uma presença quase ausente, igual às visões de sonho. O trabalho da Maria Rita Pires deslumbra-me. Põe-me a ver milagrinhos de papel. Aquilo que os escritores tanto buscam nas palavras e que ela encontrou tão ao pé delas".

O papel dos livros — e os livros de papel — têm sido um ponto de partida de exposições como "Alice", que Maria Rita criou e instalou na Storytailors. "Sempre me encantei com objectos antigos, coisas que me transportem no tempo. Gosto do cheiro dos livros antigos, de descobrir as rendas e os linhos no baú das tias  e de ouvir histórias. Recordo-me de quando era pequena estarem sempre a repreender-me porque estava constantemente com a cabeça nas nuvens. Sinto que hoje o meu trabalho é um prolongamento desse tempo. Gosto de estar com a cabeça nas nuvens"