Uns dizem que foi "fácil, mesmo muito fácil", outros desejam que "exames nunca mais"

De cada vez que uma criança se aproxima do pátio da Escola Básica do 1.º ciclo de Barcouço, no concelho da Mealhada, um coro de vozes infantis e ansiosas pergunta: "Estás nervosa? Estás nervoso?". À medida que os minutos passam e o ponteiro se aproxima da hora do exame do 4.º ano de Português, aumenta o número dos que aguardam o autocarro para seguir para o local da prova e agrava-se a angústia dos recém-chegados. "Não têm nada que estar nervosos!", ralha uma mãe que, tal como as outras mães e alguns pais, relembra pela terceira vez às crianças que "devem ler as perguntas duas vezes", "reler a resposta" e, principalmente, que se devem manter calmos.

Não estão calmos. A novidade do cartão de cidadão e o gozo proporcionado pelas fotografias de uns e dos outros é a componente menos pesada da conversa que inclui a descrição de vómitos, dores de barriga, sono perdido, mãos a suar, tremedeira nas pernas e falta de ar. Isto apesar de, como comentam os pais, todos terem seguido a sugestão da professora, que os aconselhou a evitar o chocolate pela manhã, para não ficarem ainda mais excitados.

À despedida, as mães dão abraços e beijos, acompanhados pelas últimas recomendações. Nem um quarto de hora depois de entrarem no autocarro, já o grupinho tem à sua frente a Escola do 1.º Ciclo da Pampilhosa, que, por ser a maior e de construção mais recente, foi baptizada com o nome de Centro Escolar.

Para que os 177 alunos das oito escolas do concelho pudessem fazer o exame em sossego, os 150 que ali têm habitualmente aulas, do 1.º, 2.º e 3.º anos, ficaram em casa. O recreio enorme fica, no entanto, deserto. Os miúdos fogem para ir uma última vez à casa de banho e regressam para junto das respectivas professoras, que estão ali para os encorajar.

Quando finalmente se distribuem pelas salas, começa um vaivém silencioso de adultos. Os professores do 4.º ano esperam pela prova que depois folheiam, ansiosos, para prever dificuldades e rasteiras. Os elementos da direcção e do secretariado de exames não param: uma criança vomitou, outra enganou-se a escrever o nome no cabeçalho da prova, uma terceira vomitou e há mais uma com falta de ar.

Quando saem para o intervalo, depois da primeira parte do exame e antes da composição, os risos voltaram. "Foi fácil! Mesmo muito fácil!", juram, à vez. A professora, Isabel Pais, não se deixa levar. Não tem tempo para saber se as crianças interpretaram de forma correcta o texto da ex-jornalista do PÚBLICO Helena Geraldes, sobre a descoberta de 120 novas espécies nas Berlengas, ou o excerto d"A Sereiazinha, de Hans Christian Andersen. "É "crer" ou "querer" em sereias? O que é que escolheram?", pergunta a professora, prática e incisiva. Há quem se tenha lembrado da catequese e por isso tenha achado que em Deus e em sereias se crê. Outros sobressaltam-se: "Não era querer?..."

Esse grupo II tinha outras armadilhas. Habituados a trabalhar com sinónimos ou antónimos, nem todos corresponderam ao pedido de ler a frase "a escultura de mármore tinha a altura de um rapaz" e escrever outra em que a palavra altura tivesse um significado diferente. Uns escreveram "comprimento", outros "medida", outros calam-se: "Não me lembro, professora". "Estão demasiado nervosos. Dos meus alunos, também só um ou dois é que fizeram bem", compara outra docente quando todos os alunos regressam às salas de exame. Com os "há" e os "à" não parece ter havido problemas e os graus dos adjectivos, que tanto protagonismo tiveram na revisão da matéria, não chegaram a aparecer.

A segunda parte da prova passa rapidamente para os alunos, que, adivinharam logo as professoras, "adoraram o tema". Ninguém teve dificuldade em imaginar e descrever as aventuras de uma gaivota que leva a pequena sereia a passear - uns foram à China, outros a África, também há quem tenha escolhido o Canadá e até quem tenha ficado em Portugal, para cumprir "a rota da gastronomia".

No fim das aulas estão cansados e alegres. Lara está aliviada: teve de usar a bomba de asma, mas depois de repetir para si própria "acalma-te, acalma-te", conseguiu levar a gaivota e a sereia de volta ao mar. Tiago procura explicar por que é que, apesar de ser aluno de Bom e Muito Bom, entrou na prova convencido de que ia chumbar: "Olhe que lá dentro, enquanto não tive a prova na mão, até chorei. Só duas lágrimas, mas chorei!", garante. "É fácil: é a pressão de fazermos boa figura", comenta Rodrigo, que também é bom aluno.

Já dentro do autocarro dizem que não, que não estão aliviados, porque não têm tempo para isso. Sexta têm o exame de Matemática e depois há a espera pelos resultados. "É que nem é bem a nota que me preocupa, o que eu não quero mesmo é passar pelos exames outra vez", diz Rodrigo. Os que estão mais próximos retorcem-se nos bancos, presos pelos cintos de segurança, para trocarem olhares e confirmarem que é isso mesmo: "Exames nunca mais..."